DCC – Capítulo 111

Partindo da Academia

 

— Calma! Todo mundo calma! — eu pedi urgentemente para as meninas, que estavam aos gritos. — Precisamos ir. No caminho nós conversamos sobre tudo.

Isaac ficou extremamente corado e perceptivelmente nervoso ao ver todas entrarem em comoção e tentou explicar nervosamente:

— Desculpem ter omitido isso de vocês. Mas uma das condições que exigiram de mim para permitir que eu saísse de Keret era que ninguém deveria saber sobre minhas origens. Alésia e eu já nos conhecíamos antes, então fatidicamente ela acabou envolvida nisso e me ajudou a encobrir, mesmo do pai Henry. Se possível, eu gostaria que ninguém tentasse descobrir mais nada além disso, para não trazer problemas a ninguém.

Isabel me lançou um olhar significativo. Ela era esperta, e eu sabia que ela tinha entendido mais do que havia sido falado, mas ela também tinha o bom senso de não divulgar nada do que estava pensando.

— Não se preocupe, Rael. Realmente seria bem problemático para nós também se o segredo de que você é filho de Henry vazasse. Perderíamos o privilégio de sair juntos por aí em paz, — ela disse brincando.

As gêmeas se apressaram em concordar.

— Claro que você pode contar com a gente! — Márcia disse feliz.

— Isso mesmo, um dia, quem sabe, poderemos nos gabar para nossos netos que fomos amigos, mas até lá, o que você precisar, pode contar conosco. Não vamos trair seu segredo.

— Então é isso! Por aqui, ladies! — Henry disse, apontando galantemente para a porta do meu quarto.

Uow… isso me deixou extremamente arrepiada. Eu naturalmente o achava charmoso, mas vê-lo distribuindo charme daquela forma, humilde, mas sem perder o ar de nobreza, me deu uma sensação de orgulho só de pensar “e ele é todo meu!”.

Cada uma pegou suas bagagens e foram seguindo em fila para o meu quarto. É claro que elas estavam morrendo de curiosidade para saber como sairíamos por ali, mas também não questionaram Henry, principalmente depois dele ter distribuído todo aquele charme.

Dentro do quarto, Amelie estava sentada na cama tentando enfiar uma pilha de quebra cabeças e cubos mágicos dentro de uma sacola de última hora. Ela já tinha dominado os mais básicos e já estava nos modelos especiais. O mais avançado dela era um octaedro de base seis. Eu tinha que encomendar logo alguns mais avançados ainda para quando chegássemos em Keret, senão ela morreria de tédio. Eu dificilmente teria tempo para cuidar dela.

— Vamos querida, leve apenas seus preferidos — eu disse para ela. — Quando chegarmos, eu arrumarei outros mais divertidos para você.

— É sério? — Amelie disse com um sorriso esperançoso e tratou de catar apenas os que cabiam na sacola, se pondo logo de pé para mostrar que já estava pronta.

— Muito bem, todos já estão dentro do quarto? Podem vir por aqui, — Henry disse apontando para a ponte dimensional que ele tinha aberto entre meu quarto e a casa dele.

Eu não preciso explicar o quão chocadas as meninas ficaram. Se bem que, a essa altura do campeonato, parecia que mais nada espantava elas.

— Uma dobra espacial compacta de uma casa para outra! — Isabel disse, impressionada

— Se isso fosse feito comercialmente, valeria uma fortuna… — Márcia disse enquanto observava o feitiço.

— Isso sem considerar ainda as taxas de manutenção para repor a capacidade mágica da dobra… — Michelly complementou

— Ah, então vocês entendem de Onipresença! — Henry elogiou, impressionado.

— É a minha área principal, mas eu ainda não estou nesse nível, — Isabel disse sem conseguir esconder a admiração.

— Essa questão de nível não existe. Todos estão no mesmo nível, a única diferença é quem se liberta dos limites e quem continua preso a eles. Quando vocês entenderem que no fim das contas artes mágicas são tão simples quanto respirar, vocês poderão fazer qualquer coisa.

— Uau… — Michelly exclamou. — Você bem que podia largar a bioengenharia médica e vir dar aula no centro de onipresença.

— Não, não… — Henry disse gesticulando arduamente, dando ênfase na negação. — Seria horrível eu acabar sendo professor de qualquer artes mágicas. Seria como ensinar as pessoas a respirar. Isso é muito chato.

— Ele usa bastante essa analogia de “respirar”, — Isabel comentou sussurrando para mim.

— É como ele sente a magia, — eu expliquei para ela, enquanto Márcia e Michelly pulavam para dentro da dobra espacial. — Para ele, o limite da magia é o limite que decidimos para nós mesmos. Ele nunca pensou em si mesmo como tendo limites, então para ele tudo é muito natural, até mesmo entediante.

— Nossa… e pensar que existiria realmente alguém que pensa que a magia é entediante…

Isabel entrou na dobra, depois eu a segui levando Amelie pela mão. Henry passou por último junto com Isaac e fechou a dobra.

— Muito bem, vamos todos para a garagem. A nave está lá. Lembrem-se de não saírem da casa, tem muitos olheiros do lado de fora esperando por qualquer brecha para tirar fotos da minha mulher.

— Caramba! Você tem a sua própria nave em casa? — Márcia exclamou excitada. Ela gostava bastante de naves. — Qual é esse modelo?

— Acho que daria para classificar como um modelo executivo de pequeno porte. Leva até dez pessoas, — Henry disse brevemente enquanto pensava sobre a própria nave.

— Uau, customizada! Isso é muito bárbaro! — Michelly exclamou. — Qual o nome dela?

— Ah.. na verdade eu nunca pensei em batizar minha nave. Parece um tanto antiquado. — Henry sorriu sem jeito.

Eu revirei os olhos só de pensar nessa definição simplória dele. Se teve uma coisa que me impressionou de verdade durante todo o tempo que passei a viver com Henry, definitivamente foi aquela nave. Tanto que quando eu soube da diferença de tempo que uma nave “normal” levava para fazer o percurso da academia até Keret, eu fiquei extremamente chocada.

Ela era completamente personalizada, isso para não dizer feita inteiramente do zero. Ninguém veria nenhuma outra nave semelhante àquela em nenhum lugar, e ela era incrivelmente fácil de pilotar — apesar de eu nunca ter pilotado oficialmente, apenas por simuladores, enquanto me divertia com Henry.

O mais surpreendente era a velocidade, já que ela era capaz de alcançar facilmente um deslocamento até vinte vezes mais rápido que os modelos mais velozes do mercado. Agora que eu entendia um pouco de magia, eu podia dizer que aquela era provavelmente a primeira nave feita com um propulsor combinado diretamente com artes onipresentes, criando uma singularidade de densidade negativa capaz de distorcer o espaço de forma independente.

Eu entendia muito pouco de onipresença, mas eu já tinha compreendido pelo menos a diferença entre um rasgo e uma dobra. O rasgo abria um caminho de ida para qualquer lugar e depois de curava sozinho pelas próprias leis da natureza. Uma dobra espacial por outro lado poderia ser usada como uma porta tanto de ida, como de volta, e poderia ser fixada em portais, como os que ligavam um anel a outro na academia.

O nível de complexidade também era completamente diferente. Um rasgo era algo mínimo, e poderia levar poucas coisas, podendo ser usado apenas uma vez. De certa forma era inofensivo. Mas uma dobra, como poderia ser mantida aberta pelo tempo que a magia durasse, precisava de um tipo de precaução bem maior, pois caso ela saísse de controle, poderia criar um pequeno vortex de sucção que destruiria tudo ao redor até que o espaço dobrado voltasse a se equilibrar.

Por isso os onipresentes, mesmo que não fossem os mais influentes, eram os mais ricos entre as três artes mágicas. A expansão galáctica não teria sido possível sem as várias estações espaciais estratégicas ligando um ponto a outro do espaço com portais de dobra, acessíveis para qualquer nave, é claro, após o pagamento da taxa de traslado. Algumas das maiores empresas de transporte interespacial inclusive contratavam onipresentes poderosos como pilotos, para criarem “manualmente” o efeito que o motor de Henry criava. Os exércitos planetários investiam em frotas de caças com pilotos onipresentes, capazes de responder em questão de minutos a qualquer emergência em qualquer canto do planeta. Mas claro, isso era um luxo dos planetas Jomons mais ricos.

E é claro, como era de se esperar, quando as meninas viram a nave de Henry, ficaram completamente empolgadas. Mesmo na primeira vez que eu a vi, eu já tinha sentido que era um modelo único e caro, um chassi com design sofisticado com traços simples e elegantes podendo perfeitamente se passar por um jato particular de órbita, ou uma limousine de luxo do tipo que só andava no chão. Não sendo um conhecedor, a única coisa que qualquer um poderia dizer especificamente sobre ela é que era customizada. Então ela poderia muito bem se passar até mesmo por um carro flutuante, que ninguém notaria. Não era por menos que ele havia “estacionado” ela em Sátie como um carro qualquer, e ela não havia chamado tanta atenção.

— Por favor, sintam-se à vontade para entrar, — Henry disse abrindo a porta.

Eu corri para o assento do copiloto, onde eu sempre me sentava, ao lado de Henry, e todas se sentaram confortavelmente nos bancos atrás, que ladeavam a parede da nave. Assim que Henry se sentou no assento do piloto, ele abriu um compartimento aos pés de todos, onde elas poderiam colocar suas bagagens. Isaac se sentou o mais próximo que deu de nós, ainda parecendo bastante tímido com a situação, e Amelie apenas se recostou no primeiro lugar vago que viu, e voltou a se concentrar nos cubos mágicos.

— Então, vamos indo, tenho que acompanhar a fragata de Briane antes que eles passem pela dobra para Keret, — Henry disse, ligando a nave. Ninguém viu como saímos da garagem. A nave simplesmente apareceu já em órbita do anel externo da academia e seguiu viagem como se tudo fosse simples assim.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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