CdMD – Capítulo 37

Vegabundo – parte 1

Zin não falou mais, porque ele sabia que a criança cansada e chorosa iria continuar reclamando de qualquer jeito.

Leona ficou tão exausta que parou de tagarelar e só continuou a andar. Sua cabeça estava sendo queimada pelo sol e enquanto escalava a montanha, ela conseguia sentir humidade abafada.

Uma das coisas para se ficar de olho quando se andava na selva era o clima.

— Moço, você não está sentindo o calor por que você é uma máquina?

— De jeito nenhum.

— O quê? Mas você não está suando nada.

— Eu consigo controlar meu suor.

— Hein?

Leona ficou parada e se perguntou o que ele quis dizer. Ela parecia realmente acreditar que Zin conseguia controlar seu suor.

— … Só brincando. Não pense demais. Eu consigo controlar funções biológicas não desnecessárias.

— … Eu me sinto mais quente agora.

Por causa do clima quente, Leona estava lutando para pensar direito. De qualquer jeito, Zin sentiu a necessidade de trocar suas roupas. Durante a última batalha, seu peito foi perfurado e o casaco tinha um buraco nele. Ele tinha a opção de costurar a roupa, mas o tecido estava ficando muito velho.

Se frustrando com o calor, Leona tirou a faca e cortou as mangas e pernas das calças, as transformando em camisa de manga curta e shorts.

— Phew, agora estou melhor.

— Você vai se arrepender.

Quando Zin falou, Leona deu de ombros.

— Contanto que eu esteja feliz agora, estou bem. Eu estou mais do que feliz assim.

— Bom, se você diz.

Leona jogou fora os pedaços de tecido que cortou, e começou a andar com mais energia.

— Mas, não me diga que vai ficar mais quente? — Leona parecia triste quando perguntou.

Zin olhou para o céu, e balançou a cabeça depois de checar a condição do ar e direção do vento.

— Vai ficar mais quente em dois dias.

— Dois dias? Mais quente?

— Sim. Bom… parece que vai chover depois de dois dias. — Zin falou com convicção e Leona balançou sua cabeça depois de olhar para ele.

— Você é um feiticeiro, moço? Quero dizer, não seria surpresa.

— Hmm… eu sou capaz de utilizar feitiçaria, mas isso não tem a ver com ser feiticeiro. É baseado na minha experiência.

— Você está certo que vai chover?

— Bom, na realidade… — Zin deu de ombros. — Eu acho que uma tempestade está se aproximando.

Zin esperava encontrar um bom abrigo dentro de dois dias. Apesar do clima não afetá-lo tanto, era terrível andar através de uma tempestade e chuva pesada. Leona ficou assustada depois de ouvi-lo mencionar que uma tempestade estava chegando.

— Da última vez, eu quase morri por causa de uma tempestade. — Leona podia ser soprada para longe pela tempestade porque ela era pequena e leve. Ela quase foi morta várias vezes porque ela foi varrida por uma tempestade.

De alguns jeitos, o clima da Terra deteriorou muito. Infelizmente, eles estavam passando por uma área onde não havia prédios ou instalações subterrâneas onde eles podiam se apressar.

— Vamos… nos apressar, moço.

— Para onde?

— Qualquer lugar!

Leona começou a andar mais rápido na frente de Zin.

Eles apertaram o passo depois que Leona soube que uma tempestade estava vindo.

Dois dias depois, o clima esfriou consideravelmente com nuvens nubladas, e Leona começou a entrar em pânico, já que parecia que a chuva iria cair como Zin havia previsto.

— Merda! Por que não tem um único prédio.

Não havia prédios a vista em lugar algum. Só haviam algumas ruínas ou montes de destroços de concreto.

— Bom, estamos em um lugar assim.

Zin estava considerando explicar a Leona como costumava existir uma Coreia do Sul e Coreia do Norte, e como os dois países eram diferentes em termos de desenvolvimento, mas ele não o fez porque ela não entenderia mesmo se lhe explicassem isso.

Eles passaram por Seoul, e estavam entrando na área norte da península Coreana, após o DMZ. Diferente da Coreia do Sul onde havia marcas de prédios e estradas, as terras da Coreia do Norte eram estéreis, com pouca coisa ao redor.

— Eu odeio encarar uma tempestade na estrada…

Leona foi capaz de sobreviver tempestades entrando em prédios e se abrigando. Ela entrou em pânico enquanto pensava que poderia ser levada pela tempestade para o meio da selva.

Zin notou que não havia cidades ou vilas já que ele foi para o sul antes. Humanos iriam viver em lugares onde havia pelo menos destroços. A área ao redor não tinha coisas recicláveis para construir uma muralha de lixo.

Zin revisou os mapas dos dias pré-apocalipse dos dados no Obscuro. Havia algumas poucas áreas que ainda podiam estar intactas.

— Uma base militar ainda pode estar boa. — Ele localizou uma base militar que costumava existir a uns dois dias de viagem. Com as boas novas, Leona pulou de alegria.

— Sério? Que demais!

— Siga-me. Eu não gosto de andar e segurar uma criança através de uma tempestade.

Conforme Zin começava a ir embora, Leona o cutucou do lado com um sorriso do mal.

— Moço, você sabe, você não é tão honesto assim.

— É isso que me torna charmoso.

— … bom, você é honesto sobre ser convencido.

Zin foi em direção à base militar.

Dois dias depois, conforme as lufadas fortes começaram a soprar, Zin chegou na base. Assim que eledisse que chegaram, Leona gritou:

— … eu não vejo nada,

— Sim, pelo visto.

Na frente deles estava as ruínas de uma base militar. Havia sinais de prédios, mas todos estavam destruídos. Gramas altas ao redor da base sugeriam que o lugar foi invadido a um bom tempo atrás.

— … bom, se algo foi deixado, alguém deve ter levado há muito tempo. — Leona murmurou irremediavelmente. Não era surpresa para alguém roubar concreto ou metal, já que recursos eram escassos.

*Hewwwwww!*

O vento soprava com mais força e era só questão de tempo até a chuva começar a cair com o vento.

— Eu não deveria ter rasgado minhas roupas…

Leona estava ficando frustrada por ter rasgado suas roupas antes por causa do calor. Zin estalou sua língua, como se ele soubesse que isso ia acontecer, e Leona odiava Zin por isso, mas ela não falou nada.

— Bom, você ficou brevemente feliz na hora, então isso não é bom o bastante?

Conforme Zin provocava Leona, ela começava a parecer devastada.

— É bom estar feliz no momento, mas não é útil se eu não estou feliz agora…

Zin riu de Leona que era bem simplista. De qualquer jeito, eles começaram a andar em direção às ruínas da base militar.

Apesar de tudo estar devastado, havia um lugar no porão onde poderiam se abrigar. Eles não estavam certos se era um porão de barracas ou um prédio diferente, mas havia uma escada levando até o porão.

Zin falou em um tom sério:

— Você decide.

— Decido o quê?

— Nós podemos procurar outros lugares para nos abrigar da tempestade. Nós podemos nos molhar na chuva, mas a tempestade não parece tão ruim e vai ser um lugar melhor do que esse.

— E qual a outra opção?

— Nós podemos nos abrigar no porão. Mas se ele for inundado, então nós precisaremos sair. E teremos de procurar por um novo abrigo no meio de uma tempestade.

Ambas as opções pareciam ruins. Não estava claro quão forte a tempestade seria, mas estava claro que o porão iria ser inundado pela chuva. Leona estava pensando no que fazer, mas ela odiava que tinha de tomar uma decisão.

*Kururrrrr!*

Um relâmpago cintilou no céu coberto com uma poeira verde e o trovão balançou o chão.

*Flash!* *Flash!*

Quando três relâmpagos consecutivos cintilaram, Leona pegou Zin pelo braço. A tempestade estava se aproximando e era tarde demais para fugir para procurar um novo abrigo.

— Eu, eu acho que nós devemos nos abrigar agora mesmo.

Leona desceu as escadas correndo e Zin foi arrastado. Enquanto desciam no porão escuro, Leona percebeu que a decisão dela foi a certa.

*Crack!*

A chuva estava caindo tão forte que Leona podia ouvir as árvores estalando. O som uivante da tempestade podia ser ouvido do porão e ela balançou sua cabeça com medo.

*Plop!* *Plop!*

E assim como Zin havia previsto, havia água caindo do teto.

— Ah não! Argg… não consigo relaxar… Ah!

Uma gota de água caiu na cabeça de Leona e ela encarou o teto, apenas para ser acertada por mais gotas. Desse jeito, estava claro que o lugar seria inundado. Entretanto, mesmo com o vazamento de água, parecia que eles poderiam ficar no porão por um tempo.

— A propósito, que cheiro é esse?

Leona franziu o cenho e fungou. O porão estava cheio com um odor desagradável e molhado. Zin estava olhando ao redor da sala da caldeira.

— Tem monstros?

— Por que a preocupação? Nós não vamos ser atacados.

— Isso não significa que todos os monstros são bons, você sabia?

Leona continuou reclamando e Zin continuou a olhar ao redor. O porão estava cheio com um cheiro desagradável e sinistro. Tais porões eram bons locais para monstros fazerem ninhos. Dessa forma, monstros viviam em cidades e não na selva. Era bem provável que os ninhos no meio da selva eram habitados por monstros poderosos que conseguiam aguentar o clima.

Mas Zin não estava muito preocupado depois de sentir o odor.  Esse não é o cheiro de só um tipo de monstro… há uma mistura de diferentes tipos.

Caçador de cadáver, slime de lixo, cão venenoso…

E ele também avistou pelo, muco seco, fluídos corporais e manchas de sangue. Era possível que um monstro foi devorado ali, mas ele não foi capaz de cheirar qualquer traço de um monstro poderoso.

— O que é? Você encontrou algo?

Zin assentiu lentamente com a questão de Leona.

— Eu acho que é uma camuflagem.

Nesse porão cheio do cheiro sinistro de monstros, Zin era capaz de identificar um buraco no canto da sala da caldeira. Estava localizado no canto mais longe do quarto, escuro e solitário.

— Algo viveu aqui, ou está vivendo aqui.

Espalhar cheiro de monstros na entrada poderia assustar outros monstros, assim como ladrões. O porão se tornou um lugar onde os diferentes odores podres eram insuportáveis.

— Grupos reclusos de pessoas usam esse tipo de camuflagem. É geralmente melhor camuflar a área de tal jeito, já que monstros podem encontrar a entrada bem facilmente.

— Oh… isso é esperto.

Os residentes desse lugar fizeram o porão parecer um ninho de um monstro extremamente perigoso. Maioria das pessoas não perceberia isso, e monstros de nível baixo se assustariam pelo cheiro de outros tipos de monstros. Mas, Zin que já lidou com muitos tipos de monstros, notou o disfarce facilmente.

— Então, o que você vai fazer?

Leona estava perguntando se Zin iria entrar no buraco ou não. Era bem provável que os residentes formaram uma pequena comunidade e não haveria muitos recursos. Havia várias vezes onde pessoas pediam ajuda, mas não muitos podiam pagar apropriadamente. Zin já viu pessoas pedirem para o caçador trabalhar de graça. Era algo que ele não queria lidar.

— Tudo certo, é melhor nós ficarmos aqui.

Com suas palavras, Leona se sentou no chão e Zin também se sentou perto. Eles não sabiam quanto tempo levaria para a tempestade ir embora.

E eles só podiam esperar que o porão não fosse inundado até lá.

*Drip!* *Drip!*

A chuva estava caindo forte com relâmpagos.

Leona pensou que essa seria a única chance, e saiu para se lavar na chuva. Ela voltou para o porão toda molhada e secou seu cabelo.

— Phew, me sinto melhor depois de me lavar. Eu me sentia tão suja.

Leona lavou suas roupas extras e as jogou no chão. Porque ela não era capaz de tomar banhos regularmente, Leona se lavava usando a água da chuva.

Se sentindo fresca e limpa, Leona vestiu as roupas molhadas e se deitou no chão da sala da caldeira. Zin pensou quão estranho Leona agiu enquanto tomava banho .

— … água suja está caindo.

Quando ela foi acertada pela água suja, ela resmungou irremediavelmente. Zin pensou que Leona teria sobrevivido mesmo se ela não tivesse o poder da Bruxa. Então, ela se levantou como se tivesse pensado em algo. Tirou sua faca, cortou seu cabelo e se manteve ocupada.

E, então, ela começou a afiar a faca contra o chão de concreto. A faca pequena que era usada provavelmente na cozinha estava bem cega. A faca era a única arma dela e ajudou-a a sobreviver na selva.

Apesar dela nunca ter aprendido como afiar uma faca, ela estava afiando diligentemente a dela enquanto jogava água nela.

— Use isso.

— Huh?

Zin se aproximou de Leona.

— Você não vai conseguir cortar nem um vegetal usando essa faca. Isso é uma faca. — Zin entregou a ela uma faca com uma bainha de couro. Ele a usava para cortar carne, era uma reserva.

— Oh…

Leona tirou a faca de sua bainha e se maravilhou. A faca estava em condição excelente, a empunhadura coberta com couro de boa qualidade, e a faca era leve o bastante para Leona usar.

Mais do que tudo, a faca era pequena o bastante para Leona escondê-la em suas roupas. Ela enrolou a faca velha com pano e guardou em sua bolsa. E pôs a faca em sua cintura. Ela sorriu alegremente, muito feliz com a faca nova.

— Obrigada, moço.

— Não fique feliz demais com um pedaço de metal.

— Ah, eu estou começando a entender que é isso que te deixa encantador, moço. — Leona riu enquanto Zin falava com indiferença, e ele, estupefato, voltou ao seu lugar. Leona continuou olhando sua faca nova que brilhava com uma luz metálica.

— Me deixe te ensinar como se afia uma faca também. Se você afiar como antes, a lâmina vai ser arruinada rapidamente.

— Ohh!

Zin foi pedido para tornar Leona uma caçador, e já recebeu as lascas pelo pedido. Ele não queria dar uma arma de fogo para uma criancinha, então decidiu ensiná-la como lidar com uma faca.

Ele pegou uma  pedra de amolar e começou a afiar a faca lentamente.

— Segure essa área, e tome cuidado para não se cortar…

Zin mostrou para Leona como afiar a faca lentamente, e ela prestou muita atenção.

Depois de aprender como afiar a faca completamente, ela assentiu com um sorriso agradável.

— Eu entendi agora. Mas, você sabe, eu não tenho uma pedra de amolar.

— …

— ?

Zin percebeu que ele tinha esquecido algo muito importante.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

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