DCC – Capítulo 144

Deu certo enquanto deu

 

— Hohoho! — Mikal sorriu animado, voltando a se sentar na poltrona. — Eu realmente fui ultrapassado no meu próprio trabalho! Eu consegui algumas informações sobre você, sabe. Minha conclusão era que você deveria ser algum peão de Henry. Um brinquedo construído por ele para distrair a mídia, e também executar algumas manobras por ele. Mas, pelo visto eu errei feio… E pensar que esse brasão seria seu… Isso absolutamente não faz nenhum sentido! Mesmo que isso não seja falso, eu ainda vou precisar de uma explicação.

— Eu conversarei com você mais tarde, não aqui. Mas eu preciso de sua palavra que não vai passar nenhum relatório informando que me seguiu até aqui.

— Muito bem, então, estarei esperando na minha nave. Acabo de me dar conta que entramos ilegalmente neste planeta, então é possível que alguém…

— Não se preocupe quanto a isso, eu estou verificando em tempo real todas as movimentações daqui. A não ser que você fique batendo perna nas ruas, ninguém vai reparar na nossa presença.

— Você vai ter que explicar isso para mim também. — Ele sorriu para mim, realmente curioso com como eu estava fazendo essas coisas. Depois, ele ergueu de novo a caneta tradutora e falou para Daril: — Mais uma vez, perdoe-me a intromissão em sua casa. Deixarei que ela lhe forneça as devidas explicações. Até a próxima.

Dito isso, Mikal fez uma leve reverência de cortesia e desapareceu de onde estava. Daril inspirou profundamente, tentando manter a calma. Ele tinha conhecimento que esse tipo de habilidades existia. Principalmente considerando que Henry já tinha aparecido para ele algumas vezes dessa forma. Mas não era de se esperar que um Brard comum se acostumasse com as excentricidades mágicas dos Jomons.

Eu, porém, suspirei aliviada. Talvez Mikal realmente fosse um espião tão bom que nenhum onisciente fosse capaz de ler o que ele realmente sentia, mas apesar de toda a minha enorme reação, eu não senti nenhuma ameaça vindo dele. Se ele fosse mais normal e aparecesse como uma pessoa cuja mente funciona pelo bom senso, eu até mesmo poderia achar ele uma figura interessante. Eu inclusive lembrei que Henry não tinha necessariamente falado nada contra Mikal. Ele não esperaria nenhum segundo para me alertar que se tratava de uma pessoa ruim, se achasse isso. Henry tinha apenas assumido aquela postura defensiva que ele sempre tem quando qualquer antigo conhecido se aproximava.

Henry tinha desaprendido a confiar nas pessoas, e não gostava mais de se envolver verdadeiramente com ninguém. Eu podia entender o lado dele. Depois de tudo o que aconteceu entre ele, Marco, Nádia… além de Emil e Louie… fora a família nunca ter ficado ao lado dele. Parecia que cada pessoa importante na vida de Henry tinha feito alguma coisa horrível para magoá-lo.

Só de pensar dessa forma, eu senti meu coração apertado. Eu conseguia fechar os olhos e sentir o coração de Henry sofrendo enquanto ele estava preso naquele maldito palácio.

— Desculpa por isso, pai… — eu me desculpei também, me virando para ele que ainda estava parado no mesmo lugar com o olhar perdido na poltrona em que Mikal estava. — Pai?

— O que foi que aconteceu aqui? — ele finalmente conseguiu perguntar.

— Eu acabei ferrando tudo. Eu devia ter passado em alguns outros planetas antes de vir diretamente para cá. Eu confiei que não existia nenhuma outra nave capaz de acompanhar a velocidade da nossa nave, então ignorei completamente o fato de que basta que um piloto seja forte o suficiente em onipresença para acompanhar.

Eu enterrei a cabeça nas mãos e deixei meus dedos se entrelaçarem nos meus cabelos. Eu ainda era uma criança tola e inexperiente. Cada dia isso ficava mais evidente. Como eu poderia lutar contra o império dessa forma?

— Aquela pessoa descobriu o tal segredo sobre você? — ele perguntou um pouco preocupado, lembrando que podia se mexer.

— Quanto a isso, não. Eu apenas me preocupo que minhas origens passem a ser de conhecimento público. Apenas Henry e Marco sabem sobre Sátie. E mesmo assim, aquele palhaço já até tentou uma vez usar o nome seu, da mamãe e de Alan para me ameaçar.

— Q-quem? Henry? Por isso que você não anda mais com ele? — Daril perguntou nervoso.

Eu ri do nervosismo dele. Ele realmente nunca tinha confiado em Henry. E agora eu podia sentir como ele tinha ficado nervoso e preocupado esse tempo todo. Eu me dei conta que as facas ainda estavam flutuando na porta de entrada, e as fiz voltarem à cozinha. Papai ficou olhando para aquilo cheio de dúvidas, mas tinha decidido perguntar sobre isso depois.

— O imperador… Marco. Uma vez ele disse que poderia facilmente usar vocês para me manipular. Eu fico pensando se não seria melhor evacuar vocês daqui…

— Minha nossa! Essa comoção toda é tão grave assim? É por isso que você parece que está tão ferida por dentro?

Eu sorri para ele. Daril era um bom pai. Ele podia não ter um pingo de habilidade com onisciência, mas ele tinha ótimos instintos paternos. Mas acho que a minha expressão abatida ainda não tinha se dissipado tanto quanto eu esperava, e isso ajudava bastante.

— Pai… eu me casei com Henry, — eu soltei de supetão.

Mas dessa vez a surpresa dele não pareceu tão grande. Eu imaginei que ele isso fosse distrair um pouco o assunto, mas não era uma novidade para ele.

— Ele me disse, quando vieram aqui visitar, que tinha se apaixonado por você. Ele falava como se tivesse medo que os sentimentos dele fossem te assustar, então ele lhe daria todo o tempo do mundo para que você o correspondesse por conta própria. Mesmo assim eu ainda achei meio estranho da parte dele.

— Então aquele idiota disse isso? — Eu ri para Daril e enquanto eu sorria, lágrimas começaram a escorrer de meus olhos ao mesmo tempo que sentia que meu peito iria rasgar ao meio de tristeza. Eu precisei usar minhas mãos para me abraçar e me manter inteira, porque parecia que eu ia partir ao meio a qualquer momento.

— O que aconteceu, meu bem? Eu não posso ajudar sem entender por que tanto sofrimento!

Então, omitindo alguns porquês, eu narrei para ele o que tinha acontecido. Como Marco tinha prendido Henry por estarmos juntos e eu não pude fazer nada a não ser aceitar. Daril escutou tudo calmamente. Ele percebeu que haviam detalhes que eu não contei, mas entendeu meus motivos e não fez perguntas.

— Sabe, sua mãe apareceu aqui há um tempo. Ela ainda é a mesma pessoa rígida e objetiva que sempre foi. Mas ela confessou que sentia falta de ter você e seu irmão em casa. Chegou até a confessar que se arrependia de não ter aproveitado mais o tempo com você. Parece que às vezes algumas pessoas não sabem aproveitar o tempo que passam ao lado dos entes queridos. Todos se enchem de preocupações sobre o que vai dar errado, ou o que não tem sentido… Eu, por exemplo, nunca tinha pensado que o meu casamento com ela foi um erro. Deu certo por alguns anos maravilhosos, tivemos filhos lindos e pronto. Depois seguimos em frente em busca de algo novo que funcionasse melhor para nós. Mas nos tempos que estivemos juntos, sempre tivemos problemas. Alguns mais graves, outros mais simples…

Eu encarei Daril que tinha uma expressão de saudosismo no rosto enquanto olhava para algum momento perdido no passado, revirando suas memórias. Eu sempre adorava a forma como ele via as coisas.

— … e uma coisa que eu aprendi com certeza é que enquanto vocês tiverem determinação de resolver esses problemas. Vocês vão conseguir dar um jeito. Você sabe, eu to tentando manter a calma aqui e tal, mas estamos falando simplesmente de Henry Siever! Eu sempre pensei no que tinha de errado com o seu senso comum por nunca ter tido o mesmo nível de reação que eu… afinal… Henry Siever! E se Henry Siever disse que te ama, e você acredita nele, eu não acho que mesmo o imperador tenha poder suficiente para separar vocês dois.

Dessa vez eu continuei me apertando com força, mas para não cair de rir. Daril estava certo. Eu tinha que confiar que Henry não iria desistir, então eu também não poderia. Eu tinha que fazer minha parte, e sem me desesperar. Eu não podia cometer mais erros. Eu levantei, dei um beijo na testa do meu pai e disse:

— Obrigada. Eu estava precisando ouvir alguma coisa assim… eu vou atrás de Mikal. É melhor resolver esse problema logo, e então voltarei daqui a pouco.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

3 Comentários

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!