DCC – Capítulo 142

Pai

 

Isaac Gionardi:


Eu já estava andando de um lado para o outro há um bom tempo. Estava exigindo todo meu autocontrole apenas para não acabar com as minhas unhas com os dentes. Já haviam se passado vários dias que pai Marco estava no quarto, e não saia por nada. Além disso, ele tinha até mesmo comparecido na reunião com um autômato, sendo que ele sempre fazia questão de desligar todos assim que o festival acabava.

A parte mais absurda é que pai Henry tinha ficado de boa ao lado do pai Marco, como se nada estivesse errado depois que eles saíram para aquela conversa suspeita, e ainda por cima concordou em viver no palácio. Sozinho. Porque Alésia tinha partido, e deixado Amelie para trás com ele. Ela sequer tinha respondido as minhas mensagens até agora. Fora o fato de todo mundo saber que alguma coisa muito errada tinha acontecido, ninguém sabia o quê.

Pai Henry nunca abandonaria Alésia dessa forma… eu acho. E ele ainda por cima não queria me receber também. Eu me preocupava mais ainda por causa das ondas de raiva que subiam do quarto dele. Aquilo poderia muito bem matar alguém envenenado do tanto de ódio que ele estava destilando sozinho trancado naquele quarto.

Finalmente o barulho da porta sendo destrancada tinha vindo da entrada da suíte de pai Marco, e corri para lá. Ele estava sentado na cama com o corpo dobrado, como se estivesse sentindo muita dor.

— Pai? O que houve? Qual o problema?

— É só uma tremenda dor de cabeça, — ele disse com a voz fraca, — mas já está passando.

— Tem certeza? Não seria melhor…

— Está tudo bem! — pai Marco insistiu, colocando um pouco mais de força ao falar. — Eu não teria aberto a porta se ainda não estivesse bem.

— Certo… então pode me explicar o que está acontecendo? — eu pedi uma resposta.

Ele me olhou por um tempo, com a expressão cansada e abatida, depois suspirou profundamente antes de responder:

— Quando foi que você ficou tão grande?

— Quê? — o comentário completamente fora de assunto dele me deixou confuso.

— Você cresceu bastante… sinto muito, eu não tinha reparado, — ele começou a explicar. — Você até mesmo já consegue dominar alguma coisa de magia! Foi pra isso que tinha partido do palácio?

Pai Marco nunca tinha deixado a desejar como meu tutor. Ele sempre tinha me dado atenção e sempre tinha estado comigo seja qual for o momento que eu precisasse. Mesmo que eu estivesse apenas fazendo birra. Eu entendia como ele era, e sabia como ele se sentia, mas ele nunca tinha sido do tipo que comentava. Eu não precisava de magia nenhuma para conseguir olhar no fundo dos olhos dele e perceber que alguma coisa estava errada.

— Pode, por favor, me contar o que está acontecendo? — eu insisti, me sentando ao lado dele.

Pai Marco se aproximou, encostou o rosto no meu ombro e suspirou profundamente. Agora eu definitivamente estava para entrar em pânico.

— Eu só estou tão cansado… Eu tenho decisões para tomar, e às vezes algumas delas tem que ser impostas. Eu passei todo esse tempo tendo que ser o monstro.

— Se arrepende? — Eu não sabia mais o que dizer. Mas o repentino desabafo dele me deixou abismado.

— Não, — ele respondeu sem hesitar. — Eu fiz o que tinha que fazer. Teria sido pior se eu não tivesse tomado o caminho que escolhi… agora os únicos que têm que sofrer somos nós.

— Então valeu a pena? — Pela primeira vez eu entendi que ele realmente estava falando dos problemas com pai Henry. Pai Marco nunca tinha sido condescendente com ninguém, nem consigo mesmo, então eu sabia que ele se preocupava de verdade com pai Henry.

— Eu não faço a mínima ideia… — ele sorriu com o rosto ainda escorado em meu ombro. Não era uma risada de alegria ou de graça. Parecia que ele tinha desistido de lutar contra as ironias do mundo. — Mas eu vou assumir a responsabilidade por tudo isso. Olhe só para o grande filho que eu ganhei seguindo esse caminho!

— Então o que está acontecendo com pai Henry? — eu perguntei diretamente. Tudo isso estava me deixando pirado. — Alésia não o deixaria para trás de qualquer jeito. Principalmente com Amelie. Eu não entendo o que está acontecendo!

— Faz parecer que você conhece bem aquela menina… — ele disse, levantando o rosto e me encarando pela primeira vez.

— Por coincidência, estivemos juntos durante os últimos meses. Ela se tornou minha melhor amiga. Eu me preocupo com ela e com pai Henry. Afinal, eles são minha família também!

— Entendo… coincidência… — Ele não parecia estar duvidando de mim, mas de alguma forma, eu sentia que ele não tinha acreditado que tinha de fato sido obra do acaso. — Bom, isso não deveria me surpreender. Mesmo que você não saiba, vocês dois tem o destino amarrado. Agora eu realmente lhe devo uma explicação… Como você sabe, Henry e Alésia guardam um poder inimaginável. Nem se compara com o legado dos imperadores que é passado de geração em geração para o imperador vigente ter poder suficiente para exercer o posto.

— Sim, eu sei…

— Apesar disso, tudo o que eu posso lhe contar é que algumas medidas devem ser tomadas a todo custo para proteger seu pai. Mesmo contra a vontade dele. Um grande mal está vindo, e se não estivermos preparados, cada alma viva nesse universo vai morrer. E mesmo que eu tenha que entrar para a história como o vilão, eu não vou hesitar em fazer o que precisa ser feito.

Eu me arrepiei com as palavras dele. Pai Marco não era do tipo que exagerava, então eu não me atrevi a subestimar as palavras dele. Por isso mesmo, uma semente de medo e preocupação cresceu em mim.

Alésia Latrell:


O barulho da campainha ressoou alto assim que eu toquei na porta.

— Quem é? — Uma voz feminina foi projetada pelo sistema da casa.

Eu estranhei. Será que eu tinha batido na porta errada? Não, não era possível, era esse endereço mesmo. De repente, me senti nervosa. O que eu deveria falar? Como eu deveria me apresentar? Essa pessoa sabia sobre mim? Se sim, o quanto sabia?

— Ahh… eu gostaria de falar com…

Antes mesmo que eu pudesse terminar de falar, eu ouvi os passos apressados correndo pelo lado de dentro, até que um homem abriu a porta completamente sem fôlego, com os cabelos desgrenhados já mostrando os primeiros fios brancos.

— Alésia! — ele disse chocado, com uma mistura de surpresa e alegria, a qual ele não tinha ideia como demonstrar.

— Oi pai… — eu o cumprimentei calmamente.

Daril me olhou de cima a baixo com um enorme sorriso se abrindo. Ele me puxou para um abraço apertado, do qual ele logo se arrependeu vagamente depois de ter vários calafrios. O corpo dos Brards era bem mais sensível que os dos Jomons, então ele sentiria praticamente na hora o calor sendo sugado de seu corpo ao me tocar, coisa que eu ainda conseguia mascarar entre os Jomons. Mas, mesmo assim, ele não me soltou. Me abraçou com mais força ainda.

— Caramba! Minha filha! — ele começou a falar animado — Eu não sei se estou mais alegre por te ver, ou com raiva por ter demorado tantos anos!

— Não foi tanto tempo assim… — eu disse sem jeito.

— Não foi tanto tempo? Foram quase cinco anos! Eu apenas mantive a calma achando que estava tudo bem, por que Henry Siever realmente é bem perseguido pelos tabloides de notícias. Diziam que ele andava acompanhado de uma mulher, eu tive esperanças que tivessem confundido você.

— Me desculpe pai, eu realmente deveria ter vindo mais vezes… — eu disse baixando a cabeça.

Em Sátie, o sistema de translação ainda era natural. Como fazia pouco tempo que o planeta tinha sido admitido no império, ainda não tinha sido reformado para se adequar aos padrões imperiais. Mesmo o idioma oficial por aqui era algo raro. Apesar de ter se passado “apenas” dois anos imperiais desde a minha última visita, na contagem de tempo local, já haviam se passado mais de quatro anos e meio. Isso era realmente bastante tempo, e isso considerando que desse tempo todo, eu estive em liberdade por pouco menos de um ano segundo o calendário de Sátie. De qualquer forma, eu não iria contar pra ele que tinha ficado presa em uma arena de lutas clandestinas durante o restante do tempo.

— Falando no diabo, onde está ele? Não veio com você? — Daril perguntou olhando pela porta para ver se Henry estava por acaso esperando do lado de fora.

— Henry ficou na capital por conta de alguns problemas, então eu vim só.

— Capital? Por capital, você quer dizer… Keret? O planeta Keret? Ainda está morando por lá? — ele perguntou sinceramente curioso.

— Algo assim, — eu sorri sem jeito.

Antes de mandar as meninas de volta para a academia, eu tinha dado para elas em segredo um dos meus consoles reservas, configurado especialmente para elas. Por mais que eu tivesse posse da Sabedoria, eu era apenas uma. E eu não iria conseguir ficar de olho em tudo o que eu precisava. Por mais que as inteligências artificiais fossem extremamente capacitadas, ainda hoje, nada nunca tinha sido capaz de se equiparar a um humano capaz.

Então, eu tinha feito uma despedida breve com elas e voltado para Sátie. Meu pai era o único do meu planeta natal que sabia que eu ainda estava viva. Olhando bem para ele, eu pude ver o impacto desses poucos anos. Ele estava envelhecendo. Diferente de mim e de todas as pessoas à minha volta, que sempre pareciam os mesmos, ele estava ali, pouco a pouco sendo consumido pela mortalidade.

Foi aí que meu sorriso quebrou. Meus lábios tremiam com a força de sustentar uma expressão que eu sabia que era patética demais para ser convincente, enquanto algumas lágrimas escorreram dos meus olhos. Eu não tinha reparado até aquele momento. Talvez de novo, eu tivesse usado a minha capacidade de usar Obliquação para esconder esses sentimentos de mim mesma. Mas eu estava com tanta, tanta saudades de casa.

— Pronto, minha menina… — Daril me abraçou com força de novo, sem exitar pelo frio, e eu chorei em silêncio nos braços dele. — Eu senti muito a sua falta. Venha, sente-se aqui…

Ele me acomodou no sofá, e foi até a cozinha preparar algumas bebidas para nós. Quando uma voz veio do andar de cima.

— Quem era, Daril? — a mulher que tinha falado pelo sistema perguntou.

— Uma parente minha. Veio me visitar, — ele respondeu por alto, enquanto trazia duas xícaras de café quente e se sentava ao meu lado. — Se não quiser, não precisa descer! — ele acrescentou, piscando para mim.

— Pelo visto, o senhor seguiu em frente… — eu comentei feliz por ele.

— Um pouco talvez… Estamos nos conhecendo, — Daril comentou satisfeito. — Mas me conte de você! O que tem feito?

— Acho que… tenho aprendido muito. O universo é tão vasto. É muito interessante ver tantas coisas e pessoas diferentes.

— De alguma forma, parece que você sempre foi predestinada a essa vida… — Daril comentou bebericando o café.

— Por que diz isso?

— Você não é facilmente impressionável. Sabe, quando Siever apareceu para mim a primeira vez, eu só não surtei mais por que não queria que você se sentisse mais nervosa do que deveria estar. Mas, no fim, fui eu quem precisou tomar alguns calmantes depois. Você lidou com tudo de forma tão suave, como se fosse normal ser levada para outro planeta, encontrar o imperador pessoalmente ou sequer receber Henry Siever em casa. Enquanto eu subia pelas paredes preocupado com o quão importante essas pessoas eram, você simplesmente os tratou como se fossem apenas… pessoas!

— Realmente… — Eu nunca tinha enxergado nada muito além de Henry e Marco, além do que eles realmente eram. — Henry às vezes comentava que eu tinha muito pouco senso comum.

— Ué, você sabe o que dizem… senso comum é apenas uma coleção de preconceitos que acumulamos durante a vida.

Eu ri. Eu gostava muito do meu pai. Mesmo depois de tantos anos separados, ainda foi tão natural conversar com ele, como se tivéssemos nos visto há poucos dias. Eu estava prestes a continuar quando a campainha tocou de novo.

— Estranho, mais uma visita. Espere aqui enquanto eu dispenso seja lá quem for… — Daril comentou enquanto se levantava com um sorriso. Eu concordei com a cabeça enquanto bebia meu café. Foi só então que por acaso eu senti meu estômago cair de um precipício.

Que burrice a minha! Eu tinha tanta certeza que ninguém poderia me achar que acabei vindo sem nenhuma preocupação. Sequer pensei em ficar alerta com minha Onisciência.

— Pai, espere! — Mas Daril já tinha aberto a porta. Quem estava lá, era simplesmente Mikal Stanislav. Ele tinha me seguido até aqui.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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