DCC – Capítulo 145

Informações para Henry

 

Mikal Stanislav:


Ao redor da praça, uma quantidade razoável de pessoas circulavam de um lado para o outro cuidando da própria vida. Todos Brards. Eu achava impressionante como eles pareciam tão diferentes uns dos outros mesmo sendo da mesma raça. A forma como se vestiam era diferente, a forma como se apressavam ou andavam devagar. Como alguns andavam cabisbaixos enquanto acompanhavam a macronet em tempo real pelo Link pessoal.

Algumas pessoas estavam simplesmente sentadas no meio da praça conversando enquanto davam gargalhadas! E não pareciam ser turistas! Como Jomon, eu não conseguia entender o propósito de alguém gastar um dia comum sentado numa praça. Principalmente os Brards. Afinal, eles não viviam tão pouco? Por que eles desperdiçavam o tempo de vida já escasso deles fazendo essas coisas sem sentido?

Sinceramente… achei fascinante.

Eu nunca tinha estado em um planeta Brard antes. Estive em centenas de lugares diferentes, mas nenhum deles foi um planeta Brard. Não aconteciam coisas significativas nesses planetas para necessitar da presença de alguém do meu calibre. E se acontecesse, provavelmente delegariam alguém de patente menor para cuidar do problema. Ainda mais em um planeta tão remoto como esse.

Eles sequer tinham o sistema de segurança planetário padrão do império ainda. Eu facilmente entrei ilegalmente aqui, e nenhuma delegação responsável teve a mínima capacidade de perceber isso. Mas não que esse planeta sequer precisasse de um sistema de segurança padrão… o que teria aqui para proteger, afinal? A tecnologia aqui ainda estava em processo de implantação e ainda levaria alguns séculos para superar a fase de implementação para a sociedade atingir o padrão imperial.

Os planetas Jomons tinham um sistema de estabilidade bastante sólido, que levou milênios para ser aprimorado, onde cada pessoa tinha uma função a ser desempenhada para a manutenção do padrão. Assim, todos trabalhavam arduamente em suas funções para manter o nível de conforto e tecnologia para todos em seus respectivos planetas. Os planetas Brard ainda estavam se adaptando aos moldes do nosso estilo de vida, mas, do meu ponto de vista, eles ainda pareciam muito distantes. Pelo menos nesse planeta em específico.

Mesmo aquele Brard chamado Daril parecia tão simples e despreocupado. Pelo que eu senti dos pensamentos dele, ele sequer reconheceu o brasão que a menina apresentou para mim. Essas pessoas pareciam desperdiçar o tempo delas com ações sem propósito. Isso era tão…  impressionante! Como eles conseguiram sobreviver até hoje nesse vasto universo vivendo dessa forma?

É claro que eu não estava “visível” para nenhuma dessas pessoas. Eu era adepto de uma arte bem desconhecida que misturava elementos de onipresença e onisciência. Basicamente eu configurava as partículas no meu corpo para não refletirem a luz que incidia sobre mim nas dimensões normais do espaço. O que literalmente me tornava invisível para quase todo mundo. As únicas pessoas que poderiam me ver eram aquelas que pudessem rastrear minhas ondas mentais e se alinhar com elas. Ou eu mesmo poderia alinhar minhas ondas mentais com essas pessoas e apenas elas me veriam.

Essa manipulação de partículas não era tão simples como parecia, senão qualquer praticante de onipresença poderia executar essa técnica e então todos poderiam brincar de ficar invisíveis. Além do que, se fosse apenas a reflexão da luz que fosse impedida, infravermelhos e sensores de calor também poderiam facilmente detectar uma pessoa, o que tornaria basicamente inútil para um espião, dado o nível de segurança padrão dos dias de hoje.

Desde que uma partícula estivesse no mesmo espaço que a luz, ela iria refletir e absorver. Para não interagir com uma fonte de luz, essa partícula no mínimo, não poderia estar diretamente exposta no mesmo espaço. Assim, para executar essa técnica, a manipulação necessária era fazer com que todo o meu corpo simplesmente “saísse fora” do espaço normal onde todas as outras pessoas estavam. Simplificando: para ficar invisível, eu me colocava em uma dimensão diferente do mesmo espaço.

Enquanto observava a praça a algumas dezenas de metros, minha nave estava estacionada logo atrás da nave de Henry. A figura franzina da garota Brard não demorou muito a aparecer. Mas, para minha surpresa, ela não estava indo até a nave. Ela vinha… em minha direção?

Eu estava prestes a ir até lá lidar com ela, mas vê-la vindo até mim foi uma grande surpresa. Como? Ela estava me vendo? Ela caminhava lentamente com os braços cruzados e a cabeça baixa enquanto olhava furtivamente de um lado para o outro, a cabeça coberta pelo capuz do casaco. Nada discreta.

Ela caminhou calmamente até estar na minha frente, e olhou ao redor com a expressão intrigada. Olhou pros lados. Olhou para o céu. Caramba, ela estava me procurando! Se ela não estava me vendo, será que estava sentindo a minha presença? Será que ela tinha dominado onisciência ao ponto de conseguir se alinhar com a minha mente depois de ter me encontrado apenas uma vez? Uma Brard? Mesmo Henry, eu sabia que podia me ver quando nos encontramos no festival de ano novo porque eu tinha me alinhado com ela, e ele obviamente também estava. Mas como ela estava fazendo isso?

Ela parou por um momento. Parecia estar observando alguma informação em seu Link pessoal. Ela piscou algumas vezes, então voltou a olhar ao redor e acenou com a mão na minha direção. Eu apenas fiquei assistindo boquiaberto, quando ela finalmente me olhou bem nos olhos e disse com uma expressão confusa:

— Você está aqui na minha frente? Como pode estar invisível?

E ela continuou esticando a mão tentando me tocar.

— Como você está fazendo isso? — eu perguntei manipulando minha visibilidade para ela e me revelando finalmente. Ela piscou várias vezes surpresa ao finalmente me ver aparecer.

— Essa é a mesma arte que você usou quando nos falamos durante o festival? Ninguém além de mim e de Henry conseguiu ver você naquela noite… — ela comentou com curiosidade.

— É óbvio que sim! Mas como você me localizou? Eu já fui de carona numa nave que eu estava espionando sentado do lado do meu alvo, e ele ainda hoje não sabe como eu consegui minhas informações! Mas você… sem ofensas, uma simples Brard, me localizar facilmente assim, meu orgulho está ferido! Eu preciso imediatamente trabalhar em corrigir essa falha.

— Ah, não se preocupe quanto a isso… — ela comentou, querendo evidentemente ser evasiva sobre esse assunto. Ela falava seriamente. Caramba! Ela era muito pequena e fofa para ser levada a sério. Parecia um brinquedo! — O método que eu usei, apenas eu posso usar. Mais importante. Me diga por que me seguiu.

— Eu estava tentando falar com Henry Siever. Mas ele é bem cabeça dura para querer lidar com outras pessoas além das que ele já considera do círculo de confiança, e infelizmente ele colocou todo mundo para fora. Eu tinha algumas informações que gostaria de discutir com ele. Se você é meu acesso até ele, então me diga, onde ele está?

— Você pode perguntar sobre isso diretamente ao seu querido imperador, — ela comentou, sem esconder o desprezo na voz. Agora que eu reparava bem em seus olhos, ela parecia ter chorado, mas mantinha uma atitude altiva, como se nenhum problema fosse capaz de abalar sua segurança. Ela tinha algum ressentimento quanto ao imperador Marco? E ela sequer fazia questão de esconder isso… — Qual é a informação que você tem?

— Obviamente, não estou aqui para discuti-la com você… Mesmo que você tenha um brasão dourado, a informação que eu tenho é de interesse de Henry Siever, que também é proprietário do mesmo nível de nobreza. Sem a autorização dele, eu não estou disposto a dividir…

— Oh… você conseguiu informações sobre o paradeiro de Emil! — Ela comentou surpresa.

Mais uma vez eu a encarei boquiaberto.

— Caramba! Como você fez isso? — Eu perguntei estarrecido. — O nível de protocolo de segurança em que essa informação estava guardado era absoluto! Não existe tecnologia capaz de superar esse nível de defesa. Mesmo eu, que criei os relatórios, para ter acesso aos arquivos novamente precisaria de uma série de autenticações especiais!

Simplesmente nem adiantava negar para ela que essas não eram as informações que eu tinha. Seria retórico e uma perda de tempo. E eu tinha certeza que ela não tinha entrado na minha mente com Onisciência. Esse tipo de ação é facilmente detectável por outro onisciente. Principalmente um mestre como eu.

Ela parou por um momento enquanto refletia sobre as informações. Eu podia perceber que ela lia rapidamente os relatórios em seu Link pessoal. Meus relatórios. Salvos em meu banco de dados! Que tipo de monstro aquele cara tinha criado? Isso pois, até onde se sabia, não existia tecnologia para superar as barreiras dos sistemas vigentes, então obviamente Henry Siever, o único a fazer avanços tecnológicos massivos em anos, havia criado uma arma suprema no corpo dessa coisinha. Teria sido por isso que o imperador Marco a julgou tão valiosa ao ponto de até mesmo conceder um brasão dourado?

Pela cara dela, ela parecia bastante concentrada nas informações que estava vendo. Eu podia sentir a mente dela trabalhando rapidamente tentando tomar uma decisão, mas por algum motivo, mesmo eu não consegui ver o que ela estava pensando exatamente. O quão forte era a aptidão mental dela?

— Você conseguiu realmente algumas informações úteis… — ela finalmente comentou depois de parecer ter lido tudo.

Um aura sombria finalmente apareceu na expressão determinada dela. Pela primeira vez, eu me senti um pouco acuado. Aquela aura era descondizente com a carinha fofa e jovem dela. Que tipo de vida ela estava levando para ter desenvolvido uma presença dessas?

Foi quando ela se virou de costas alarmada, olhando para o horizonte.

— Mais alguém me seguiu além de você? — ela disse com urgência na voz. Parecia ter detectado outra pessoa. — Eu sinto uma presença mágica naquela direção. Não há artistas mágicos nesse planeta…


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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