DCC – Capítulo 138

Por dentro

 

Eu não quis acreditar no que Marco tinha ordenado. Muito menos que Henry iria cumprir sem hesitação. Pela primeira vez em tempos, eu não sabia como reagir, e simplesmente recuei assustada. Precisamente um minuto depois de Marco ter dado a ordem e eu não ter permitido a remoção da relíquia, Henry pegou um bisturi do próprio kit e o atravessou no braço.

— Ahhh! — eu gritei nervosa. — Por quê?

O sangue escuro de Henry começou a gotejar pelo braço ferido e se misturar ao meu no chão.

— Você pode continuar aí resistindo. Eu não me importo, — Marco disse como se estivesse entediado, com pesadas olheiras esperando apenas resolver esse problema com a gente para ir dormir. — Quero ver até onde você aguenta ver seu querido Henry se mutilar.

— Por que está fazendo isso? — eu perguntei desesperada.

— Sinceramente? Eu cansei! Uma coisa que eu aprendi é que humanos não costumam ser muito obedientes sem motivações, por mais que a gente aponte o caminho certo, — ele disse se remexendo na poltrona destruída e escorando a cabeça para trás, os olhos semicerrados como se não tivesse mais força sequer para mantê-los abertos. — Eu estou muito cansado para pensar em uma coação melhor, então façam uso dessa por enquanto, eu ainda posso esperar você se decidir.

Nesse meio tempo, outro minuto se passou, e Henry retirou o bisturi cravado no próprio braço e o enterrou implacavelmente de novo na pele.

— Pare! — eu gritei para Henry. Mas ele parecia completamente alheio a mim. Eu não conseguia sentir a mente dele! Eu apenas sabia que ele estava na minha frente, perdido de alguma forma, sofrendo tanto quanto eu. — Eu vou acabar com a sua raça seu filho da puta cretino!

— Henry… — Marco disse simplesmente. Henry se moveu ficando bem entre Marco e eu. Henry estava realmente obedecendo e protegendo Marco. — Se você se atrever a dar um passo sequer na minha direção, Henry vai pessoalmente quebrar os seus dois braços como pagamento. Se bem que eu poderia mandar ele fazer isso agora ao invés de esperar qualquer motivo a mais…

Mais outro minuto. Pela terceira vez, Henry cravou o próprio braço com o bisturi. Eu podia ver os músculos do meu marido tremendo em resposta à dor por baixo do sangue que jorrava. Eu não podia lutar contra Henry. E por mais que eu achasse que pudesse ou não me defender, Henry iria se sentir horrível se tivesse que me ferir, mesmo contra a própria vontade.

— Tudo bem… tudo bem…

Eu senti lágrimas começarem a rolar. Eu estava tão triste que a dor nem sequer incomodava mais. Nunca tinha me sentido tão fraca, nem mesmo no tempo que eu dependia de Henry para tudo. Henry tentou mais uma vez remover a Relíquia da Sabedoria, e desde que eu desse consentimento, ela iria sair naturalmente sozinha do meu braço para o próximo hospedeiro.

Mas assim que eu a retirei, a Relíquia da Sabedoria se contraiu em uma esfera, como se fosse metal líquido e Henry a guardou dentro de uma crisálida para depois entregá-la para Marco. Meus olhos insistiam em procurar pelos de Henry, mas ele apenas olhava para o que estava fazendo, completamente fora de si. Depois daquela vitória fácil contra Kanis, e de eu ter conseguido proteger Briane. De eu ter Amelie de volta… Aquelas coisas pareciam ter acontecido há tanto tempo. Onde aquela felicidade tinha ido parar? Agora eu estava presa em uma salinha qualquer e o meu mundo tinha sido completamente transformado antes do amanhecer.

Henry começou a trabalhar em fechar a ferida. Ele foi ágil e eficiente. Em menos de dez minutos eu estava quase curada, no máximo, eu precisaria de alguns dias para repor naturalmente o sangue perdido. Ele me colocou de pé e esticou a mão para Marco, esperando receber a crisálida onde tinha guardado a sabedoria de volta.

— Henry? Henry… fala comigo… — eu insisti, segurando o rosto dele entre as minhas mãos. Ele permaneceu imóvel como se nem estivesse me vendo ou me sentindo.

Então, Henry removeu a Relíquia de dentro da crisálida e sem tocar na esfera platinada que era a Sabedoria, começou a desfazê-la como se fosse um fio, e direcioná-la aos poucos pelo último rasgo em minha pele que faltava ser fechado. Eu conseguia sentir como se fosse uma serpente percorrendo o meu corpo de fora para dentro, sem fim, como uma contínua perfuração de várias agulhas insuportáveis.

Assim que o final do fio tinha entrado no meu corpo, Henry finalmente fechou a ferida.

— O que? Já terminou? — Marco disse distraído da poltrona quebrada. — Bom garoto. Aproveite e arrume essa bagunça também.

Henry finalmente mostrou algum sinal de vida de novo, e com alguns acenos de mãos, tudo o que estava destruído na sala voltou ao seu estado original. Incluindo meu vestido rasgado e o autômato destruído, e todos os vestígios de sangue derramado tinham desaparecido.

— O que você fez com ele? — eu perguntei para Marco.

— Henry, espere do lado de fora da sala, — Marco disse com a voz arrastada. Henry apenas se moveu com os passos firmes para longe de mim e saiu da sala sem se demorar mais um segundo sequer para obedecer. — Eu criei uma Marionete da Alma especialmente para acorrentar ele. — Imediatamente após Marco falar, eu já sabia o que era. De alguma forma estranha eu sentia muito mais a Sabedoria agora do que antes. Eu não tinha mais forças para lutar, ou brigar ou resistir. Eu só queria entender.

— Por quê?

— Por que era necessário.

Eu senti meus joelhos cederem de novo, enquanto minhas costas escorregavam pela parede até eu chegar no chão.

— Devolva-o… Não é justo que você faça isso… — por mais ódio que eu sentisse nesse momento, eu não consegui evitar que minha voz tivesse um tom suplicante.

— Por mais que eu adorasse ficar e continuar esse ping-pong frívolo com você, nós temos uma reunião para ir. O que fará quando sair daqui não é da minha conta. Pode ficar, pode partir… que se dane. Você sabe por que não tem o direito de reclamar pelo que eu fiz, — Marco disse enquanto bocejava e abria a porta para dar de cara com Henry obedientemente parado do lado de fora. — Eu vou indo para o segundo salão na frente. Eu… eu lhes dou 5 minutos para se despedirem.

Quando Marco disse aquelas palavras, foi como se o semblante vazio de Henry fosse dolorosamente arrancado. Henry lançou a Marco um olhar de puro ódio, enquanto os dois se cruzaram, mesmo Marco fazendo pouco caso, até eu fiquei arrepiada com aquele olhar. Mas Henry não desperdiçou o tempo com Marco. Ele correu para mim, me abraçando com força.

— Eu sinto muito, muito mesmo… — ele disse com o coração partido.

— Me diga que você é capaz de se libertar! — eu pedi com o rosto abafado no ombro dele.

— Me perdoe… Enquanto você estava aqui, eu estava com o verdadeiro Marco em outra sala. Ele tinha te ferido… eu tive que fazer um acordo com ele. Não acho que vá ser fácil, ou sequer possível me libertar agora.

— Por que você fez isso? — eu perguntei sentindo minha determinação quebrar por dentro. — Você se sacrificou de novo por mim… eu podia…

— Eu não podia deixar você nas mãos dele… — Henry me interrompeu.

— Mas eu poderia ter me livrado sozinha! O que eu faço agora? Agora é você quem está nas mãos dele! Temos que descobrir uma forma. Ele não pode…

— Não! — Henry me cortou imediatamente. Ele me afastou enquanto me segurava pelos ombros para poder olhar bem para mim. — Me escute! Você tem que partir. Ele não vai perder a oportunidade de tentar te controlar também. Enquanto você estiver aqui, ele sequer vai exitar em me usar como barganha para te manipular! — ele atestou mostrando o braço ferido para mim.

— Mas o que eu faço agora? — eu chorei voltando minha cabeça para o ombro dele. Ele sequer sabia a maior parte dos segredos de hoje.

Eu poderia arriscar contar a ele, e quem sabe, com essa informação nova sobre as Relíquias, ele poderia usar o poder para se libertar. Mas também se Marco havia usado essa Marionete de Almas justamente quando ele sabia que Henry poderia despertar um poder insano, então ele deveria ter preparado aquela arte o suficiente para que tivesse força para contornar isso. Então, era um risco desnecessário.

Eu me apertei mais ainda contra Henry, esperando que esse tempo nunca acabasse. Eu poderia muito bem teimar em permanecer ao lado dele, mas então nós dois estaríamos sujeitos à vontade de Marco. Eu sabia qual era a escolha lógica que eu deveria fazer, mas eu não queria aceitar.

— Só prometa para mim, — Henry disse enquanto me acolhia, — que não vai tentar nada desnecessário. Você vai se cuidar e definitivamente permanecer longe do alcance de Marco até que eu possa voltar a encontrá-la. Vá para longe e se proteja.

Henry falava como se cada palavra lhe custasse anos de vida. Nesse momento a minha mente estava uma bagunça e eu não conseguia pensar em como passar por isso. Mas Henry continuou firme ao meu lado. Quando os cinco minutos estavam perto de acabar, ele me beijou longamente, enquanto me apertava com força.

— Eu não sou mais uma fracote chorona… — eu tentei argumentar. — Mesmo que eu me machuque, eu posso salvar a mim mesma…

— Me escute, não se arrisque. Eu não quero ver você sofrendo. Por isso eu definitivamente vou voltar para você, — ele disse voltando a me olhar nos olhos com a expressão mais séria que eu já o tinha visto usar na vida.

Henry parecia bem mais velho com o cabelo curto e a barba, e ainda mais com aquela expressão estressada. Eu só poderia imaginar o quanto ele deveria estar sofrendo. Quando o tempo acabou, sem aviso prévio, apenas a reação de Henry me despertou de meus lamentos. A expressão dele voltou a se tornar vazia, ele se levantou e saiu da sala sem dizer mais nada.

Ele estava indo para a reunião.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

6 Comentários

  1. Meu Deus!!! Eu nunca chorei tanto com um fim de romance quanto eu chorei nesse !!!😢😭😭😭😭
    Agora eu realmente quero que o Marco morra da pior forma possível 😳😡😠👹!!!!!!
    Valeu pelo capítulo Nega Fulor 😀😊😁

  2. Apesar de tudo que digam, ele parece ter feito a “melhor escolha”, pena que parece que não percebem isso…

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