Arifureta – Volume 1 – Histórias Curtas Bônus (1 de 6)

Histórias Curtas Bônus

 

O Sonho de um Homem

 

— Para mim, a pesquisa é o que posso pôr o máximo de minha paixão e entusiasmo.

Essas foram as palavras escritas no início do seu caderno de pesquisa. A encadernação cinza desbotada e as páginas amarelas descascando evidenciavam a idade do livro. Tal desgaste dizia tanto sobre a paixão de seu dono quanto as palavras escritas nele.

Cada página estava cheia até as margens com letras elegantes e finas. Resultados de pesquisas, hipóteses, experimentos, eles estavam todos registrados entre as capas acinzentadas. Contudo, no final estava uma nota de rodapé cuja próprias letras pareciam mergulhadas em frustração da forma como foram escritas. Elas informavam como o dono desse caderno de notas não pôde completar a sua pesquisa.

— Infelizmente, não fui capaz de alcançar o ideal que procurava. Suspeito que a maior parte disso é culpa daquele cara. Na verdade, não, não tenho certeza disso. Isso é tudo culpa daquele bastardo maldito.

Na metade da nota deixou de ser escrito solenemente e se tornou um choramingo de criança. Mas, se alguém tem a tolerância para ignorar tal escrita infantil e virar a página, é assim que continua:

— A quem acabar encontrando o meu caderno de anotações. Eu rezo para que você, como eu, seja alguém que persegue a verdade. Eu deixei toda a minha pesquisa para trás na esperança de que você irá completar o que eu não consegui. Que você conseguirá alcançar as ideias que eu buscava. Eu lhe imploro, não deixe minha pesquisa terminar em vão.

Um “hmmm” quebrou o silêncio quando o garoto lendo o caderno de notas terminou a última frase. Ele fechou o livro com um pequeno barulho e olhou para o teto, perdido em pensamentos.

— Não se preocupe, vou esclarecer quaisquer arrependimentos persistentes que você tem. Eu vou herdar sua vontade e acabar o que você começou.

Os múrmuros sussurrados pelo garoto foram engolidos em pouco tempo pelo enorme silêncio da sala, mas a determinação por trás deles permaneceu. Do canto do cômodo, um par de olhos sem vida e mecânico vigiava silenciosamente o garoto.

Ruídos ecoavam por todo o cômodo. Hajime Nagumo estava nesse momento absorto em montar uma infinidade de partes mecânicas recentemente elaboradas. Ele estava sentado na oficina de Oscar Orcus, localizada na parte inferior do Grande Labirinto Orcus.

Gotas de mana carmesim iluminava a sala em intervalos estranhos enquanto ele continuava transmutando. Havia uma beleza de cabelos dourados sentada ao lado dele observando todo o espetáculo. Ao mesmo tempo, seus dedos finos estavam costurando habilmente alguma coisa. A dita beleza era ninguém menos que Yue, a princesa vampira que Hajime havia resgatado nas profundezas do inferno.

Enquanto Hajime estava ocupado verificando seu novo equipamento, Yue estava dando os retoques finais em seu figurino. Ela havia costurado para eles algumas roupas de viagem resistentes, roupas diárias um pouco mais confortáveis e até mesmo alguns trajes mais sugestivos para suas aventuras noturnas. A costura se tornou como uma segunda natureza para ela depois de tantos dias praticando.

— …Perfeito, está feito.

A voz satisfeita de Hajime ecoou por toda a sala silenciosa. Yue parou o que estava fazendo para olhá-lo e viu que ele estava flexionando experimentalmente seu braço artificial.

— Você terminou as melhorias de seu braço?

— Sim. Eu vou fazer um teste. Quer ver?

— Está bem.

O artefato que Hajime criou combinava seu conhecimento de armamento moderno com sua experiência de jogos e a magia desse mundo, para criar algo verdadeiramente temível. Por causa de tudo o que ele fez usar o conhecimento de outro mundo, Yue achava cada uma de suas invenções fascinantes. Fora ainda mais emocionante ultimamente desde que Hajime havia acabado de transmutar todas as necessidades que eles iriam precisar em sua jornada, ele esteve passando muito tempo pensando no que mais acrescentar ao seu braço para tornar a vida mais fácil.

Hajime fez um punho metálico com sua mão e o impulsionou em direção a um dos alvos de prática ao redor da oficina. Embora ainda fosse um pouco rústico, seu punho ostentava uma grande quantidade de poder de fogo.

Ele sorriu alegremente quando viu o quão entusiasmada Yue estava.

— Aqui vamos nós! Esse é o sonho de todo homem! Soco foguete! — Com um barulho baixo, seu punho irrompeu do seu encaixe e voou em direção ao alvo. Ele deixou uma trilha de faíscas em seu rastro quando disparou em frente. Então, com um impacto ensurdecedor, o punho pulverizou seu alvo.

Hajime sorriu como um garotinho e verteu mana em seu braço esquerdo. Como se conectado por uma linha invisível, sua mão regressou rapidamente ao lugar. Houve um estampido robótico quando ela se recolocou no braço.

— O que acha? — perguntou Hajime a Yue. Ele tinha certeza de que ela deveria estar tão emocionada quanto ele. No entanto…

— …É só isso? — Tudo o que ele recebeu foi uma resposta um tanto quanto confusa. No mínimo ela parecia um pouco desapontada, de fato. Sua indiferença deixou Hajime quase sem palavras.

— O q-que quer dizer com “só isso”? Não acha que foi incrível? Acabei de simplesmente lançar um soco foguete! É aquele tipo de movimento fantástico em que você derruba seu inimigo com um golpe e depois vem voando de volta para você!

— Mas… seu canhão eletromagnético é mais forte.

Hajime ficou se esforçando, tentando explicar o encanto do seu soco foguete, mas ele só conseguiu deixar Yue ainda mais confusa. Sua resposta curta involuntária o deixou mentalmente derrotado.

Sem palavras, Hajime só pôde olhar em branco para Yue por alguns minutos antes de dizer “Espere, ainda tem mais!” e sorrir subitamente.

— É verdade que ele não tem tanto poder se comparado ao canhão eletromagnético, mas há um enorme fator surpresa associado em ter um punho vindo voando de repente em seu rosto.

— Mas o canhão eletromagnético também é mais rápido. Ele não seria um ataque surpresa ainda melhor?

Outra refutação impecável. Hajime estava balançando instavelmente, mas ainda não estava no chão! Ele se recusou a abandonar suas noções românticas do soco foguete.

— V-Vai vir a calhar no caso de eu perder a minha arma!

— Então perder sua mão também conta como a calhar?

— ……

— Além do mais, mesmo que você perdesse sua arma, seria mais rápido usar Passo Supersônico para chegar mais perto e atacar diretamente com sua habilidade Braços de Aço ou coisa assim.

Hajime desanexou sua mão esquerda e a jogou no chão. Ele então pôs a mão em sua Arca do Tesouro e tirou uma mão esquerda diferente, antes de sorrir perigosamente para Yue e brandir sua nova mão.

— Está bem, Yue. Desafio aceito.

— …O quê? Sinto muito, Hajime, não faço ideia do que está dizendo.

— Você pode estar certa, o soco foguete poderia ser uma arma um pouco fraca demais para mim, embora tenho certeza de que para qualquer outra pessoa ele seria perfeito… mas enfim, me deixe te mostrar minha outra arma nova. Sinta-se à vontade para desmaiar de admiração a qualquer momento.

— …Humm, continuo sem…

Yue estava ficando cada vez mais confusa com as declarações sem sentido de Hajime. Todavia, em prol do sonho de um homem, ele não podia desistir. Ele começou a verter mana em seu braço, e sua mão começou a brilhar em vermelho-brasa. Seu punho estava ardendo intensamente com os sonhos de um homem. Essa era a sua segunda arma.

— Juntas quentes! — A expressão de Hajime era tão deslumbrante quanto seu punho escaldante. No entanto…

— Hmm… Então o que mais isso faz? — Por alguma razão, Yue estava pedindo por mais. Ela estava coçando sua bochecha desajeitadamente, e estava claro que sua alma não fora nem um pouco comovida pela exibição impressionante de Hajime.

O sorriso de Hajime se enrijeceu um pouco.

— …Certo, então veja aqui, Yue. Esse é um punho que pode derreter literalmente tudo o que toca. Não é legal?

— …Por que os derreter quando você pode os matar?

Uma pergunta muito apropriada. A força bruta e habilidades de Hajime seriam mais do que o suficiente para aniquilar a maioria dos inimigos. Não havia necessidade de piorar a situação e derreter o oponente também. De fato, sua metralhadora rotativa e canhão eletromagnético já eram fortes o suficiente. Essa foi a razão pela maioria das suas adições anteriores ao seu braço terem sido desenvolvidas com a conveniência em mente acima de tudo.

No entanto, em algum momento ele havia deixado seus sonhos juvenis levarem a melhor e tinha começado a adicionar essas funcionalidades inúteis. Agora ele tinha de encarar Yue e provar o seu valor. Hajime desligou as juntas quentes e pôs as duas mãos nos ombros esbeltos de Yue.

— Pense bem, Yue. E se tivermos que lutar contra algo que resista muito bem a ataques físicos, como aquele escorpião de antes? Se eu tiver isso, apenas o tocar ainda causará danos. Ou se nós ficarmos presos de alguma forma dentro de uma masmorra em algum lugar, isso vai nos ajudar a escavar a nossa saída rapidamente.

— …Tudo bem.

Yue podia sentir o fervor apaixonado na voz de Hajime. Mas ainda assim, ela pensou: Você não poderia usar Campo Elétrico, Transmutação ou algo assim para nos tirar dessas situações de qualquer forma? Ela não disse isso em voz alta dessa vez, no entanto, percebendo que o punho deveria ser importante para ele de certa forma. E porque ela o amava, Yue sorriu desajeitadamente e tentou assegurar a confiança em ruínas de Hajime.

— …S-Sim, é muito legal.

— ……

Hajime tirou sua mão sem dizer nada, depois a jogou no chão. É claro que ele não estava procurando simpatia. Destemido, ele tirou outra mão de sua Arca do Tesouro. Ele deu a Yue um sorriso que gritava “Essa vai fazer seu queixo cair com certeza!” e a ativou. Essa mão transformou seu braço em uma broca.

— Contemple, Yue, minha forma final! Tudo o que viu antes não era mais do que o prelúdio. Seja levada por uma torrente de emoções enquanto deleita meu braço final!

Seu discurso estava ficando cada vez mais estranho a cada segundo, embora ele mesmo não estivesse ciente disso. Então ele verteu mana em seu braço, ativando a terceira de sua série de “armas de homens sérios”…

— Esse é o poder da minha broca transformadora!

Ele olhou triunfantemente para Yue quando seu braço-broca começou a girar. Dessa vez de verdade, ela tem que estar impressionada. Ou pelo menos ele assim pensava.

— …É. É legal. Está tudo bem, pode parar agora.

— …… — Havia uma bondade praticamente cruel nos olhos de Yue quando ela disse gentilmente a Hajime que estava tudo bem.

Até onde Yue entendia, todos os seus itens novos pareciam inúteis. Dito isso, não havia como saber o que o futuro tinha guardado para eles, então, mesmo as coisas que pareciam inúteis poderiam ter algum valor mais tarde pelo caminho. Certamente a vez de eles brilharem viria eventualmente. Do fundo de seu coração, Yue esperava isso, em nome de Hajime ao menos.

Todavia, a pena de Yue só serviu para abrir fissuras no coração puro de Hajime. Não me diga que estou me tornando realmente em algum tipo de idiota delirante?

Não importa qual fosse a verdade, uma bala, uma vez disparada, jamais poderia voltar. Meio desesperado, ele começou a retirar todos os outros braços que tinha desenvolvido. Entre eles estava uma mão em forma de dragão, um que disparava impactos d’água, e até um que transformava seu braço esquerdo na gunblade de Squall. Mas a única reação que qualquer um deles suscitou de Yue foi um sorriso amarelo.

Por fim, Hajime sucumbiu ao choro e Yue simplesmente ficou lá acariciando sua cabeça, dizendo “Está tudo bem, está tudo bem”. Ela o confortou até que recuperasse finalmente seus sentidos.

O que ela queria dizer exatamente com “Está tudo bem” era algo que ele não queria pensar muito profundamente.

Era tarde da noite. Havia uma única figura trabalhando na escuridão, dentro de uma sala secreta cuja entrada estava tampada por uma prateleira.

— Finalmente está pronto. — Hajime murmurou baixinho. Sentada diante dele estava uma garota grisalha. Poderia se dizer com apenas um olhar que ela não era humana. Onde deveria estar suas orelhas, em vez disso, estavam metais retangulares que meio pareciam com antenas.

Seus olhos frios e metálicos não tinham sinais de senciência também. No entanto, isso era apenas natural, já que ela era um golem de limpeza que Oscar fizera há muito tempo.

Todavia, suas feições ainda eram muito humanas. Ela usava uma peça de vestido azul-marinho e um avental branquinho. Também havia uma tiara adornando seu cabelo. Em síntese, ela era uma empregada.

— Oscar. Foi porque você sonhou em fazê-la real que se desviou tanto da realidade. Esse foi o seu erro. Contudo, eu tenho o conhecimento concedido a mim pelo mundo 2D. A fazendo pouco realista, ela se aproxima mais do ideal… Essa é a resposta que você procurou por tanto tempo!

Hajime sussurrou para si mesmo triunfantemente. Qualquer um que tivesse visto ele naquele momento teria se assustado muito. No entanto, sua paixão por esse golem empregada era real. Quando ele tinha descoberto o caderno de notas de Oscar e esse golem, ele havia decidido herdar o espírito puro da investigação de Oscar e terminar o que ele tinha começado. Ele havia trabalhado nela até altas horas todas as noites, garantindo que Yue não descobrisse. Ele certamente merecia um pouco de tempo para admirar sua própria perícia artesanal depois de todas as privações passadas para completá-la.

Todavia, quando ele estava se esbaldando com sua própria obra…

— …Te encontrei, Hajime.

Luz preencheu o cômodo quando ele ouviu uma voz familiar dizer o seu nome. Ele pulou com o susto, depois se virou rigidamente para olhar Yue atrás dele.

— Y-Yue… o que está fazendo aqui? Eu podia jurar que ainda sentia sua presença no quarto.

— Eu queria saber onde você ia todas as noites. Não só você saía de fininho usando Ocultar Presença, você até deixava um artefato que forjava a sua presença também. Não pensei que haveria uma sala secreta aqui… mas, felizmente, esse artefato me ajudou a te encontrar.

— Então você usou meu próprio artefato contra mim.

Hajime rangeu os dentes, zangado com seu próprio descuido. Nesse meio tempo, Yue olhava silenciosamente para a golem empregada. Hajime engoliu em seco, culpavelmente. Ele se sentia como um marido pego traindo a esposa.

— Hajime, se você gosta de uniformes de empregada você só tinha que me contar. — Havia um pouco de ciúme em seu tom. Parecia que ela realmente estava com ciúmes desse golem inanimado. Contudo, não era o que ela estava pensando. A fim de esclarecer o mal-entendido, Hajime começou a se explicar:

— Yue, me deixe explicar. Na verdade, eu não tenho uma queda por uniformes de empregada. Se trata de arte.

— …Arte?

— Correto. Uma empregada que também é um golem. Em outras palavras, um golem empregada é o sonho de qualquer homem. Esses dois fatores combinados é o que faz disso arte. Apenas uma empregada ou apenas um golem não são nada por si só. Embora possam ter um certo encanto, só quando reunidos como um golem empregada eles se tornam um verdadeiro objeto de adoração aos homens de todo o mundo.

Enquanto falava, Hajime ficou cada vez mais entusiasmado com suas palavras. Yue ouviu tudo isso seriamente e confirmou com a cabeça depois que ele tinha terminado. “Eu entendi” foi tudo o que disse. Hajime soltou um sorriso de alívio, mas então, instantes depois uma bola de fogo ardente passou voando por sua bochecha.

Houve uma explosão ensurdecedora e Hajime se virou rapidamente para ver seu precioso golem empregada queimado às cinzas.

— C-Como você pôde…

Hajime caiu de joelhos enquanto olhava para a casca carbonizada do que outrora fora um golem empregada. Depois se virou para Yue, que tinha começado a sair casualmente e perguntou com uma voz cheia de tristeza:

— Yue, por quê? Por que fez isso? O que aquele pobre golem fez a você?

— Você tem agido estranho ultimamente, Hajime. Você precisava de um pequeno treinam… Aham, digo, lição.

Era verdade que as obsessões de Hajime com coisas que eram “o sonho de todo homem” estava começando a ficar um pouco exagerado. Poderia ter sido provocado em parte devido ao beco sem saída que havia se deparado em relação a transmutação, mas se ele não fosse trazido de volta a realidade, ele ficaria preso em um mundo de fantasia para sempre. O fato de ele estar realmente triste com a destruição de um golem inanimado era prova o suficiente de que ele já tinha ido longe demais.

Ter a garota que amava lhe dizer “você tem agido estranho” em sua cara o trouxe de volta a si, no entanto. Enquanto isso, Yue pegou um dos uniformes de empregada espalhado ao redor e trouxe para perto para ver se caberia. Ela deu uma pequena voltinha e lambeu os lábios sedutoramente quando olhou para Hajime. Seu desejo sexual estava a pleno vapor.

Suas próximas palavras mandaram embora o que quer que pudesse ter sobrevivido da razão de Hajime.

— Devo te ensinar quão melhor uma empregada real é do que uma mecânica, Mestre?

— …… — Suor frio escorreu da sua testa.

Por horas, gritos de Hajime podiam ser escutados ecoando por toda a profundeza do inferno. Graças ao querido aconchego de Yue, Hajime pôde regressar das profundezas de seus delírios.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

8 Comentários

  1. Parece que agora ele vai voltar a fazer coisas mais úteis hauauhuahu
    E, se fosse para dar uma dica, eu falaria para ele fazer um golem de guerra, assim ele seria útil para batalhas e quando estivessem em casa, ele era só colocar funções domesticas nele…

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