Arifureta Zero – Volume 1 – Capítulo 2 (Parte 22 de 22)

— Preciso me despedir do vovô — murmurou Oscar consigo mesmo.

Oscar já falara antes para Karg quando ele foi buscar as crianças que enviou à oficina Orcus.

Ele explicou o que havia acontecido e as razões pelas quais não poderia ficar, porém ele realmente não se despediu. Era verdade que estava com pressa, mas também se sentia envergonhado, como se estivesse decepcionando Karg ao partir.

Contudo, o que seria realmente vergonhoso era não dizer adeus ao homem que fez tanto por ele.

E assim, Oscar acabou indo para a Oficina Orcus na manhã de sua partida.

Normalmente, Karg nem estaria na oficina tão cedo.

Oscar precisava ir embora logo, no entanto. Se Karg não aparecesse depois de um tempo ele deixaria sua carta de despedida e seguiria seu caminho.

Ele continuou andando por mais algum tempo.

— Ah… — Quando se aproximou dos portões da oficina, ele avistou um homem encostado com os braços cruzados.

Era um homem que ele reconheceria em qualquer lugar.

— Depois de tudo você veio, Oscar. — Karg falou como se esperasse Oscar vir desde o princípio, e zombou.

— Como é que…

— Eu sabia que não partiria sem dizer nada. — Ele foi o pai adotivo de Oscar há anos, então os padrões de pensamentos de Oscar eram tão claros quanto o dia para ele.

Oscar sorriu sem jeito.

— Você vai mesmo?

— Sim. Preciso encontrar uma maneira de curar Dylan e Katy.

— Você vai voltar?

— Não tenho certeza. Não por um tempo, pelo menos. Vai ser uma longa jornada.

— Entendi…

O silêncio se estendeu. Karg podia perceber com um olhar que as botas pretas, casaco preto e o guarda-chuva preto de Oscar não eram simples vestimentas de viajante. Ele sabia que eram todos artefatos poderosos. Isso trouxe um sorriso ao seu rosto.

— Porra garoto, você é bom. — Ele elogiou Oscar pela sua moda habitualmente grosseira.

Oscar corou e sorriu.

— Acho que sim. — Ele foi incapaz de esconder a felicidade que sentiu ao ser elogiado por Karg, e concordou.

Karg fechou os olhos por um momento, então abriu eles e foi até Oscar. Sua expressão era muito séria, e seus olhos estavam cheios com todos os tipos de conflitos.

— Oscar. Não é bem um presente de despedida, mas você aceita o que esse velho tem a oferecer?

— O que é? — Oscar inclinou a cabeça com confusão, e assentiu.

Ele falou solenemente:

— Quero que herde o nome Orcus.

— Vovô… estou saindo da oficina, então…

— Eu sei, mas ainda quero que aceite. Já te disse antes, você é o único apto a ser Orcus dessa geração. Você é o melhor sinergista que conheço. Me recuso a passar o nome para qualquer outro.

— Mas então… — Quem será o próximo chefe da oficina? Além disso, eu poderia me tornar um homem procurado em breve. Pior, a Santa Igreja provavelmente me marcará como herege. O que vai acontecer com a oficina se eu herdar seu nome?

Oscar tentou dizer, mas Karg o cortou. Karg estava preparado para as consequências. Ele estava desde o momento que tomou a decisão.

Ele continuou seu discurso:

— Nós artesão somos muito teimosos e peculiar. Claro, ficamos com inveja das habilidades dos outros e estamos sempre tentando superar um ao outro, mas qualquer artesão que se preze também conhece a vergonha, garoto. Nenhum deles nunca será o próximo Orcus, e não apenas porque não vou dar a eles o título. Todos sabem que você merece, e ficariam envergonhados de tirar de você.

Os olhos de Oscar se arregalaram de surpresa. Ele estava convencido de que todos os artesãos pensavam que ele era um perdedor. Todavia, os membros verdadeiramente habilidosos da oficina sempre souberam. Ainda que fosse duro de admitir, eles sabiam que Oscar era bom.

Claro, Oscar nunca fez nenhuma arma, mas os artesãos de Orcus eram profissionais. Eles poderiam dizer o quão bom ele era só de ver a qualidade dos seus produtos domésticos.

Realmente tenho muito a aprender… Não só em termos de habilidade de transmutação, mas também como pessoa.

Mesmo tendo trabalhado com eles há anos, Oscar não sabia uma única coisa sobre eles. Nem o orgulho deles, nem seus sentimentos, nem seu amor a suas criações. Ele não entendera nada sobre a alma de um artesão. Oscar fechou os olhos quando percebeu isso, se afundando nas profundezas do pensamento.

Eles entendiam quantos problemas isso traria à oficina. Apesar disso, eles ainda continuavam o escolhendo para ser o próximo Orcus. Nessa altura, ele não seria um homem se não pegasse o manto lhe oferecido.

Ele abriu os olhos, e encarou de volta Karg com determinação.

— Então, vou fazê-lo. A partir de hoje, sou o novo Orcus, Oscar Orcus. — O rosto de Karg se iluminou com um sorriso radiante.

Oscar foi até o portão principal da capital com uma nova leveza em seus passos.

Preocupação tingiu seu rosto novamente quando o guarda do portão começou a examiná-lo, no entanto. Felizmente, ele foi sinalizado para passar sem incidente.

O sumiço de Forneus se tornou de conhecimento público nessa altura, e foi conduzida uma busca em larga escala na cidade. Os guardas só estavam em alerta máximo por causa disso, então eles não estavam especialmente desconfiados de Oscar ou algo assim. Além disso, só havia passado um dia desde o desaparecimento de Forneus. Era perfeitamente possível que Forneus tenha saído em alguma missão secreta com seus cavaleiros templários. Um homem na sua posição não era obrigado a informar suas idas e vindas a ninguém.

Apenas Oscar e Miledi sabiam que ele estava descansando no fundo do abismo, assim, um simples artesão saindo em uma jornada, provavelmente para a próxima cidade, não parecia muito suspeito para os guardas.

Oscar caminhou silenciosamente pela estrada principal por um tempo. Em pouco tempo, Velnika não era mais que um ponto no horizonte. Assim que ele estava pensando que estava longe o suficiente para poder ativar os poderes das Botas de Ônix sem atrair suspeita, ele avistou uma figura conhecida sentada em uma pedra mais adiante.

Seu cabelo preso balançava na brisa fria matinal. Ela balançava as pernas para lá e para cá como se estivesse entediada.

Oscar ajustou os óculos. Então, com passos apressados, ele foi até ela.

— Bom-dia, O-kun. Está um dia agradável hoje.

— É, embora você ainda pareça entediada.

Quando Oscar se aproximou o suficiente para que eles fossem capazes de escutar um ao outro, Miledi saltou da pedra.

— Não sou do tipo de esperar. Prefiro ação.

— Então por que não agiu? Não acha que está meio atrasada para me emboscar aqui? Esperava ver você sair de algum lugar há anos.

— Ei, isso foi rude! — Miledi estufou as bochechas e Oscar sorriu.

Os dois conversaram casualmente sobre o que fizeram depois de separarem duas noites atrás.

Miledi atualizou Oscar da viajem de Moorin e as crianças, enquanto Oscar disse a Miledi que fechou a entrada e a saída da escadaria que fizera. Miledi explicou também que graças aos falsos rumores que seus camaradas espalharam, a busca por Forneus foi direcionada para o sentido completamente errado. Oscar também disse que herdara o nome Orcus.

Ao ouvir isso, Miledi o parabenizou. Oscar corou e ajustou os óculos para esconder seu embaraço. Miledi percebeu e sorriu. Ela já esteve próxima o bastante dele para entender suas manias.

Oscar limpou a garganta ruidosamente e mudou de assunto. Sua expressão estava séria.

— Você ajudou muito minha família. Obrigado. Tenho uma dívida com você maior do que posso esperar retribuir. Se ainda me quiser, vou se juntar ao seu…

— O importante não é o que quero, mas o que você quer, O-kun. — Miledi o cortou com um sorriso.

— Esqueça toda essa merda de dívidas. Seu futuro é você quem decide. Você tem que escolher o que quer fazer. Se o caminho que quer ir é diferente do meu, então tudo bem. Não vou abandonar sua família só porque não se juntou a mim. Não se atreva a achar que eu tentaria te chantagear assim!

— Miledi… — Ele não duvidava de suas palavras. Ela não abandonaria sua família por algo tão mesquinho. Disso, ele estava certo.

O sol surgiu no horizonte, e o mundo ficou mais claro. O cabelo de Miledi brilhou com o raiar do dia.

— Mas o meu desejo ainda é o mesmo… — sussurrou Miledi, e olhou para os olhos de Oscar. Seus olhos azuis combinavam perfeitamente com a cor de sua mana. E nesse momento, a única coisa refletida neles era ele.

— Essa será a última vez que vou te perguntar isso. — Miledi tomou um grande fôlego e estendeu a mão para ele.

— Você é um sinergista excelente, Oscar Orcus. Não deseja ver um mundo onde as pessoas possam viver livremente? Um mundo onde qualquer um pode condenar qualquer ideologia, onde nenhum conjunto de valores reina supremo, onde aqueles que gritam opressão não são punidos por isso? Gostaria de vir comigo e mudar o mundo? — Oscar Orcus prendeu a respiração. Suas palavras o atravessaram completamente, e ele podia sentir seu peso. Ele pensou no dia em que se conheceram. Ela o cativou desde o princípio, naquela noite no quintal.

Oscar já sabia a resposta para a pergunta que estava prestes a fazer, mas ele tinha que falar disso de qualquer forma. Algo dentro dele o obrigava.

— Quem… é você?

O sol continuava subindo devagar.

Miledi podia imaginar por que Oscar perguntara. Ela sorriu, exibindo um esplendor mais brilhante do que o próprio sol, e estufou seu peito orgulhosamente.

— Sou Miledi Reisen, a Libertadora. Aquela que luta contra os deuses desse mundo.

Eu sabia. Isso é o que significa ser cativado por alguém.

Ele não poderia tomar essa decisão sem ânimo. O mundo não era um lugar tão legal que poderia mudar isso.

Lutar contra os deuses era fundamentalmente suícidio. Mesmo um gato não possuía vidas suficientes para sobreviver a esse encontro. Se ele a seguisse, ele certamente veria o inferno.

Mas se é com ela, não acho que iria me importar em lutar no inferno.

Isso era o que ele realmente pensava, do fundo do coração.

Oscar ajustou seus óculos para esconder sua expressão. Ele não queria deixar Miledi o ver assim, mas por uma razão completamente diferente da razão da primeira vez que recusou.

Ele colocou todos os seus sentimentos em sua voz e deu sua resposta a Miledi.

— Eu a seguirei para o resto da vida, mesmo que o caminho que ande nos leve ao inferno e além. — Ele caminharia em frente juntamente com essa garota incrivelmente imprudente.

A resposta de Miledi foi completamente inesperada.

— Hum, bem, inferno e além é meio… assustador, sabe? Sei que já se apaixonou perdidamente por mim, mas não gosto muito de yanderes. Sinto muito, O-kun! — As aves chilreavam ao redor enquanto o sol da manhã se lançava sobre elas.

Tirando os pássaros, havia silêncio.

Os óculos de Oscar começaram a brilhar, e seu rosto ficou todo vermelho. Ele começou a tremer, depois pegou seu guarda-chuva.

— Milediiiiiiiii! Eu vou te matar, sua vadiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia!

— Kyaaaaaa, O-kun surtooooooooou!

Miledi se virou e correu.

Oscar correu atrás dela, alimentado pela raiva e vergonha em mesmas proporções. Raios, chamas e lâminas de vento saíam de seu guarda-chuva.

Miledi se esquivava de cada um, gritando o tempo todo. Não havia o mínimo sinal de medo em seu rosto, contudo. De fato, ela estava levemente vermelha e sorridente.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

3 Comentários

  1. Esse dois tem uma química muito bacana n

    Muito obrigado pelo capítulo 🙇🏻‍♂️😁

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