DCC – Capítulo 152

Só isso?

 

Plantão Mundial News:


A âncora do noticiário informava minuto a minuto as atualizações da tragédia de Versal:

— Acabamos de receber uma atualização do centro de resgates em Versal. Nesse momento, parece que várias das vítimas desaparecidas estão sendo resgatadas por meio de levitação das áreas mais devastadas. Direto do local, o assessor de imprensa da equipe de socorro responsável pela operação fala sobre o assunto:

— Aparentemente, o que parece ser uma dupla de Jomons chegou até o centro do desastre e começou a prestar socorro mágico para as pessoas que estavam presas em locais onde a equipe de resgate não conseguiu adentrar. Nossa prioridade ainda estava sendo o resgate preventivo e a evacuação devido ao baixo contingente, então não tínhamos ciência da quantidade de pessoas que ainda não tinham saído das áreas de maior risco.

—  Infelizmente, não possuímos nenhuma imagem mostrando a localização dessa dupla. Como perceberam a presença desses Jomons? E como podem ter certeza da procedência deles?

A âncora perguntava diretamente para o socorrista pela câmera flutuante.

— Na verdade, apenas duas vítimas resgatadas por eles tiveram contato direto. Uma mulher e uma criança de cinco anos, que confirmaram a presença de duas pessoas. Os demais simplesmente relatam que estavam sobre escombros, tentando se abrigar ou fugindo, quando simplesmente foram arrebatados do chão e foram enviados voando para as naves de resgate, sem auxílio de nenhum equipamento. Até onde sabemos, esse tipo de manipulação só pode ser feita por Jomons que dominam magia.

— Não há nenhuma informação sobre a origem desses Jomons ou o que eles estariam fazendo em Versal?

— Até o momento, sequer sabíamos que Jomons mágicos estavam situados em Sátie. De qualquer forma, o Governo pretende investigar a identidade deles e agradecer formalmente pela ajuda nos resgates.

Alésia Latrell:


As últimas pessoas que eu consegui localizar da zona de perigo já estavam flutuando para as naves de evacuação. O chão ainda tremia e balançava violentamente enquanto rachaduras enormes se espalhavam por todo lado. Mikal, aparentemente a contragosto, tinha decidido me ajudar, enquanto mantinha um olho em mim.

De uma das rachaduras maiores no epicentro da tragédia, enormes erupções de gases e lava saiam da terra enquanto cobriam o céu com uma fumaça escura, que tornava o ar quase irrespirável. Pelo que eu podia perceber, aquilo ainda iria durar por várias horas e com certeza afetaria bastante todo o continente.

— Eu acho que aquela arte elementar estava com tanta pena dos humanos que viviam aqui que segurou essa erupção por mais tempo do que devia, — Mikal comentou preocupado, com a voz abafada enquanto cobria a boca e o nariz com a manga da camisa tentando respirar.

— O que eu deveria fazer numa situação dessas? — eu comentei fracamente, olhando para o chão revolto.

— Se você já fosse uma mestre onipotente com experiência em terraformação, você talvez conseguisse abrir um canal de evacuação para liberar a saída dos gases comprimidos. Mas infelizmente, nem eu e nem você temos esse tipo de formação. — Mikal disse, e então começou a tossir violentamente.

— Você deveria sair daqui. Já se expôs demais a esse ar poluído…

— O mesmo vale para você… — Ele rebateu ainda tossindo. — Vamos, não há mais nada que possamos fazer… vamos apenas correr perigo se continuarmos aqui… — Mikal falou com bastante dificuldade, e puxou meu braço se preparando para partir.

— Não… espere… — Eu olhei para o fundo do fosso onde a lava e a fumaça negra jorravam. — Isso que aconteceu… Por que acha que a arte elementar se daria o trabalho de nos avisar sobre esse incidente, se tudo o que fosse acontecer fosse “só isso”…

Mikal novamente abriu a boca para falar, mas não conseguiu emitir som algum. Até que ele finalmente me segurou exasperado, tentando me arrastar para longe e rasgar o espaço para partir.

— É claro que eu não acho que seja “só isso”, mas somos apenas eu e você! O que diabos poderíamos fazer além do que já fizemos?

A voz dele saiu rouca e esganiçada. Ele terminou de rasgar o espaço e já estava com um pé dentro quando eu desprendi a minha mão dele e voltei para o epicentro.

— O que você está fazendo??? — ele gritou agoniado.

— Você pode ir sem mim! — eu respondi de volta.

— Como eu poderia fazer isso? — ele perguntou, voltando a fechar o rasgo e indo na minha direção, tentando me pegar de volta.

— Você não me deve nada! Na verdade, eu que devo agradecer por sua ajuda! — Eu respondi, me virando para ele, mas sem permitir que ele me alcançasse. — Mas eu não posso partir ainda. Vá na frente, eu entrarei em contato depois!

— Você está louca? — Mikal gritou de volta para mim — Se alguma coisa acontecer a você enquanto eu estiver por perto, eu não duvido que o próprio Siever apareça para me caçar e me matar.

— Você é engraçado Mikal… — eu ri de volta pra ele e me lancei em direção ao epicentro. — Se tivermos oportunidade, eu gostaria de ser sua amiga.

Mikal Stanislav:


— Mas eu estou falando sério! — eu disse, jogando fora qualquer compostura.

Que garota louca! O que diabos ela achava que poderia fazer ali? Era uma ação suicida!

Mas eu ainda tinha duas certezas em mente:

Ela sabia disso, e mesmo assim resolveu se arriscar.

E…

Ela não queria morrer.

Será que ela tinha alguma coisa que a fazia ter tanta confiança de que não morreria? Infelizmente, minha única alternativa agora era ir atrás dela e tentar levar ela embora à força. Deixar ela pra trás não era uma opção. Se ela realmente morresse sob a minha guarda… Eu conhecia e admirava as habilidades de Henry o suficiente para saber que não haveria lugar seguro nesse universo para me proteger da raiva dele, não importava a situação em que ele estivesse.

Droga… por que eu tive que me meter? Apesar daquela aparência de bonequinha fofa e pequena, como ela podia me trazer tantos problemas?

Eu mordi o lábio, respirei fundo, sentindo o ar quente e ardido corroer minha traquéia. E me preparei para trazer ela de volta, quando o chão finalmente se abriu para o que parecia ser o espetáculo principal.

Uma enorme explosão enviou uma onda de impacto em minha direção, devastando tudo que ainda estava remotamente intacto pela frente, seguida de perto por uma onda de fogo e fumaça negra cheia de raios violentos que se chocavam uns contra os outros e contra o chão como se fossem metralhadoras descontroladas.

Porra!!!

A onda de impacto chegou primeiro e me mandou para trás. Logo eu não podia mais ver ou sequer sentir a localização da menina.

Onde ela está? Será que a onda de fogo já a atingiu? Droga, droga droga droga…. Onde ela está?

Eu corria os olhos desesperado de um lado para o outro. Mas eu sequer conseguia respirar mais, imagine manter os olhos abertos com tanta fuligem que se espalhava!

A onda de fogo estava se aproximando… eu não podia esperar mais. Com um movimento, meu corpo mergulhou em um rasgo espacial e eu fui parar a dez quilômetros de distância do epicentro.

Eu estava flutuando a uma altura considerável do chão, então eu podia ver claramente a explosão se espalhando ao longe. Dez quilômetros não foram suficientes… eu precisaria ir pra mais longe…

Então, era isso… Não tinha como aquela quantidade de gases acumulados sob tanta pressão ser liberada aos poucos. É claro que iriam explodir. E com a força daquela explosão… é claro que alcançaria as equipes de resgate, e mesmo as pessoas nas cidades que não foram evacuadas seriam afetadas… mesmo que a onda de impacto perdesse força e se dissipasse, ainda haveria a onda de fogo, que era tão sólida quanto lava e não perderia força tão facilmente. Ela iria consumir tudo pela frente até que toda a força da explosão fosse consumida e todos os gases comprimidos fossem liberados.

E aquela criança louca resolveu se sacrificar pra ver isso de perto? Talvez nem mesmo um grupo de artistas onipotentes experiente pudesse lidar com tal situação, imagine uma criança Brard, por mais talento que tivesse!

Eu respirei fundo já pensando em como iria me livrar das evidências de que eu estive nesse planeta, e me livrar da retaliação de Henry, quando meus olhos caíram na onda de impacto.

Ela estava… parando?

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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