DCC – Capítulo 117

História Contemporânea

 

— Como você não sabia que eles viriam? — Uma voz intrigada pôde ser ouvida do lado de fora. Logo em seguida o sistema de segurança admitiu a entrada de dois convidados.

— Eles não me avisaram que estavam vindo. Eu já tinha saído de licença há uns dias para poder entrar em Keret antes do período de segurança do ano novo, — uma voz grave e conhecida veio da porta.

Era o professor Theo Yuri, acompanhado de Cásira.

— Oi! O que estão fazendo aqui? — eu perguntei ligeiramente surpresa, me levantando para cumprimentá-los. Henry seguiu do meu lado.

— Recebemos a convocação do imperador para uma reunião após o festival de ano novo, dizendo que queria aproveitar a estadia dos dois aqui em Keret, — o professor explicou brevemente. — Nos encontramos na entrada quando estávamos chegando.

— O que estavam pensando ao vir aqui? O jovem mestre está extremamente furioso com os dois por algum motivo, e eu não duvidaria nada que ele tentasse vingança, mesmo isso indo contra o código imperial, — Cásira reclamou com a gente.

— Calma, — Henry disse levantando as duas mãos, gesticulando suavemente, e começou a explicar, — Existem algumas coisas importantes que precisamos resolver, além de outras que podem ter aparecido em cena e seria importante discutir.

— Eu não sei o que pode ser mais importante para ser resolvido do que a segurança de vocês dois. Mesmo que tenhamos que protegê-los dos nossos próprios problemas internos. — Cásira disse colocando as mãos nos quadris e assumindo uma postura eu juro que me assustaria se eu fosse um pouco menos ousada.

— Eu pensei que você sempre abaixasse a cabeça pra tudo o que Marco diz… — eu deixei escapar para Cásira.

— É claro que eu tenho que baixar a cabeça para tudo o que ele diz! — ela disse exasperada levantando as mãos como se fosse óbvio. — Eu não vou deliberadamente procurar problemas que possam afetar a mim ou a minha empresa! Ser uma mulher de sucesso envolve muito mais do que essas curvas bonitas! Eu sempre preciso saber a hora certa de recuar e a hora certa de atacar.

Eu senti minha boca abrir com a surpresa pela resposta dela. Apesar de eu sempre ter me sentido ligeiramente intimidada pela beleza de Cásira, eu ainda gostava de me enganar pensando nela como alguém submissa. Eu nunca tinha a visto se comportar de forma tão incisiva. Acho que Professor Theo também ficou ligeiramente chocado com a repentina falta de compostura de Cásira, pois ele virou o rosto, ligeiramente corado, como se estivesse em uma situação embaraçosa.

— Eu não acho que eu tenha que baixar minha cabeça para Marco. Eu não tenho porque temer ele ou a birra dele! — eu disse mal-humorada.

Cásira suspirou profundamente algumas vezes, passou as mãos na cascata de cabelos extremamente lisos, e recompôs a postura antes de voltar a falar:

— Me desculpe pela minha falta de decoro, Alésia, mas é minha obrigação como parte desse grupo me preocupar com vocês. E uma potencial ameaça de virarmos uma oposição direta ao império por conta de picuinhas pessoais simplesmente me tira do sério.

— Bom… a culpa não é minha. E mesmo que ele queira ir contra mim, ele não pode.

Cásira, professor Theo e mesmo Henry me olharam surpresos. Cásira mesmo piscou várias vezes como se não tivesse entendido o que eu havia dito.

— O que?

— Eu só estou dizendo… — eu pensei em uma forma de explicar a situação sem dar informações sobre o acordo que eu tinha com Marco — … que eu não sou simplesmente arrogante demais para tentar encarar um adversário que eu não esteja a altura sem ter certeza que eu esteja preparada. Marco não tentará nada contra mim.

— Como pode ter tanta certeza? — Professor Theo perguntou enrugando as sobrancelhas enquanto me encarava com intensidade.

— Eu apenas tenho certeza. — Eu devolvi o olhar dele. Professor Theo era um excelente artista mágico. Ele poderia sentir que a minha certeza era baseada em um motivo, mesmo que eu não dissesse isso verbalmente. Assim que ele viu a resolução em meus olhos, a expressão dele relaxou e ele suspirou um pouco mais calmo do que Cásira.

— É bom você está certa, por que eu dediquei muito empenho em meus negócios para ter que virar indigente do império. — Cásira disse mal-humorada. Mesmo a expressão brava dela era extremamente bonita e madura. — De qualquer forma, já que já estão aqui. O que pretendem?

— Vamos sentar! — Henry disse indicando a mesa onde o Senhor e a Senhora Sruar estavam sentados calmamente como se não tivessem parte na conversa até agora. — Eu tenho algumas coisas que gostaria de adiantar que passassem aos demais membros do nosso grupo.

— O que seria? — A senhora Sruar perguntou surpresa enquanto todos voltávamos para a mesa e nos acomodávamos.

— Cásira já está a par de que Alésia e eu topamos casualmente com uma singularidade incomum em crisálidas. — Henry começou com o tom sério — Depois de várias investigações, me deparei com algo que possa ser uma pista de que Dhar esteja envolvido em interações ilícitas dentro do império novamente.

A reação de todos foi bem mais pesada do que eu esperava. A senhora Sruar e Cásira cobriram a boca com as duas mãos, enquanto deixavam escapar um gemido de apreensão e choque. O Professor Theo sequer conseguiu reagir, petrificando no lugar com uma careta enrugada e o Senhor Sruar quase caiu da cadeira.

— O-o-o que… o que te faz pensar que D-Dhar está de volta? — O Sr. Sruar perguntou trêmulo.

— Eu ainda não posso dizer com certeza — Henry disse sério, já antecipando o choque de todos, — mas eu topei com algumas pistas que podem indicar que ele está em ativa novamente. Quando resolvermos o que viemos aqui resolver, talvez eu tenha mais pistas. Mas por enquanto, estou tão no escuro quanto vocês.

Eu vi a Sra. Sruar levar uma das mãos trêmulas até o marido e segurar a mão dele com força. Cásira fez algum esforço para recuperar a postura elegante, mas falhando completamente em esconder o quão assustada estava, e o professor Theo sequer conseguiu se mover um milímetro.

— Esse Dhar é tão assustador? — eu não resisti em perguntar.

Henry me olhou com uma expressão complexa como se não soubesse como responder minha pergunta, mas foi Cásira quem limpou a garganta e disse mais séria do que eu jamais tinha a visto:

— Você com certeza não entende, porque é muito jovem. Entre a maioria das raças Brards, já devem ter passado até duas, talvez três gerações desde que a Grande Guerra Xenofóbica aconteceu. Para nós, Jomons, todos que vivemos presenciamos a guerra. Você talvez tenha visto em algum lugar que a guerra foi causada pela resistência Jomon à entrada de vários planetas Brards no Conglomerado Imperial. Assim, vários pequenos conflitos começaram a pipocar em diversos lugares causando medo e pânico às populações.

Cásira respirou fundo, como se estivesse lembrando da própria experiência, o que me ocorreu que deveria ser bem provável, já que como ela bem ressaltou, foi na época quando Henry e ela estavam na academia, que a guerra estava no auge. Então ela continuou:

— Ataques e mais ataques terroristas começaram a fazer parte da rotina diária. Sequestros… desaparecimentos… ameaças. Tanto Jomons quanto Brards perderam muito. Acontece que descobrimos que tudo não passava de uma manipulação barata de um único grupo terrorista. Esse grupo sozinho instigou Brards contra Jomons e Jomons contra Brards até que a semente do ódio estivesse plantada fundo o suficiente para que ambos os lados passassem a se digladiar sozinhos.

— Mas isso é horrível! — eu deixei escapar.

— Felizmente, um jovem inventor gênio apareceu com uma ciência que revolucionou a medicina forense, e permitiu que muitos mal entendidos fossem dissolvidos. — Professor Theo tomou a vez e continuou a explicar. — Enquanto as investigações progrediam, cada vez mais o esquema desse único grupo terrorista começou a ficar exposto. Em nome da paz, o antigo imperador, Gabriel Gionardi, sacrificou todo o poder para banir Dhar e deixou um herdeiro com a missão de unificar as raças em prol de um bem maior.

— Então quer dizer que… — eu comecei a sentir as palavras deles sacudindo a minha alma quando eu lembrei do dia, vários anos atrás, quando as memórias de Nádia ainda me atormentavam, e eu acabei começando uma briga no meio da aula de História Contemporânea, — esse grupo terrorista…

— Esse grupo foi criado e controlado por Dhar, — Henry disse.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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