CdMD – Capítulo 78

Espírito Traiçoeiro

O lorde só conseguiu  afastar os espíritos balançando sua tocha, mas Leona conseguiu assustá-los só com seu grito. 

— O que eram aqueles espíritos?

Apesar de dar azar falar sobre espíritos, Zin pensou que seria bom explicar para Leona.

— Eles são espíritos que entram na mente de uma pessoa agitada. Entram no corpo delas e as deixam insanas. Se você não prestar atenção, você será possuído. — Conforme ele falava, Zin olhou para Ramphil em aviso e ele assentiu como resposta. Ele estava pensando sobre várias coisas, permitindo que o espírito entrasse em sua mente. 

— Se algo está te preocupando, pense nisso depois. Agora só se foque no que está em sua frente. 

— Entendi. Desculpe. 

— Tudo certo, vamos lá. 

O lorde começou a liderar o caminho de novo e o grupo se moveu em fila indiana. Ramphil então percebeu o motivo do lorde estar carregando a tocha. Não era só para iluminar o caminho, mas também para agir como um amuleto para afastar espíritos malignos. Essa era a razão do lorde conseguir afastar os espíritos ao balançar sua tocha. 

O lorde continuou balançando ela para afastar outros espíritos. Ramphil não entendia muito de feitiçaria, mas ele acreditava que podia confiar em seu poder. 

— Esse lugar não é considerado sagrado para os feiticeiros? Por que há tantos espíritos vagando aqui? — Ramphil pensou que o Castelo do Poder Celestial deveria estar em um lugar onde os espíritos não conseguiriam se aproximar devido aos amuletos e campos de força. Ele não  conseguia acreditar que havia tantos espíritos na área mais importante do castelo.

— Mas que merda você está falando? — Zin respondeu como se fosse uma pergunta idiota. — Esse Castelo do Poder Celestial é um lugar onde um maligno está selado e essa é a entrada do selo. Esse lugar está longe de ser sagrado.

Vários amuletos decoravam o castelo a fim de prevenir os espíritos malignos de escaparem do coração do castelo. Os espíritos não eram atraídos mesmo para o lugar sagrado. O Castelo do Poder Celestial até tinha um equipamento chamado “Pedra Grande do Poder Celestial” que impedia energias malignas de se espalharem para as áreas ao redor. Espíritos malignos também eram atraídos para os arredores do castelo. 

As pessoas do castelo tinham que instalar muitos dispositivos e amuletos a fim de viver aqui. Pessoas assumiriam que o castelo estava livre de espíritos malignos, mas na realidade, estava cercado pela maior quantidade de energia maligna. 

— … por que vocês estão tão pertos de mim?

Zin olhou para trás rapidamente e viu Ramphil e Leona logo atrás dele. Não parecia que eles queriam ficar mais longe dele.

Conforme o grupo descia mais e mais, a luz da tocha ficava mais fraca. Não era porque o óleo estava se esgotando, mas sim porque a escuridão estava ficando mais densa. Ela ficava ao redor da luz, se recusando a dissipar facilmente e rodopiando com a consistência de mucu.

Apesar da escuridão não ser um espírito, ela se movia como um organismo vivo. A luz iria normalmente afastá-la, mas nesse lugar, a escuridão recuava bem lentamente. Não parecia natural e era meio esquisito.

Ficava mais escuro conforme desciam. Todos se reuniram ao redor da tocha na mão do lorde.

— A ausência do Vento Celestial está fazendo com que os espíritos vaguem livremente. — Zin disse.

— Sim… eu pensei que o amuleto era usado apenas para controlar o tempo, mas parece que ele cumpria um papel grande em conter os espíritos malignos dentro do templo.

A área perto da força de selo estava extremamente escura. O lorde e Zin estavam em silêncio. Eles estavam em uma situação muito perigosa.

Se a tocha se apagasse, a escuridão animada começaria a atacar e devoraria o grupo. Como parte do ambiente, não era um monstro de verdade. Apesar da luz estar afastando a escuridão, ela em si era um objeto inanimado que tinha o desejo de destruir os seres vivos. 

— Luz!

*Frrh!*

Assim que o lorde gritou, a tocha começou a queimar com mais força, mas a escuridão recuou menos de um metro. O grupo poderia afastar a escuridão temporariamente, mas eles terminariam engolidos por ela mais cedo ou mais tarde. 

— Há apenas três tochas sobrando. — O lorde disse preocupado.

— Por que você não trouxe mais? — Leonna balançou sua cabeça lentamente.

— Ela foi duramente feita usando uma bétula que foi acertada por um raio. A árvore está ensopada em um óleo laranja-dourado. Sinto lhe dizer que era tudo que tinha. Sinto muito. 

 A tocha que ele trouxe não  era uma tocha comum, mas sim uma ferramenta usada para entrar na área proibida. Uma tocha tão especial era difícil de produzir em massa.

— Eu desci aqui ano passado, mas não esperava que as coisas piorassem tanto. — O lorde disse.

— O que você vai fazer mestre caçador? Nós ainda podemos voltar.

O grupo tinha duas opções: um, eles podiam usar as três tochas restantes para descer a passagem escura ou dois, podiam voltar e esperar até conseguirem tochas o bastante. 

Zin não queria se arriscar, mas esperar a criação de mais tochas levaria uma eternidade. Eles não tinham mais o Vento Celestial para criar tempestades, então seria impossível para um raio acertar a bétula no futuro próximo.

— Esperem aqui. Eu vou sozinho.

— Espera, Moço!

— Fique aqui!

Zin pegou a Cavaalma da sua bolsa e correu para a escuridão. O olhar de Leona o seguiu, mas ela não conseguia ver nada. O lorde também estava olhando para a escuridão, preocupado.

*Shank!* *Kyaaaaah!* *Kweeeeeeh!

Pouco tempo depois, um grito ressoou por toda a caverna e Leona ficou aterrorizada. Os gritos dos monstros continuaram, mas Zin voltou. Parecia que ele tinha matado algo, embora não  houvesse sangue em seu corpo e sua Cavaalma estava limpa. 

— Assim que nós nos afastamos da tocha, a escuridão começa a formar um ser vivo. — Zin murmurou com uma expressão séria. O lorde também ficou solene. — É um Espírito Traiçoeiro da Escuridão. Nós não vamos conseguir prosseguir. 

Só escuridão rodopiante podia ser vista, mas assim que a luz ia embora, ela se transformaria na forma de vários monstros e, então, atacar como um ser vivo. 

— Hmm… eu não consigo acreditar que um Espírito Traiçoeiro se estabeleceu aqui. — O lorde murmurou com uma expressão séria.

— O que é um Espírito Traiçoeiro? — Leona perguntou.

— Isso se refere a um fenômeno obscuro, anormal. Nesse caso, a escuridão da caverna se tornou a causa do fenômeno anormal.

No mundo pós-apocalíptico, não havia apenas monstros, mas também fenômenos estranhos. Espíritos Traiçoeiros eram mais perigosos do que monstros comuns. Também era mais complicado lutar contra eles. 

O Espírito Traiçoeiro da Escuridão habitava apenas em cavernas escuras estava bloqueando a passagem da força de selo. Estava pronto para atacar assim que a caverna ficasse escura. 

Prosseguir era perigoso demais com aquele tipo de Espírito Traiçoeiros a espreita na frente deles. Era suicídio fazer isso e lutar contra um inimigo cujo poder estava significativamente aumentado.

— Nós não vamos conseguir derrotá-lo sem um exorcismo. Vamos voltar.

O lorde poderia completar um exorcismo, mas fazer uma feitiçaria tão poderosa precisava de um item poderoso também. O grupo decidiu voltar a superfície e retornar depois. 

De repente, Leona pegou o casaco de Zin.

— Eu vou.

— Eu sabia que você diria isso, mas não.

— Se essa coisa é parecida com um monstro, então ele não vai me atacar, certo?

Estava claro que Leona, como uma bruxa, não seria atacada por um fenômeno estranho ou um monstro. Entretanto, Zin deu um olhar severo para ela. 

— Pare. — Ele disse. — Você não pode fazer nada lá embaixo. Como você vai encontrar o caminho de volta? Você não pode descer só encostando sua mão na parede.

— Sim, eu não consigo ver nada com minha visão noturna. Eu não sei o motivo de você não ser atacada, mas não apoio você descer lá sozinha. — Ramphil assentiu em concordância. 

O caminho escuro parecia perigoso e Ramphil balançou sua cabeça. Mesmo assim, Leona não desistiu. 

— Confiem em mim. Só me diga o que preciso fazer. Moço, você pode esperar aqui.

Contanto que os outros esperassem na área fora da influência do Espírito Traiçoeiro, o grupo estaria bem sem uma tocha. O único problema era a falta de visibilidade. A passagem não tinha ramificações, então não havia risco de se perder. Obviamente, levaria muito tempo antes deles conseguirem voltar.

— Eu quero ajudar também. 

Leona queria contribuir de algum jeito e ela era a única pessoa que podia ajudar no momento. Ela estava disposta a fazer isso, não importasse o que.

Zin sabia que Leona não gostava de ser protegida o tempo todo. Ele também sabia que ela só tinha que tomar cuidado da escuridão. Ela não seria ameaçada. Entretanto, ele ainda hesitava em mandar ela para a escuridão, apesar de ser a melhor opção no momento.

— …

Leona era uma criança tão problemática. Ela poderia ter escolhido voltar quietinha para a superfície com o restante do grupo. Ela sabia em quais situações tinha que intervir, mas era uma situação particularmente complicada. 

— O selo precisa ser manuseado com extrema cautela. Eu não posso te deixar fazer isso.

Era algo que apenas uma pessoa habilidosa com feitiçaria deveria manusear. Deixar Leona fazer isso era como deixar uma criança controlar um reator nuclear. Quando ela ficou triste, Zin colocou sua mão na cabeça dela. 

— Desculpe. — Ele disse. — Eu confiaria você com a tarefa se fosse algo que você pudesse lidar, mas não dessa vez. Eu não estou sendo superprotetor.

— … tá. — Leona assentiu, sabendo que a tarefa era algo fora de suas habilidades. As desculpas de Zin mexeram com ela.

— Entendi. — Leona deu um sorriso estranho e o grupo começou a voltar. 

O Espírito Traiçoeiro cercava o selo, então Zin tinha que descobrir um jeito de se livrar dele. Nenhum problema podia ser resolvido facilmente. 

O grupo voltou para o templo. O lorde usou outra tocha no caminho e só tinha uma restando com ele. 

— A fim de chegar até o selo e voltar em segurança, vamos precisar de mais de vinte tochas. 

Ele trouxe seis e teve que usar quatro. Eles precisariam de muitas, considerando o fato que a escuridão ficava mais e mais densa conforme desciam. 

— Mas agora será difícil fazer tochas novas. 

Não havia jeito de produzir bétulas acertadas por um raio. Era tolice só esperar por um raio acertar. 

O caminho para o selo sendo bloqueado pela escuridão angustiava o lorde.

— Nós deveríamos provavelmente realizar um exorcismo. — Zin sugeriu.

— Sim, nós vamos precisar. Uma cerimônia comum não vai banir o Espírito Traiçoeiro. 

Zin conseguiria descer até o selo se tochas comuns conseguissem afastar o fenômeno estranho. O templo do Poder Celestial tinha muitos livros sobre feitiçaria assim como o ambiente certo para conduzir o exorcismo necessário para derrotar o Espírito Traiçoeiro.

Para Leona e Ramphil, o que Zin e o lorde estavam conversando parecia ser algo de outro mundo. Ramphil permaneceu em silêncio e ouviu a conversa, mas Leona não era como ele.

— Como se faz um exorcismo? — Ela perguntou.

— Primeiro, você precisa rezar por mais de um mês a fim de evitar desastres. — O lorde respondeu. — Depois disso, você precisa começar a fazer as ferramentas usadas na cerimônia, que vão levar outro mês. 

Feiticeiros geralmente ficariam vulneráveis a cerimônia que eles estavam realizando. O Castelo do Poder Celestial era um lugar para feiticeiros aprenderem como fazer feitiçaria de forma segura. 

— Por que leva tanto tempo? — Leona perguntou.

— Um Espírito Traiçoeiro é um monstro extremamente perigoso, raro e poderoso. Vai levar muito tempo para se livrar dele. — O lorde sorriu amargamente. 

Obviamente, tal cerimônia levará muito tempo para ser preparada. Mais de dois meses de preparação seriam necessários.

A causa desse problema todo era uma pessoa. 

— É por causa daquele idiota. — Zin murmurou com raiva.

O poder defensivo do Castelo do Poder Celestial foi enfraquecido porque o sucessor maluco levou o amuleto com ele. A área ao redor do selo estava cheia de espíritos malignos e mais do que tudo, o Espírito Traiçoeiro estava a espreita perto do selo.

Infelizmente, eles ficariam presos por mais de dois meses. Zin estava com pressa e era estressante para ele desperdiçar tanto tempo.

Ele vagou ao redor do templo para baixo.

De repente, ele percebeu que havia uma solução simples. 

— Certo! Se eu conseguir pegar o Vento Celestial, posso resolver o problema. 

Ele conseguiria chamar os raios para criar mais tochas e o lorde também poderia realizar o exorcismo rapidamente usando o amuleto. Zin se decidiu no próximo passo.

— Se o sucessor vendeu o amuleto, alguém deve ter ele. Ou ele poderia estar carregando o amuleto consigo.

— Entretanto, a promessa original era devolver o amuleto para o sucessor do imperador. Se nós o recuperarmos, nós estaríamos quebrando a promessa. — O lorde tentou parar ele, mas Zin só sorriu com raiva.

— Se o idiota vendeu o amuleto, então nós só vamos simplesmente recuperá-lo e devolvê-lo ao templo. Como isso quebraria a promessa com o imperador?

Zin cerrou seus punhos enquanto imaginava chutar a bunda do sucessor.

— E não importa mesmo se ainda estiver com ele. O imperador pode ter pedido para você dá-lo ao sucessor, mas ele não te proibiu de roubá-lo de volta.

— Hmmm…

— Estou errado?

Zin não estava necessariamente incorreto. Leona e Ramphil perceberam que ele ia fazer tudo para trazer o amuleto de volta.

— Por favor pegue o “Oito Diagramas”. — Zin ordenou o lorde sem hesitação.

O lorde ainda estava confuso. 

— Nós vamos rastrear o Vento Celestial.

Zin decidiu voltar ao continente principal para rastrear o amuleto em vez de esperar no castelo por dois meses.

Ele sorriu, ansioso para lidar com o sucessor sem educação do caçador de imortais.

Erudhir
"Se olhar ao redor e não souber quem é o alvo, então o alvo é você."

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