DCC – Capítulo 156

Discípulos de Dhar

Discípulo de Dhar:


Alguém estava batendo na porta. Saco. Eu tinha dado ordens para ninguém me incomodar hoje…

— O que é? — eu perguntei friamente para a pessoa que vinha entrando. Meu secretário pessoal.

Ele está te chamando.

Ele? Eu consegui interpretar imediatamente a quem o secretário se referia. Nós não dizíamos seu nome aqui. Isso criaria lembranças desnecessárias que precisaríamos esconder. Sequer quando pensávamos nele, tínhamos que refrear a forma como pensávamos, para não trair nossos segredos. Além disso, todas as paredes tinham ouvidos. Desde que a Relíquia da Sabedoria estava de volta a ativa, mesmo falar em voz alta perto de aparelhos eletrônicos era burrice.

Ele não tinha aparecido para mim há anos. Então ele realmente estava se movendo. Senti meu corpo arrepiar e meu coração galopava desenfreadamente de animação ao pensar em como ele tinha se preparado tão atentamente para o plano. Pelo visto estava na hora dos discípulos se reunirem a ele.

Eu dispensei o secretário rapidamente com um aceno e corri para o espelho. Eu tinha que verificar minha aparência. Meu terno, meu cabelo… nem mesmo um fio podia estar fora do lugar. Quando me convenci que estava tudo perfeito, me apressei para encontrá-lo. Eu parei na porta dos aposentos dele, hesitando por uma fração de segundo antes de empurrar a maçaneta e entrar.

— Minha criança… está na hora, — uma voz poderosa e cheia de perigo entrou pelos meus ouvidos.

Parecia tão antiga quanto a própria existência e me trazia uma sensação que eu só poderia descrever como o gosto da morte.Todo esse poder… eu tinha sorte de estar ao lado dele e fazer parte dos seus planos, e não ao lado daqueles que ele tinha como alvo.

— Estou aqui apenas para servir, — eu disse me aproximando mais e me coloquei de joelhos na frente dele.

— Uhuhuhu… boa criança. Eu nunca conseguiria chegar onde estou sem você… — Ele elogiou afagando minha cabeça. Eu senti minhas orelhas esquentarem enquanto ele me enaltecia. — Aquele tolo do Vix estava preso dentro de uma encarnação tola e sem ambição. Não imagino como ele tenha sido capaz de conseguir o posto de imperador com aquela personalidade. A única esperança para ele é que eu o ajude a se libertar de sua forma carnal. Infelizmente, não havia esperanças para os outros dois.

Ele começou a andar pela sala enquanto refletia e me explicava a situação atual:

— Ele insiste em querer proteger esse universo falho, como se a libertação que eu quero oferecer fosse algo ruim. Você entende meu lado, não entende?

Eu estremeci, mas rapidamente confirmei com a cabeça. O plano dele era simples: a mortalidade era uma falha que tinha se assolado pelo universo. O próprio universo tinha sido criado em cima de uma falha. Então, ele queria libertar todas as almas dessa falha e recriar um universo perfeito. Sem dor, sem sofrimento, sem mortes. Só era necessário que tudo que existia fosse destruído para servir de fundação para o novo universo.

— Eu não entendo, por que todo esse plano para tirar a vida do imperador? Com todo o seu poder, não seria mais fácil invadir diretamente o palácio e matá-lo? Eu lembro que tinha me dito que acabou encontrando-o desprotegido por coincidência e conseguiu criar um selo que o aprisiona em Keret. Se o atacarmos, ele não vai poder fugir.

— Não seja impaciente. Seria um bom plano se a encarnação de Shi não estivesse trancada dentro daquele palácio. Eu posso até sentir o gosto da corrupção corroendo a alma dele. Se atacarmos diretamente, Siever pode perder o controle de si mesmo, e talvez nem eu seria capaz de pará-lo. Apesar do ódio que eles compartilham entre si, Siever ainda possui uma pontada de sentimento e hesitação em relação a Marco. Já por mim, ele nutre apenas o puro e simples ódio. Então eu seria o alvo prioritário. Parece que Marco está atento a esse detalhe também. Ele sabe que eu não cometeria a tolice de atacar casualmente com dois deuses sob o mesmo teto.

— Entendo… perdoe-me pela minha falta de visão, — eu disse abaixando a cabeça.

— É por isso que você não ocupa a posição de líder… ainda…

— … — Eu fiquei sem palavras com a insinuação daquela frase. Ele pretendia colocar como líder?

— Há também algo que preciso reportar! — eu disse tentando me redimir das minhas palavras tolas de antes. — Consegui a informação de que a garota Alésia Latrell irá estar na academia em algumas semanas, sozinha e desprotegida. Caso seja de sua vontade, seria a oportunidade perfeita de colocar as mãos nela.

— Algumas semanas, hum? Parece interessante, mas ela é apenas uma criança tola e inexperiente. Mesmo que ela se depare com a verdade sobre as almas divinas, ela ainda vai continuar presa nesse sentimento inútil de humanidade. Ela nunca vai ser forte suficiente para se tornar de real ameaça ou serventia. Mas… — Ele abriu um sorriso frio enquanto pensava sobre o assunto, — ela ainda é o ponto fraco de Henry Siever. Desde que consigamos derrubar o Império e “resgatar” Siever das mãos de Marco, usá-la como barganha para pormos as mãos nele seria a forma mais fácil. Eu posso sentir a sanidade dele beirando a completa falência… Se apenas eu tivesse sido mais rápido aquele dia que eu segui o cheiro da corrupção que surgiu nele quando ele invadiu aquela luazinha mixuruca para resgatar a garota…

— Então eu devo providenciar a captura dela? — tentei confirmar ainda na dúvida se Ele queria ou não fazer uso dela.

Dhar andou um pouco refletindo sobre o assunto.

— Espere… ainda não. Eu soube que ela está seriamente motivada a causar problemas ao império. Já que esse é o caso, apenas deixe que ela suje as mãos por nós. O ódio dela por Marco é bastante útil para mim, já que todos os meus planos seriam arruinados se os dois se aproximassem. Providencie que o caminho dela seja facilitado e rastreie cada um dos passos dela. Assim, se for necessário, podemos capturá-la a qualquer momento.

— Eu entendo. Farei como ordena.

— Porém, eu ainda preciso que faça algumas coisas primeiro.

— Qualquer coisa!

— Primeiro: Marco está tramando alguma coisa no palácio. Eu suspeito que ele esteja utilizando os recursos do império para construir algo para contra atacar. Descubra tudo o que puder sobre isso. Segundo: reúna seus irmãos e irmãs, e os envie com os recipientes para transportar os deuses menores que se aliaram a nossa causa. E por último… — ele baixou o corpo até estar cara a cara comigo e olhou profundamente dentro dos meus olhos. Eu senti como se até mesmo minhas vidas passadas pudessem estar sendo vistoriadas por ele, — elimine de vez todas as emoções inúteis e dúvidas desnecessárias de seu coração. Você vai herdar a minha vontade e a minha força para a criação do novo universo. Mas somente se puder me provar que é capaz de deixar essa sua humanidade para trás.

Meus olhos brilharam arregalados com aquelas palavras. Eu era capaz! Eu tinha que ser. Eu não podia deixar para trás a vontade de um deus que me escolheu pessoalmente. Não… eu tinha que fazer o que fosse preciso. Eu ansiava por aquele poder mais que tudo nesse universo.

— Ótimo. Aguardo boas notícias. Estarei partindo mais uma vez em breve.

— Alguma instrução nova para sua ausência? — perguntei com a garganta seca.

— Hmm… acho que o de sempre. Durante essa viagem eu irei tomar de volta o meu poder que foi espalhado. Acho que será interessante começar com os Brards… eles sempre se alvoroçam fácil. Quando as notícias começarem a chegar, ajude a espalhar boatos da truculência Jomon. Quanto mais esses mortais matarem a si mesmo, mais tempo irão me poupar.

— Que notícias? — eu perguntei ainda na dúvida.

Ele moveu-se pela sala e andou até a mesa impecavelmente organizada, depois voltou sua atenção até uma flor em um dos vasos que estava começando a murchar. Eu senti o meu coração afundar no estômago nessa hora. O que ele detestava mais além do que qualquer coisa era a imperfeição. Mas ele ergueu a mão e gentilmente acariciou a flor, que ainda soltava um aroma exuberante e tinha uma beleza delicada. Com um sorriso sinistro, ele retirou a flor do vaso e a moveu entre os dedos, inspirou o seu perfume e por fim…

A flor murchou visivelmente em um instante. Não apenas murchou, mas começou a secar até que parecia ter sido colhida há semanas. Isso continuou até que ela desaparecesse completamente, virando pó entre aqueles dedos divinos.

— Eu irei devorar cada uma das existências das pessoas indignas nesse universo e recuperar tudo o que é meu de direito. Quanto aos culpados por meu sofrimento… eu irei fazê-los sentir o que é realmente o desespero.

Quando eu saí da sala, uma gota de suor frio escorreu pelo meu rosto. Aquele “gosto da morte” ainda acariciava a minha pele arrepiada. Eu queria aquele poder… eu desejava… e Ele tinha me reconhecido! Ele tinha me escolhido! Eu iria me tornar um ser divino! Nenhum dos meus irmãos e irmãs iriam estar aos meus pés, e somente eu poderia estar ao lado dele.

A perfeição absoluta.

Eu respirei fundo, tirando um lenço do bolso, e limpei o suor. Realinhei a minha compostura, e contactei imediatamente o meu secretário:

— Envie uma ordem de convocação para os discípulos. Marque uma reunião para daqui a uma semana.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

1 Comentário

  1. Coitada da florzinha, ela era inocente. O cara é literalmente a morte.
    Obrigado pelo capítulo Nega Fulor

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