DCC – Cosmologia 3

História da humanidade pelo ponto de vista Brard

 

Desde quando a humanidade ainda era uma raça jovem em seu planeta original, o livre arbítrio sempre foi valorizado. É claro que com o tempo, passou-se a existir um senso cada vez maior de coletividade que colocava limites até onde o livre arbítrio poderia ser exercido, mas no fim, ele nunca foi abandonado.

“Sua liberdade acaba, quando a do outro começa”. Esse sempre foi um conceito bem enraizado no nosso estilo de vida, e quanto mais envelhecíamos, como pessoas e como sociedade, mais nos dávamos conta de como o livre arbítrio não era tudo. Havia outro dizer que se espalhou com força e ainda é bastante comum entre os mundos Brards: “Você pode fazer qualquer coisa que quiser, desde que esteja disposto a arcar com as consequências. Sejam boas ou ruins”.

O estilo de vida primitivo que os humanos tinham no planeta original emergiu e ruiu várias vezes, quase beirando a completa extinção de nossos ancestrais em algumas ocasiões. Naqueles momentos, um senso de coletividade emergia acima do senso individualista e as pessoas se tornavam capazes de prosperar novamente.

O marco do estabelecimento da coletividade foi a morte da estrela mãe que iluminava o nosso planeta original. Os nossos ancestrais já tinham se preparado em expedições por várias outras estrelas, mas se perdiam em meio ao vazio do espaço. Não se sabe o que aconteceu, pois os registros desse acontecimento foram completamente perdidos, que motivou um grande desenvolvimento na tecnologia e posteriormente a descoberta da formula de manipulação de magia, que permitiu que a humanidade prosperasse mais uma vez e escapasse com sucesso para colônias espalhadas pelas estrelas mais próximas.

Se a humanidade não tivesse passado por esse evento desconhecido e não tivesse abdicado do individualismo em prol do bem comum, nossa sociedade teria sido extinta juntamente com aquele pequeno sistema estelar.

Esse é um conceito que está bem enraizado em todos os Brards. Principalmente por conta disso, é que o ressentimento contra os Jomons acabou se tornando cada vez maior. Brards são mais próximos do nosso ancestral comum do que os Jomons. Evoluímos e nos adaptamos, mas nosso tempo de vida não mudou tanto. Continuamos “meros humanos normais”. Mas os Jomons… eles emergiram de colônias cujo ambiente era mais propício. A quantidade de planetas capaz de evoluir um humano para um Jomon era bem limitada, então essas colônias acabaram se tornando lugares sagrados para aqueles que desejavam ter uma longevidade prolongada, e com um tempo, ter sua linhagem transformada em Jomons como seus conterrâneos.

Mas o conceito de coletividade acabou se transformando depois de várias gerações de colonização. A coletividade que os ancestrais tinham pela humanidade como um todo acabou se transformando em uma coletividade pela colônia. Pela própria raça. Conceitos absurdos como discriminação e preconceito, que tinham sido extintos há tanto tempo passaram a se espalhar silenciosamente por todo lugar.

Em pouco tempo, haviam pessoas proclamando orgulho de ser Brard ou Jomon, no lugar de proclamar “orgulho de ser humano”. Casos mais extremos relatavam até mesmo extremismo de um lado contra o outro.

Pela quantidade limitada de planetas capazes de gerar Jomons, e por conta de seu tempo de vida extremamente prolongado, ao passo em que Jomons cresciam, os Brards cresciam 10 vezes mais. Nossos números nunca puderam ser sobrepujados, então nossa raça nunca foi exatamente “domesticada” pelos Jomons. Mesmo assim, sempre havia uma sensação de opressão e arrogância na reunião desses dois grupos raciais.

Quando finalmente os Jomons deixaram às claras que nos consideravam inferiores e que estávamos excluídos de seu conceito de coletividade, nossas relações já superficiais se tornaram ainda mais fracas, quase deixando de existir por um tempo.

Jomons nos desprezavam por não sermos capazes de desenvolver magia. Os casos eram tão raros que podem ser facilmente enumerados na história. Jomons dizem que a magia é alcançada depois que a alma passa pela iluminação depois de anos e anos vivendo sobre uma moral bem definida. Eles se aproveitam desse conceito para insinuar que nossa moral é fraca e que nosso modo de vida é errado. O fato de que os Brards não têm longevidade suficiente para alcançar essa tal iluminação é completamente ignorado por eles nesses momentos.

Nós por outro lado, prosperamos e persistimos com sucesso sem precisar desses tais artistas iluminados como alicerce para nosso modo de vida já mostra quem é mais capaz de sobreviver nesse universo. Jomons abriram mão da coletividade pela humanidade e da individualidade pela magia. Se tornaram meros seguidores de seitas alienadas tentando utilizar de sua aparente superioridade para tentar oprimir os que eles diziam ser mais fracos.

O que na verdade acabou desenvolvendo uma sociedade muito triste e vazia. Eles abriram mão das próprias emoções e paixões em troca dessa iluminação vazia. E discriminam os Brards por se entregarem à emotividade. Brards não vivem séculos e séculos contemplando as paredes tendo tempo de sobra para desperdiçar. Brards tendem a se apaixonar e vivenciar cada dia como algo precioso e único. A vida de um Brard pode ser bem mais curta que a de um Jomon, mas em compensação, a de um Jomon é bem mais vazia.

Quando esses conceitos de interpretação da sociedade já estavam mais estabelecidos, as colônias já estavam fixas e a expansão humana chegou a um equilíbrio estável, conflitos externos com outras civilizações começaram a crescer para invasões e guerras. Nosso requintado sistema de controle de natalidade mostrou sua eficiência nessa época. Apesar de nos rendermos às emoções, isso não significa que nossa racionalidade é deixada de lado. Apenas não nos prendemos aos fatos frios sem ignorar a vontade do povo.

As colônias Brards se tornaram alvos cada vez mais fáceis. Nossa tecnologia não evoluía ao mesmo passo que a tecnologia Jomon, considerando que toda vez que um estudioso morria, outro precisaria de anos e anos apenas para chegar naquele mesmo patamar, o que não era tão dispendioso no caso dos Jomons, que precisavam investir na educação básica de seus desenvolvedores e eles persistiriam fazendo descobertas e ampliando seus limites por séculos e séculos.

Abandonados pelos Jomons, e com pouca capacidade de defesa, os Brards foram atacados e algumas colônias completamente dizimadas. Não foi até o momento em que a primeira soberania Jomon foi atacada, que eles resolveram estender a mão para ajudar. Apesar das grandes baixas entre os Brards, nossos números se estabilizaram em questões de décadas. Já os Jomons permaneceram com lacunas por séculos.

Essa lacuna foi responsável pelo aumento das interações entre Brards e Jomons. A necessidade Jomon por mão de obra foi o alicerce do império que foi criado com o objetivo de promover a união entre todas as raças humanas, marcando o início da era Gionardi.

Apesar da retomada de relações amistosas entre os grupos raciais, ainda havia uma enorme rixa entre Jomons e Brard. Os primeiros imperadores do Conglomerado Imperial foram de grande ajuda para tentar estabilizar e formalizar relações justas entre os planetas. Enquanto os Brards exportavam mão de obra e estabeleciam linhas de produção, os Jomons forneciam tecnologia, recursos e proteção.

Essas trocas entre as soberanias Brards e Jomons continuaram estáveis por gerações, até que escândalos envolvendo o desprezo Jomon pelos Brards começaram a vir a tona novamente. Planetas Brards que ainda não estavam no império eram dispensados, e os planetas Brards que já estavam eram apresentados como subalternos dos Jomons.

Em um momento de crise, os planetas Brards se uniram novamente aderindo a um boicote coletivo contra as soberanias Jomons. Esse boicote causou um desequilíbrio fortíssimo na estrutura social Jomon, que já tinha se reorganizado para contar com a presença dos Brards e seus produtos. As relações foram se tornando cada vez mais tensas até a insurreição da Grande Guerra Xenofóbica.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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