DCC – Capítulo 143

O melhor espião

 

Um dos principais motivos pelo qual eu tinha me especializado na luta de facas no meu tempo de arena era porque elas eram fáceis de manobrar e eram encontradas em praticamente qualquer lugar. Eu poderia carregar tantas quantas eu conseguisse e com meus poderes, poderia muito bem transformar uma luta de curto alcance para uma de longo.

E a vantagem de estar em uma casa pequena como a do meu pai é que eu já tinha por hábito passado os olhos em todas as facas da cozinha que estavam à mostra. Fazia um bom tempo que eu não tinha que levantar o braço para uma luta, mas mesmo assim, eu treinava sempre que podia, apenas para manter a paz de espírito.

Em menos de um segundo, eu já tinha saltado do sofá, passado a mão em tantas facas quantas pude, e puxado Daril para trás de mim, enquanto as lâminas voavam para formar uma barreira ofensiva ao redor de Mikal.

— Oh… — ele disse surpreso com a recepção nada amistosa. Porém, definitivamente não parecia assustado.

— Diga a que veio! — eu ordenei entredentes.

— E eu que pensei que você fosse apenas um brinquedinho para distrair a atenção das mídias… — Mikal comentou enquanto tentava abanar uma das facas para o lado como se fosse um inseto. — Eu vim procurar Henry. Onde ele está?

Qual o problema desse cara?

— Como pode ver, Henry não está aqui. Como chegou até aqui tão rápido? — eu insisti.

— E quando ele vai aparecer? Não creio que ele possa ter deixado um brinquedo tão bom sozinho por aqui… — ele continuou com um tom preguiçoso de quem estava cansado demais para discutir qualquer coisa além do que quisesse.

Tá aí que eu detestava ser testada! Eu pressionei as facas na direção dele deixando-as a milímetros de distância de fatiá-lo em pedacinhos.

— Como foi que me seguiu? — eu insisti nas perguntas, enquanto ele insistia naquela aparência de quem tinha que lidar com uma fila enorme, mas estava completamente sem saco.

— Não aponte essas coisas perigosas para mim… vai estragar a minha roupa! — disse ele, chateado, tentando espanar as facas de novo. — Você parece ter algum domínio de Onisciência… você não mataria alguém, então pare de blefar…

— Se eu fosse você, não apostaria minhas cartas nisso! — eu ameacei levitando uma das facas até ficar perfeitamente encaixada na garganta dele.

— Oh… — ele exclamou, mais uma vez impressionado, mas ainda não parecia com medo. — Você é realmente um brinquedinho interessante…

Normalmente, o código moral dos oniscientes era de que a pessoa não deveria cometer assassinatos. Mas, a essa altura da vida, eu já nem achava isso um “detalhe” relevante. Eu já tinha tirado a vida de Louie há alguns meses. E não apenas a vida, mas tinha destruído a própria alma, além de qualquer salvação. E depois de ter decidido que eu iria firmemente me colocar contra Marco, mais um ou menos um não fariam diferença no fim das contas. Eventualmente, eu acabaria na lista negra mesmo…

— De qualquer forma, Henry não está mesmo aqui? — ele continuou. — Arrrrg… e eu tive o trabalho de vir até aqui… Você sabe o quão cansativo foi? Que espécie de nave monstruosa é essa que aquele anormal inventou? Você sabe quantos parsecs são de Keret até aqui? E em vinte horas! Eu pensei que fosse morrer! Isso vai ser uma mancha no meu histórico…

— Você deveria saber onde ele está… Afinal, você não é o maior especialista em espionagem do império? — eu baixava as informações sobre ele freneticamente. Tinha sido um erro eu ter ignorado completamente a existência de Mikal só porque Henry tinha lidado com ele pessoalmente.

— Oh! — Mais uma vez ele exclamou impressionado. — Parece que eu estava te subestimando um pouco… — O sorriso dele era desconcertantemente empolgado e sincero.

— Bom, eu creio que já ouviu falar de Emil Siever, que cometeu esse erro uma vez.

— Mas é claro! Eu sempre tive a impressão de que os Siever minimizaram bastante o seu envolvimento, mas eu não achei que fosse para taaaaaanto. — Ele arrastou a sílaba como se estivesse dramatizando.

— O… o q-que está havendo aqui? — Finalmente Daril tinha se recuperado um pouco do susto e conseguiu perguntar. Ele olhava para as facas flutuando ao redor de Mikal e para minha pose defensiva sem entender nada. — Por que esse Jomon está aqui? O que vocês estão falando?

Eu me dei conta de que estava conversando com Mikal no idioma do império. Isso não era comumente falado em Sátie, daí ele estava completamente perdido no meio dessa situação.

— Eu peço perdão pela intromissão! — Mikal disse para meu pai. Ele parecia estar usando um tradutor universal. Obviamente que alguém do calibre dele que se deu ao disparate de viajar meia galáxia para seguir alguém teria um equipamento básico desses. Ao mesmo tempo em que falava, ele retirou uma caneta tradutora, que repetiu suas palavras no idioma de Daril. — Isso é tudo um mal-entendido, eu não estou aqui como ameaça. Apenas tinha algumas informações que pensei serem do interesse de Henry e pelo visto me enganei ao seguir a nave dele até aqui. Ahh… se fosse tão fácil botar as mãos naquele maldito, eu teria descoberto onde ele se escondeu durante os anos que ficou desaparecido…

Aquelas palavras me pegaram de surpresa. Eu não era uma Onisciente tão boa a ponto de ter certeza que ele não tramava nada, mas já me garantia o suficiente a ponto de não ser facilmente enganada.

— Você é o melhor espião do império e não sabe onde Henry está? — eu perguntei um pouco admirada.

— É… pelo visto não sou tão bom assim, não é? — ele lamentou, parecendo sinceramente chateado.

Cabisbaixo, ele deu um passo à frente. O que aquele maluco estava fazendo? Ele queria se matar? Ele estava jogando o próprio corpo contra as facas! Mas não houve sangue. Outro passo, e as lâminas entraram mais ainda, depois os cabos, e ele continuou andando até se largar na poltrona mais próxima da porta.

Aquele desgraçado… era por isso que ele sequer tinha me levado a sério. Que espécie de arte injusta era essa? Ele rapidamente percebeu a minha inquietação e respondeu:

— Eu sou um grande mestre de Onipresença. Não dá para acertar alguém como eu sem estar no mesmo nível. Eu conheço as leis e sei manobrar o espaço como se fosse origami. Afinal, eu não poderia ser um Stanislav se não fosse para tanto.

— Você é realmente um cara de pau! — eu disse, impressionada. Eu ainda mantive a minha guarda alta, mas pelo menos eu não sentia que ele fosse realmente fazer alguma coisa contra mim. Apesar da aparência desatenta e negligente, ambos sabíamos que suas ações foram medidas. Ele estava mostrando a própria força, mas ainda estava sondando o território com cuidado.

Nesse meio tempo, eu também estava compilando todas as informações que podia sobre ele através do console Sophia. Ele era um cara que lidava com informações. Então eu precisava delas para conseguir me nivelar a ele.

— Aaahhhh… — Mikal soltou um enorme bocejo enquanto se espreguiçava na poltrona. — Por que você está com a nave dele, menina? Você sabe onde eu posso encontrá-lo?

— Você deveria perguntar isso para o seu patrãozinho Marco… — eu comentei frustrada. O meu tom de voz completamente desrespeitoso em relação ao imperador fez ele levantar uma das sobrancelhas. — Afinal, você é quem espiona a mando dele e do Conselho Imperial.

Dessa vez, eu tinha dito alguma coisa que o abalou. Mikal ficou em pé de uma vez, me olhando com uma expressão séria.

— Como você sabe sobre o Conselho Imperial?

— Talvez você não seja mais o melhor espião do império… — eu retruquei. Depois de toda aquela conversa furada, eu finalmente tinha conseguido alguma coisa para contornar aquela situação.

Mikal me encarou sem entender meu ponto. E eu sorri de volta, me sentando no sofá na frente dele. Ele parecia ser um panaca de mente simples, mas na verdade, de acordo com as informações que eu tinha conseguido, ele era bastante objetivo e profissional. E acima de tudo: altamente detalhista em seus relatórios de missão. Eu precisava contornar isso.

Então, eu estendi a mão sobre a mesinha de centro da sala, e coloquei lá em cima o meu brasão dourado. Infelizmente nesse mundo, às vezes era preciso passar a carteirada. Um olhar de compreensão encheu a expressão de Mikal, seguido por um preenchido com incontáveis dúvidas.

— Você não deveria ter me seguido até aqui… e agora que seguiu, eu preciso que guarde segredo absoluto sobre esse lugar!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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