Arifureta – Volume 2 – Capítulo 1 (Parte 5 de 18)

Sua cabeça estava enterrada no chão e seus membros se debatiam loucamente enquanto ela se esforçava para se libertar. Ela se parecia com um certo personagem de desenho animado, olhando desse jeito. Era realmente uma pena que uma beldade como ela se comportasse tão pateticamente. Suas roupas esfarrapadas tinham sido rasgadas ainda mais, e mal poderiam ser chamadas de roupas neste ponto. De cabeça para baixo como estava, suas partes particulares estavam expostas para todos verem. Até mesmo uma paixão centenária desapareceria se visse sua amada em tal estado.

Yue limpou uma gota de suor imaginária da testa, como se estivesse se parabenizando por um trabalho bem feito, antes de voltar para Steiff e subir.

— …Você gosta de peitos grandes?

Essa sim era uma pergunta difícil se é que Hajime já tivesse ouvido uma. Ele estava prestes a responder “sim”, mas pensou melhor quando viu a garota coelhinha ainda fazendo o que podia como um cachorro com sua cabeça presa no chão. Ele não queria acabar assim.

— Yue, o tamanho não é o que importa. Se trata de quem são os peitos.

— ……

Ele decidiu se esquivar inteiramente da questão, então deu uma resposta que não era sim, nem não. Que covarde. Yue fechou os olhos e ponderou sobre isso um pouco, antes de aparentemente aceitar sua resposta e se sentar no banco traseiro.

Hajime podia sentir suor frio escorrer pelas suas costas. Ele tentou pensar em um tema para quebrar o silêncio constrangedor, mas nenhum veio à cabeça. Nem mesmo as barras de ouro que valem mais do que dinheiro do Silvio Santos poderiam comprar o que ele precisava aqui.

Enquanto olhava ao redor tentando encontrar algo para falar, ele notou que Shea finalmente tinha colocado as mãos no chão e estava agora tentando seriamente desprender a cabeça. Felizmente, isso deu um ótimo assunto.

— Ela ainda continua… Essa garota deve ser algum tipo de zumbi. Não importa o quão forte seja seu corpo, nenhuma pessoa normal ficaria bem tomando aquele ataque…

— ……É.

Embora tenha demorado mais do que o habitual, ela ainda pelo menos lhe deu uma resposta. Hajime suspirou de alívio enquanto Shea se desprendia do chão, com o rosto e os cabelos cheios de terra.

— Ugh, isso foi horrível. Essa cena também não estava em minhas previsões… — Shea deu uns tapinhas tristemente em suas roupas esfarrapadas antes de rastejar de volta para onde Hajime e Yue estavam esperando. Ela ainda parecia ilesa.

— Que diabos há de errado com você? Ficar ilesa depois de tudo isso não é normal… Afinal, o que é você? — Vendo que eles estavam finalmente prontos para ouvir, Shea se sentou confortavelmente sob os olhos intrigados de Hajime. Sua expressão ficou séria depois que ela se sentou na frente de Steiff. Embora fosse um pouco tarde demais para levá-la a sério…

— Permita-me que eu me reapresente. Eu sou Shea Haulia, a filha do chefe da tribo Haulia. A verdade é…

Em essência, isso foi o que se resumiu a história de Shea: A tribo de Shea, os Haulia, eram membros da subespécie homens-coelho de homens-fera. Havia algumas centenas deles e viviam em uma aldeia escondida nas profundezas da Floresta Haltina.

Embora possuíssem excelente audição e fossem hábeis em se esconderem, suas estatísticas eram muito inferiores a maioria dos outros homens-fera. Além disso, eles não tinham outra característica especial para falar. Por causa disso, eles eram considerados fracos por muitos outros de sua espécie. No geral, eles eram uma raça amante da paz que tratava toda a aldeia como uma família e cuidava profundamente um dos outros. A maioria deles também eram muito belos, mas ao contrário dos elfos que eram conhecidos pela beleza, os homens-coelho eram mais conhecidos pela sua fofura. Muitos colecionadores no Império Hoelscher cobiçavam eles por esse mesmo traço, então eles eram alvos populares de mercadores de escravos.

Entre os homens-coelho, uma das tribos, os Haulia, dera à luz a uma garota estranha. Os homens-coelho geralmente tinham cabelos azul-escuros, mas essa garota nasceu com cabelos azuis muito claros. Além disso, ela era uma anomalia entre os homens-fera, já que ela tinha mana percorrendo pelo corpo. O que era mais chocante é que ela poderia manipular essa mana diretamente, e até mesmo usar uma certa magia especial como a maioria dos monstros.

Isso, é claro, provocou um enorme alvoroço dentro da aldeia. Isso foi sem precedentes na história dos homens-coelho, não, na história dos homens-fera como um todo. Em circunstância normais, qualquer um com o mesmo poder que os monstros seria perseguido e ostracizado. Mas essa garota tinha nascido na única raça que valorizava a família acima de tudo. A única raça que tratava uma aldeia inteira com centenas de pessoas como uma grande família. Razão pela qual a ideia de abandoná-la jamais passou pela cabeça dos Haulia.

Contudo, a floresta era a casa do seu próprio país, Verbergen, que estava localizado nas profundezas do mar de árvores. Se alguma das classes dominantes soubessem da existência da garota, ela seria certamente executada. Tal severidade era apenas o indicativo do quanto os homens-fera odiavam os monstros.

E assim, os Haulia decidiram cuidar da garota em segredo. Dezesseis anos se passaram. Todavia, poucos dias atrás, alguém de fora soube da existência da garota. A fim de escapar da retaliação de Verbergen, a aldeia inteira decidiu fugir da floresta.

Sem definir um destino em mente, eles resolveram primeiro ir para as montanhas ao norte. Seu raciocínio era que seriam capazes de viver lá. As montanhas eram cruéis, mas ainda assim eram melhores do que serem vendidos como escravos no Império Hoelscher ou executados por Verbergen.

Contudo, o próprio império que eles tinham tanto medo destruiu todos os seus planos. Por um golpe extremo do azar, eles se depararam com soldados imperiais do lado de fora da floresta. Não havia como saber se eles estavam em patrulha, ou apenas em um treino de rotina, mas de cara com um exército do tamanho de um batalhão eles não tiveram escolha a não ser fugir para o sul.

Os homens ficaram para trás para dar as mulheres e crianças mais tempo para escapar, mas os gentis homens-coelho não conseguiram ser páreos aos soldados experientes do Império Hoelscher, e em pouco tempo mais da metade deles foram capturados.

Como último recurso, o grupo correu em direção ao Desfiladeiro Reisen a fim de evitar a aniquilação completa. Eles esperavam que a impossibilidade de usar magia nele daria uma pausa nos soldados, e sua precaução anularia seu desejo de capturar mais escravos. Foi um chute total. Não havia como dizer se os soldados se cansariam antes dos restantes serem comidos pelos monstros errantes.

Porém, contra todas as expectativas, as tropas imperiais continuaram a perseguição. Nas extremidades oriental e ocidental do desfiladeiro havia escadas feitas diretamente no penhasco, permitindo qualquer um descer com segurança. A maioria das tropas voltaram, mas deixaram um batalhão para vigiar as escadas. Assim que os homens-coelho fossem atacados por monstros, eles não teriam alternativa a não ser correr de volta para os braços dos soldados que esperavam.

Como esperado, os monstros eventualmente vieram para atacar os homens-coelho. Decidindo que era preferível se renderem ao Império Hoelscher do que serem comidos, os Haulia estavam prontos para correr de volta mesmo que isso significasse escravidão. Contudo, os monstros não permitiriam esse luxo, e em vez disso, os perseguiram mais profundamente na ravina. E assim, os homens-coelho ficaram presos dentro do desfiladeiro, forçados constantemente a correrem por aí para sobreviver.

— …Antes que percebêssemos, nosso grupo de sessenta foi reduzido a quarenta. Nesse ritmo, todos morreremos. Por favor, por favor tem que nos salvar! Eu imploro! — A dor no rosto de Shea não era nada parecido com as expressões cômicas que ela tinha antes quando estava chorando.

Uma vez que ela terminou sua história, Hajime assentiu:

— Entendi. — Essa simples e breve declaração foi tudo o que disse como resposta. Assim como Yue e Hajime, Shea era mais um dos desajustados desse mundo. A razão pela qual ela era tão resiliente era porque estava provavelmente fortalecendo inconscientemente seu corpo com a manipulação de mana. Talvez fosse uma forma de atavismo como a capacidade de Yue.

Satisfeito que o mistério agora tinha sido esclarecido, Hajime olhou diretamente para Shea e, após cuidadosa deliberação, deu sua resposta:

— Não. — O próprio tempo parou. Ou pelo menos essa foi a sensação.

A boca de Shea se abriu e fechou sem som, sua mente era incapaz de compreender o que acabou de sair da boca de Hajime. Foi só quando Hajime começou a se preparar para ligar Steiff de novo que ela finalmente voltou aos seus sentidos e começou a protestar.

— E-E-Espere um momento! Por quê!? Não seria a reação normal sorrir e tranquilizar dizendo: “Oh, coitadinha, não se preocupe. Eu salvarei sua tribo!” ou algo assim!? Até mesmo eu estou ficando farta disso! Que tipo de monstro desalmado abandona uma garota linda sozinha nesse desfiladeiro perigoso!? Ei, pare de me ignorar. Não vou deixar você ir embora não importa o quanto tente! — Hajime ignorou as queixas de Shea e tentou ligar Steiff novamente, mas foi parado quando a garota coelhinha se atirou nele outra vez. A solene coelha que estava sentada momentos atrás desapareceu, e a imprestável retornou no lugar.

Não importa o quanto se esforçasse, Hajime não conseguia sacudi-la da sua perna, então ele finalmente suspirou exasperado e olhou feio para a coelha.

— Então, o que é que eu ganho salvando a sua família?

— V-V-Você quer uma recompensa?

— Vocês foram exilados do seu antigo reino, estão fugindo do Império Hoelscher e são considerados elementos perigosos por todos os outros membros de sua espécie. Até aqui, parece que tudo o que consigo os salvando é um monte de problemas. Além disso, mesmo que eu tire vocês desse desfiladeiro, para onde irão? Ao que parece, vocês estão todos condenados a serem capturados de qualquer maneira. Então, você vai pedir minha ajuda com isso também? Proteger vocês do Império Hoelscher até que façam todo o caminho até as montanhas?

— Humm, E-Eu… M-Mas!

— Temos os nossos próprios objetivos também, sabe? Carregar alguém tão problemática quanto você tornaria nosso trabalho mais difícil.

— Mas… Mas eu te vi nos protegendo!

— Você mencionou algo assim antes também. O que quer dizer com “eu vi”? Tem algo a ver com sua magia especial?

— Esse não é o futuro que vi! — Shea lamentou chorosamente quanto a forma teimosa que Hajime estava sendo. Hajime imaginou que suas declarações estranhas tinham algo a ver com o porquê ela estava agindo independentemente de sua tribo.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

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