DCC – Capítulo 151

Resgate

 

Mikal Stanislav:


Me leve até lá! — A voz de Alésia veio telepaticamente até minha mente.

O olhar dela estava levemente marejado mas permanecia firme nas telas flutuantes que exibiam a tragédia do lugar chamado Versal.

Levar você onde? — eu perguntei, mesmo podendo adivinhar a resposta.

Onde ela está. Ver esse sofrimento dela dói demais. Eu não posso simplesmente assistir ela e os filhos morrerem se eu puder fazer algo para ajudar.

— Bom, é uma atitude nobre da sua parte, mas receio que seja impossível. Eu poderia nos teleportar para lá, se eu soubesse onde fica Versal, o que eu não sei, mais ainda, eu precisaria saber a exata localização dela. Essa lugar parece ser enorme. Localizar uma pessoa entre as milhares que ainda precisam de ajuda… Receio que o tempo não esteja a favor dela.

— Se tudo o que você precisar, é da localização dela, você me levaria até lá?

Ela virou o rosto para mim. O olhar dela parecia tão decidido quanto o da mulher correndo pelas chamas. Alguma coisa no fundo daqueles olhos pareceram agarrar diretamente na minha própria alma.

Eu era um espião profissional. Um dos melhores. Eu não era facilmente manipulável por emoções, fossem minhas ou de terceiros. Ser emotivo nesse ramo não trazia longevidade. Mas não era nenhuma ligação emocional que eu estava vendo ali. Era algo maior, que rugia diretamente para mim.

O que diabos tinha dentro dessa menina?

— Claro… — Eu ouvi minha própria voz concordar fracamente. — Mas isso… é impossível…

Alésia parecia decidida. Ela olhou mais uma vez para a tela e removeu uma das luvas, estendendo uma das mãos para mim. Não havia nenhuma hesitação nela.

Ela queria que eu pegasse na mão dela? Contato físico direto entre mestres oniscientes? Que pensamentos ela queria compartilhar?

Então meus olhos bateram diretamente na pele descoberta da mão dela. Algumas cicatrizes eram bem visíveis sobre os dedos calejados. O que diabos essa garota tinha sofrido na vida? Era por isso que ela queria ir até aquele lugar tentar salvar aquela mãe e os filhos dela?

Bom, eu me recusaria a acreditar que uma mera Brard fosse mais poderosa em onisciência do que eu. Ela sequer tinha o mínimo talento para onipresença. Não havia o que temer ao tocar na mão dela. Eu mesmo estava curioso para ver o que poderia descobrir. Não tinha como eu ser um espião de sucesso se eu não pudesse me sobressair entre a maioria dos artistas.

Quando nossas mãos fizeram contato, Alésia enviou diretamente para minha mente, como se fosse uma memória minha, a localização correta para onde ela queria ir. Ela simplesmente tinha rastreado o sinal de transmissão da câmera que filmava aquela mulher, desde a emissora de notícias, e redirecionou até conseguir triangular localização física do equipamento.

Como diabos ela fez isso?

Eu pisquei várias vezes, surpreso com a informação enquanto ela me olhava ansiosa. Ela sabia o que eu estava pensando. Ela percebeu a minha surpresa. Em contrapartida, eu não pude perceber nada… nada! Não senti nada vindo dela além do que ela me permitiu sentir.

Eu respirei fundo, tentando suprimir meu choque, e me concentrei na localização. Essa garota era realmente alguma coisa, já que até mesmo Henry a tinha em alta conta.

Enquanto eu me concentrava na localização, ela suspirou aliviada, ao sentir que eu ia ajudar. Ela puxou o capuz do casaco para cima, cobrindo completamente o rosto, e esperou que eu fizesse meu movimento.

Não era difícil. Como a elite dos artistas em onipresença, eu poderia dar a volta completa em um planeta em menos de um minuto completo. Então, em poucos segundos, eu me concentrei onde queria ir, abri uma fenda no espaço, e nós dois entramos lá rumo à tragédia de Versal.

Alésia Latrell:


Chegamos bem a tempo. Eu mergulhei na fenda escura atrás da mulher, enquanto Mikal terminava de puxar o menino para a segurança. Ela tinha se chocado contra a parede do precipício e se segurava com os braços trêmulos e fracos ao único pensamento de não desistir.

Ela queria viver mais do que tudo, e eu podia ouvir a mente dela gritando desesperadamente para que ela não desistisse. Ela ainda tinha muito o que viver e não desistiria nem dela mesma, nem dos filhos.

Eu flutuei na direção dela enquanto ouvia esses pensamentos gritantes. Todas as chances apontavam para a morte certa. Não havia um único fio de esperança sequer, mas mesmo assim, ela se recusava a desistir. Talvez se aquela mulher morresse dessa forma, nem mesmo sua alma desistiria. Ela não aceitaria morrer insatisfeita daquela forma.

Eu estendi a mão e toquei no ombro dela.

— Vamos, seus filhos estão esperando…

A mulher se espantou ao me ouvir, e quase escorregou da beirada onde se segurava. Mas isso não importava. Eu já havia pegado ela. O corpo dela flutuou gentilmente graças à minha magia, em direção à superfície, onde Mikal esperava.

Vários pensamentos de dúvida e medo passaram pela mente dela naquele momento, mas quando ela percebeu que estávamos subindo, ela apenas fechou a boca resolutamente e guardou para si todo o medo que sentia.

— Muito obrigada, — ela disse simplesmente.

No topo da fissura, um garotinho chorava sem saber para que lado olhar. O medo infantil dele era de partir o coração. Ele olhava para a nave que começava a partir pensando que nunca mais veria o irmão, e olhava para o precipício pensando que nunca mais veria a mãe.

Mas o olhar dele quando viu a mãe flutuando gentilmente para fora do precipício… parecia que ele tinha ganhado o maior presente que qualquer criança pudesse desejar ganhar na vida.

Mikal entregou o garotinho para a mãe, que o abraçou como se não houvesse mais nada que precisasse nesse momento além disso.

Então, finalmente a nave nos notou. O olhar chocado dos socorristas em nossa direção enquanto a nave ganhava altura era evidente. Mas eu não os encarei, com a cabeça baixa, eu me virei para a mulher, e disse:

— Viva bem… — eu não dei a ela tempo de dizer mais nada. Com um último aceno da minha mão, eu a enviei voando com o filho nos braços para a nave, onde ela se reuniu ao segundo filho que chorava aliviado ao se reunir com a família.

— Por que você desativou as câmeras assim que chegamos? Você não permitiu que a mulher sequer visse seu rosto… — Mikal perguntou. — Por que você não quer ser reconhecida? Mesmo entre a mídia galáctica, você nunca foi vista. Eu soube que até mesmo existe uma recompensa generosa para quem apresentar uma imagem verdadeira da companheira de Siever.

— Isso não é importante agora…

Eu evitei as perguntas enquanto olhava ao meu redor. Gotas de suor escorriam da testa de Mikal. O fogo rasteiro lambia os destroços logo do outro lado da fissura.

— Sim, claro… vamos embora.

— Eu também não vou embora agora… — eu respondi, olhando fixamente para as chamas.

— Você já salvou a pessoa que queria, o que mais falta? — Mikal insistiu.

— Você consegue sentir? — eu perguntei, voltando minha atenção para Mikal. — Todos esses sentimentos de desespero… todas essas almas partindo… toda essa dor e sofrimento… todas essas vidas sendo perdidas… Você não consegue sentir?

Mikal abriu e fechou a boca algumas vezes. Ele parecia perdido, sem saber o que responder.

— Você pretende se arriscar para salvar essas pessoas? Você sequer teve algum treinamento para situações desse tipo? — ele disse finalmente.

— Não… não recebi… eu posso apenas fazer o meu melhor.

Dito isso, eu estendi minhas mãos em direção às chamas e ativei o “Buraco Negro” sugando todo calor das chamas à minha frente até que elas fossem completamente apagadas e saí voando na direção onde eu podia sentir os pensamentos gritantes e desesperados mais próximos.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

1 Comentário

  1. Perfeito! Já esperava por ela querendo salvar tantos quanto pudesse, mesmo assim foi un capítulo maravilhoso. Felizmente teremos mais um hoje 😀

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