ALdCS – Capítulo 29

Terceiro Dever Diário do Cavaleiro Sol: Gerencie os Mortos-Vivos da Cidade (Parte 1)

Com meu pé, chutei a porta de madeira da casa de Rosa, mas em vez de encontrá-la, vi outra pessoa… quero dizer, outro cadáver lá dentro.

Roland tinha os distintos olhos brilhantes de um Cavaleiro da Morte, mas ele não era um Cavaleiro da Morte comum. Uma tatuagem de fogo negro queimava em seu cadáver pálido.  Um conjunto de asas de dragão com garras afiadas brotou de suas costas e uma espessa aura das trevas permeava o ar ao redor dele.

Ele tornou-se uma criatura especificamente mencionada pelo livro-texto “Conhecimento Básico de Criaturas Mortas-Vivas”, que em nenhuma circunstância deveria ser criada. Ele pode convocar toda uma legião de mortos-vivos e é considerado o mais forte entre as criaturas mortas-vivas: o Senhor da Morte. Ele estava neste momento usando um avental rosa, agachado no chão e esfregando o chão com um pano.

— Roland, o que você está fazendo? — Eu perguntei sem expressão.

Roland levantou a cabeça em absoluta calma e me respondeu com toda a seriedade:

— Estou limpando o chão.

Depois de um momento de silêncio, meu estômago roncou de repente. Eu explodi abruptamente em um ataque de raiva, lançando sobre uma mesa com um movimento rápido e gritando:

— Por que diabos você está limpando o chão?! Você é um maldito Senhor da Morte que comanda legiões de mortos-vivos! Você devia estar lá fora massacrando todo mundo, de leste a oeste, de norte a sul. Você devia estar correndo e matando sem parar até que o sangue flua como um rio e os cadáveres fiquem espalhados por todo o campo. Caramba, não se esqueça que você é um Senhor da Morte!

Como se estivesse se espantado com o meu discurso, Roland olhou para a mesa virada e depois olhou para mim. Ele finalmente franziu as sobrancelhas e disse:

— Grisia, você é o Cavaleiro Sol.

Segurando um pirulito, Rosa balançou a cabeça e suspirou enquanto chegava:

— Mas que tempos estranhos são estes que vivemos! O Senhor da Morte obedientemente limpando o chão enquanto o Cavaleiro Sol quer matar até que o sangue flua como um rio.

Roland disse com uma cara séria:

— Não diga essas coisas, Rosa. Grisia é realmente um Cavaleiro Sol muito bom…

Assim que vi Rosa, corri na direção dela. Eu peguei seu pirulito em um movimento suave e lambi o doce de morango como se minha vida dependesse disso. Eu disse comovido:

— Tão doce, ah… tão doce. É tão delicioso!

— Quê? — Rosa olhou fixamente por um segundo antes de começar a chorar compulsivamente, batendo em mim com os punhos enquanto pulava para cima e para baixo na tentativa de pegar o pirulito de volta. Claro, para alguém de sua estatura, até mesmo pular era fútil, pois ela ainda não seria capaz de alcançar o pirulito em minhas mãos. No final, ela soluçou:

— Sol, seu grande malvado valentão, devolva-o para mim! Eu quero meu pirulito de volta, ahhhh!

Roland fez uma pausa um pouco antes de me repreender fervorosamente:

— Grisia, como Cavaleiro Sol, você não deveria estar roubando pirulitos de garotinhas. Isso não é uma conduta adequada.

Eu respondi enquanto lambia o pirulito:

— Eu não vejo nenhuma garotinha por perto, apenas o cadáver de uma. Que tipo de cadáver ainda lambe pirulitos?! Como Cavaleiro Sol, eu definitivamente não posso permitir algo como o desperdício de comida!

Ao ouvir isso, Roland franziu a testa, incapaz de me refutar.

Percebendo que o choro era ineficaz, Rosa imediatamente parou de chorar. Ela estufou as bochechas e acusou:

— Você permitiria que uma necromante e um Senhor da Morte permanecessem ilesos diante de seus olhos, mas não permitiria o desperdício de um único pirulito? Roland, você acabou de dizer que esse sujeito que rouba pirulitos de garotinhas é na verdade um bom Cavaleiro Sol?

Roland não pareceu ouvir a voz de Rosa. Parecia que ele ainda estava considerando se roubar o pirulito de um cadáver estava certo ou errado.

— Hmph! — Rosa pairou lentamente no ar, seu corpo liberando uma densa aura das trevas. Até o cabelo dela tremulava de forma caótica. Em um tom frio e sinistro, ela disse — Sol, eu estou te avisando, se você ainda não devolver meu pirulito, além de fazer você ser incapaz de pleitear por sua vida, também farei você ser incapaz de implorar por sua morte!

Apesar de ver a necromante mais forte (e única) da cidade perdendo a calma, eu permaneci calmo como sempre. Eu dei outra lambida do pirulito antes de responder preguiçosamente:

— Gelo disse que estará fazendo gelo raspado com sabor de morango na próxima vez. Devo trazer alguns para você comer?

— Siiiiim! — Rosa imediatamente se acomodou no chão e abraçou minha cintura, com seus enormes olhos brilhando, até mesmo mostrando uma expressão de súplica. A única coisa que faltava na cena era um rabo abanando.

Eu bufei duas vezes e perguntei com altivez:

— E o pirulito?

Rosa respondeu com sinceridade incomparável:

— É um presente para você, claro! Nós nos conhecemos há tanto tempo, além do mais, a nossa amizade é mais importante do que um monte de cadáveres sepultados às pressas que apodreceu. Em comparação, qual é o valor de um pirulito? Mesmo se você pedir um cadáver recém-falecido, eu deixaria você tê-lo!

Quem iria querer um cadáver de você? Eu ainda estou lambendo o pirulito! Não fale sobre coisas tão nauseantes, certo? — A discussão provocou minhas memórias de “pagar minhas dívidas”, quando eu tive que escavar dezenas de túmulos no cemitério e encontrar cadáveres em vários graus de decadência no processo… — Eca!

— Vocês dois… — Roland falou de repente.

Expliquei-lhe com bom humor:

— Não se preocupe, Roland. Mesmo durante a pior briga que tive com Rosa, tudo o que ela fez foi me expulsar da sala com sua magia, soprando-me a várias dezenas de metros e derrubando uma fileira inteira de casas no processo. Isso dificilmente está perto de me deixar incapaz de pleitear pela minha vida, nem ser incapaz de implorar pela morte também!

Rosa imediatamente resmungou de volta:

— Como você se atreve a mencionar esse incidente! Depois que você foi enviado voando, você não correu de volta imediatamente e usou Luz Sagrada para explodir minha casa em pedacinhos, destruindo o Cadáver Limpador junto?  Eu me esforcei demasiadamente só para deixar a casa como estava antes.

Roland franziu as sobrancelhas e perguntou:

— Então vocês dois não vão duelar agora?

— Por que teríamos que duelar? — Rosa e meus olhos se arregalaram quando nos viramos para olhar para Roland.

Roland, na verdade, respondeu com um rosto cheio de seriedade:

— Vocês dois estão brigando por um pirulito. Como é impossível determinar quem é o legítimo proprietário, vocês dois devem ter um duelo sobre a propriedade do pirulito.

Mas que piada! O Cavaleiro Sol e a necromante tendo um duelo sobre um pirulito de morango? O que aconteceria se essas notícias deste vazassem?

Rosa e eu prontamente balançamos a cabeça, gritando:

— Nós estávamos apenas brincando!

Ao ouvir isso, Roland balançou a cabeça, mostrando uma expressão que indicava que ele nos via como nada mais nada menos do que duas crianças problemáticas. Ele parou de prestar atenção em nós dois e, em vez disso, estendeu a mão para colocar a mesa, que eu tinha virado, no lugar. Então ele pegou o pano e voltou a esfregar o chão.

Eu realmente não tinha ideia do que Roland estava pensando.  Um verdadeiro Senhor da Morte estar limpando o chão! Além disso, ele estava fazendo isso com uma expressão tão séria em seu rosto, como se limpar o piso fosse uma tarefa comparável a matar um dragão. Além disso, ele esperava que Rosa e eu tivéssemos um duelo por causa de um pirulito… Como Roland tornou-se ainda mais sério do que quando criança?

Tendo pensado nisso, achei que na próxima vez que entrasse nesta casa, provavelmente esperaria ver o grande Senhor da Morte fazendo uma expressão séria enquanto esfregava o chão, limpava as mesas, lavando as roupas e talvez até remendava as roupas com uma agulha de costura!

Caro Deus da Luz! Em vez de ver uma cena tão inacreditavelmente incompatível, prefiro vê-lo usando a agulha de costura para costurar os lábios de alguém ou algo horrível como isso.

Enquanto pensava sobre essa cena ridícula, imediatamente protestei com Rosa:

— O que você estava pensando, ordenando que Roland limpasse o chão? Ele é o Senhor da Morte, não algum cadáver limpador aleatório que você invocou.

— Eu não fiz isso. Eu só mencionei de passagem como os pisos estavam sujos e ele decidiu limpá-los por conta própria! — Rosa respondeu se justificando. Sob o olhar desconfiado, ela acrescentou um pouco culpada — Ok, talvez eu tenha me repetido várias vezes.

Eu continuei olhando para ela com uma crescente desconfiança.

— Ok, talvez tenha sido uma ou duzentas vezes… que seja! Eu devo ter dito pelo menos quinhentas vezes, certo? Apenas pare de me encarar!

Eu sabia! — Embora Roland definitivamente não fosse um cara preguiçoso, ele era o tipo de pessoa que não faria nada além de praticar sua esgrima. Então, forçá-lo a pôr sua espada de lado e fazer outra coisa provavelmente seria apenas um pouco menos difícil do que me fazer soltar o pirulito agora.

Com um olhar de insatisfação, Rosa pulou para a cadeira com estampa de morango e depois pegou outro pirulito embaixo dele, lambendo-o duas vezes. Saciada, seus pensamentos voltaram aos negócios. Ela perguntou complacentemente:

— Sol, quando te ajudei a criar a ilusão de Roland subindo para o céu da última vez, fiz um trabalho fantástico, não fiz?! Ninguém deve ter descoberto que Roland não foi realmente enviado para o céu, certo?

— Não, ninguém deve ter descoberto… mas… talvez Julgamento possa estar ciente disso. — Eu disse a última frase com uma pitada de hesitação.

Rosa imediatamente se absolveu de toda responsabilidade:

— Isso não é minha culpa. É só porque ele te entende muito bem.

— Cavaleiro Julgamento? — Roland parou de esfregar o chão e disse com um rosto solene — A esgrima dele é realmente espetacular. Se eu tiver a chance, gostaria muito de duelar com ele mais uma vez.

— Não saia por aí provocando o Julgamento! — Rosa e eu imediatamente dissemos em uníssono.

Rosa avisou Roland sombriamente, dizendo:

— Julgamento é completamente diferente do Sol. Ele é um verdadeiro Cavaleiro-Capitão Julgamento. Se ele visse você correndo pela cidade como quisesse, ele definitivamente não deixaria você escapar.

Ei! Então você quer dizer que sou uma fraude? — Eu revirei os olhos.

Roland olhou para baixo e olhou para a mão de cor clara por um tempo. Ele disse com um leve suspiro:

— Entendido. Eu não vou sair.

Roland… — Afff. Sob minha proteção, mesmo que Roland não tenha sido tomado pela Igreja para ser assado, ele estava constantemente enfiado dentro dessa casinha. Pior ainda, ele estava preso a viver com uma necromante que, para forçá-lo a limpar o chão, chegava a incomodá-lo quinhentas vezes. Para Roland, talvez até mesmo ser assado feito um franguinho seria um destino melhor do que isso.

Deodoro
Tradutor nas horas vagas. Só joga no hard.

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