DCC – Capítulo 154

Me desculpe

 

Mikal Stanislav:


Eu no máximo tinha alguma perícia em primeiros socorros quando se tratava em cuidar de pessoas feridas. Porém, ela com certeza estava precisando de atendimento médico urgente. Do jeito que as coisas iam, era possível que ela sofresse um choque pela falta de sangue devido a hemorragia interna.

Agarrei o corpo desfalecido de Alésia e voltei para a Cidade Ivana. A única pessoa que eu sabia que podia me orientar sobre o que fazer com ela era aquele Daril. Eu sei que é muita falta de educação, mas eu simplesmente rasguei o espaço direto na sala de estar dele. A situação não permitia perder tempo com delicadezas.

— Ah! O que é isso? — uma mulher gritou, saltando da poltrona ao lado de onde tínhamos aparecido.

Daril empalideceu completamente, sentado do outro lado da sala, agarrando com força os braços do sofá como se o chão pudesse ruir ali também.

— O-o que significa isso? — ele perguntou confuso e assustado, quando finalmente percebeu a filha. — Alésia? Alésia! Fale comigo! O que aconteceu com ela? Por que ela está coberta de sangue?

Esse Daril era um cara desconfiado. A primeira coisa que ele especulou foi que provavelmente eu tinha capturado a garota e tinha vindo atrás dele para me livrar das testemunhas que tinham me visto. Porém, ele teve o discernimento de não dizer nada. Enquanto ele rapidamente compilava uma lista de suspeitas e corria em socorro da filha, um pensamento aleatório que corria na mente dele me chamou atenção.

— Será que esse cara é uma das pessoas que está atrás da tal substância secreta que Siever colocou no corpo dela?

Substância secreta? O que? Então sem que ele percebesse — ah, que se dane, ele é um Brard, como ele perceberia? — eu vasculhei rapidamente as memórias e pensamentos dele sobre a menina.

Então… esse era o caso?

Pelas lembranças dele, eu pude entender o quadro geral da situação. Ela era uma espécie de portadora feita por Siever de algum tipo de… arma talvez? E parecia que ele acreditava ter sido uma escolha completamente feita ao acaso. Não… há dez dias eu acharia que essa informação estava correta.

Se eu tivesse testemunhado aquela amostra de poder da menina antes de me encontrar com a arte elementar, eu com certeza pensaria que ela tinha sido transformada em algum tipo de arma experimental sob a tutela de Henry Siever e do Imperador Marco. Mas…

Eu era um artista mágico habilidoso o suficiente para saber quando e como certos tipos de energia e aura são emanados de uma pessoa. E a energia, aquela sensação que tinha emanado a garota no epicentro da explosão… aquilo tinha um traço muito leve que se assemelhava muito à arte elementar da floresta.

Essa criança… ela guardava algo do tipo no corpo? Então é por isso que ela esconde a identidade a todo custo? Por acaso Henry havia conseguido manipular algum tipo de tecnologia capaz de reter artes elementares em um corpo?

Droga, a situação só ficava cada vez mais complicada para mim. Se ela realmente era protegida de Henry Siever, já era motivo suficiente para eu tentar evitar que algo ruim acontecesse com ela. Mas ela também tinha realmente envolvimento com o imperador, então no mínimo até a vida dela era mais importante que a minha. Não é à toa que ela tinha um brasão dourado para si mesma, em vez de se valer da influência de Siever.

Além disso a outra mulher presente na sala olhava com os olhos arregalados para Alésia, enquanto eu a colocava cuidadosamente sobre o sofá. Ela parecia completamente em choque, enquanto uma chuva de pensamentos confusos enchiam a mente dela. Ela não sabia da garota? Havia um pensamento principal que se repetia sem fim na mente perturbada dela: “Alésia está viva?”.

— Senhor Daril, eu preciso que me escute! — Eu disse calmamente pelo tradutor. — Sua filha é uma heroína. Ela ajudou a salvar incontáveis vidas hoje durante o evento de Versal. Mas eu fui descuidado e acabei permitindo que ela se machucasse…

— Eram vocês o que os noticiários estavam chamando de dupla de Jomons Mágicos? — A mulher me interrompeu.

Eu tentei apenas ignorar enquanto voltei ao tópico principal com Daril.

— O senhor sabe se Siever concedeu alguma autorização para algum médico poder supervisioná-la? — Dadas as circunstâncias, eu não podia levá-la simplesmente para qualquer lugar. Quanto mais pessoas checassem o interior do corpo dela, mais pessoas estariam cientes de que algo estava errado. E esse não parecia ser o plano.

— N-não! Não sei… ele sempre me disse que cuidava pessoalmente dela! — Daril respondeu confuso.

— Você sabia que ela estava viva? — A mulher mais uma vez perguntou com a face lívida.

— Alya, esse não é o momento… Eu te chamei hoje porque pretendia conversar com calma — Daril disse tentando acalmá-la.

— Cinco anos, Daril! Você me deixou sofrer com o luto pela minha filha por 5 anos, e então eu volto a vê-la coberta de sangue!

 

Alésia Latrell:


Minha consciência foi voltando aos poucos enquanto sentia diversas emoções diferentes vibrarem ao meu redor. O mais próximo que eu distingui foi Mikal, que estava irritado e sem paciência, e ao mesmo tempo apressado e angustiado. Logo depois eu senti meu pai, que estava acuado e apreensivo.

Por último, eu senti a raiva, a frustração, a revolta e a dor… da minha mãe?

Eu abri meus olhos de uma vez, observando o ambiente da sala de estar de Daril ao meu redor. Assim que eu despertei, os três pares de olhos se voltaram para mim.

— Você está bem querida? — Daril correu direto para o meu lado.

Eu voltei minha atenção para Alya que ainda estava parada no mesmo lugar com um olhar doloroso e magoado. Haviam tantos sentimentos que ela estava tentando suprimir… Acho que agora era meio injusto da minha parte conseguir sentir unilateralmente tudo o que ela pensava e sentia. Mas Mikal se ajoelhou na minha frente até ficar com o rosto na altura dos meus olhos e falou no idioma imperial.

— Eu não quero ter que lidar com nenhum drama familiar desnecessário, mas será que você poderia me informar a sua situação atual precisamente? Eu preciso saber o que fazer agora. Você precisa que eu a leve a algum médico específico?

Minhas sobrancelhas dançaram enquanto minha expressão se contraiu. Ele estava me perguntando o que fazer? Mais cedo naquele mesmo dia eu ainda estava tentando convencê-lo a não colocar nenhuma informação sobre mim ou Sátie nos relatórios dele!

— Eu… — ainda pensei casualmente em comentar algo antes mas, pela expressão dele, ele estava realmente falando sério. Ele sequer estava bancando aquela pose escandalosa com cara de guaxinim que ele reservava para interagir com as outras pessoas. Eu já conseguia sentir claramente o lado de dentro do meu corpo, e identificar os problemas, então depois de uma breve auto avaliação eu respondi diretamente: — Boa parte dos meus órgãos internos já são artificiais, então parece que houve uma sobrecarga durante o incidente e talvez sejam necessários alguns reparos diretamente com um bioengenheiro competente. Mas eu não posso ser cuidada por qualquer um. É possível que a maioria das pessoas proficientes nessa área só seja capaz de fazer alguns remendos. Em todo o império, apenas Henry seria capaz de me tratar, mas…

— Quanto tempo você tem? — ele perguntou com a expressão ainda mais grave.

— Acho que posso aguentar por mais um ou dois dias… — Eu suspirei. Eu teria que voltar todo o caminho até Keret, entrar no palácio, e esperar que Marco permitisse que Henry cuidasse de mim? Eu não duvidava que no momento em que Henry me anestesiasse, ele seria obrigado a me colocar em animação suspensa ou coisa assim para que eu não deixasse mais o palácio.

Mikal se levantou e começou a andar de um lado para o outro pensando profundamente, ignorando completamente meus pais. Enquanto ele pensava, meus olhos foram parar em Alya, que ainda estava fervendo de emoções contrastantes.

— Oi mãe… — eu finalmente cumprimentei.

— Humpf… Você é mesmo muito incompetente… Não é capaz sequer de morrer direito, e volta todos esses anos com o rabo entre as pernas só para me deixar saber que era mesmo uma mentirosa.

— A gente pode por favor não fazer isso? Eu estou realmente cansada e meu corpo dói. Eu sei que causei muito sofrimento por conta de todas aquelas “mentiras”, mas lhe garanto que ainda hoje pago o preço por elas.

— Você paga o preço? E todo o investimento que eu fiz em você? Todos os recursos que foram jogados fora para te criar? Toda a vida que eu me esforcei para que você pudesse ter usufruído! Todo o desespero que eu tive que passar para encobrir aquelas situações embaraçosas para que mesmo depois do tratamento você pudesse ter uma vida normal ainda. Mas eu estava apenas me iludindo, já que você não tinha nenhum problema, era apenas uma mentirosa compulsiva, que resolveu brincar com os sentimentos de todos que estavam ao seu lado se fingindo de morta!

Enquanto falava, a voz de Alya foi aumentando ao ponto em que quando ela terminou de falar ela já estava gritando. Havia tanta mágoa sendo colocada para fora, que estava encobrindo todo o alívio por me ver ali.

— Eu sinto muito por ter forjado a minha própria morte, mas precisava ser feito. Pai não teve culpa e nem envolvimento. Ele apenas foi pego pelos eventos, assim como eu.

Enquanto eu olhava para a revolta de minha mãe, eu pude entender tanta coisa que eu não entendia no tempo que parti. O rigor dela em nossa educação, na esperança de que tivéssemos uma vida estável. Ela tinha vivido nos tempos incertos da guerra, e apesar de ignorar todos os problemas que teve, fingindo que não tinham acontecido, ela tinha feito tudo o que podia da forma que sabia para que vivêssemos bem.

E tinha sofrido as dores que uma mãe sofre ao achar que eu estava me perdendo. Ao achar que ela estava me perdendo. Naquele tempo eu conseguia entender apenas o meu lado, o meu sofrimento, e as minhas dores. É claro que elas foram reais, mas as dores dela também foram. Todo mundo sofre de formas diferentes. E a forma dela era fingir que podia lidar com tudo de forma rígida e racional enquanto ruía por dentro.

— Eu vou ficar bem… Apesar de tudo, eu me casei e tenho um marido que me ama. Dinheiro não é problema… tudo o que eu quiser ou precisar pode ser facilmente colocado aos meus pés. Eu frequento a academia onde as maiores universidades da galáxia ficam, e quando eu me formar, desde que eu queira, eu poderei trabalhar em qualquer planeta Brard ou Jomon que eu escolher.

Nada disso era mentira. Mas eu não precisava que ela ficasse sabendo das circunstâncias que cercavam todas essas coisas maravilhosas. Eu sabia que ela não conseguiria me perdoar facilmente. E mesmo que perdoasse, ela não iria demonstrar. Se eu insistisse em manter minhas mágoas, só entraríamos em um ciclo de revolta sem fim. O lado bom da onisciência, era que pelo menos agora eu entendia o lado dela. A preocupação dela. Se eu fizesse parecer que estava tudo bem comigo, que apesar das “mentiras” eu tinha dado certo, então ao menos ela poderia ficar mais tranquila com o tempo. Mas…

— Você está mentindo. Como sua vida pode ter progredido a esse ponto? Além disso você está coberta de sangue! E marido? Quem é o seu marido? Esse Jomon? Até parece que um Jomon casaria com uma Brard por amor… E se dinheiro não é mais problema para você, então me pague o dobro do dinheiro que gastei para te criar! — ela gritou de volta, ainda mais magoada com as minhas palavras, achando que eu estava mentindo descaradamente como quando parti.

Ela realmente duvidava dos Jomons. Mesmo Henry tinha admitido que dificilmente se apaixonaria por uma Brard sob condições normais. E o dinheiro, ela não queria realmente. Ela estava apenas jogando a raiva para fora pelas palavras.

Eu suspirei cansada. Olhei para Mikal, que tinha parado de pensar e já estava me transmitindo uma mensagem diretamente na minha mente. Eu acenei para ele confirmando… por enquanto seria melhor assim.

— Não… Esse não é meu marido… ele é apenas um colega. E… eu não sei quando, mas tentarei voltar em breve mais apresentável para me desculpar novamente. Sobre o dinheiro, eu sei que falou da boca para fora por conta da raiva, mas eu vou pagar. Pelo menos é uma prova palpável que vai te dar tranquilidade suficiente para saber que eu não estava mentindo.

Enquanto eu falava, eu já estava usando meu Link para fazer a transferência de alguns milhões de créditos, tanto para ela, quanto para Daril. Eu transferiria bem mais, mas um enriquecimento repentino de duas pessoas comuns sem nenhuma razão aparente seria suspeito e causaria problemas demais a eles. Quando terminei de falar, Mikal imediatamente rasgou o espaço, onde mergulhamos diretamente para um novo destino.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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