DCC – Capítulo 161

O sabor do chocolate

 

Mikal Stanislav:


Quando o droide vinha saindo da sala esterilizada, eu já imaginei o que ele vinha falar. Ele não era nada mais do que um cilindro alto e largo, quase com as minhas proporções, e um monitor frontal onde ele exibia as informações que queria.

— Em nossa avaliação inicial, precisamos de recursos orgânicos para dar conta das necessidades fisiológicas de reparo do organismo dela. Precisamos de nutrientes e líquido venoso.

— Quanto tempo ela tem? — eu perguntei diretamente.

— Algumas horas no máximo. O sistema nervoso dela estava apresentando defeito, diminuindo externamente a aparência da gravidade da situação. Vocês humanos dependem da dor para atestar defeitos, mas essa função não estava funcionando propriamente no corpo dela. Depois desse tempo, o corpo dela irá automaticamente entrar em estado vegetativo programado por quem construiu as partes artificiais e não teremos mais condições de reverter em menos de alguns meses.

Algumas horas? Isso basicamente significava que ela estava lentamente sangrando até a morte por dentro e prestes a entrar em choque. Se ela chegasse a esse ponto, até mesmo esses caras precisariam de meses para reverter? Isso era demais.

Não tinha como eu simplesmente deixar esse planeta atrás de um hospital, tomar algumas bolsas de sangue e voltar em poucas horas.

— Use o meu sangue, — eu disse rapidamente. Então uma ideia louca apareceu na minha mente. — Se puderem alterar o alinhamento genético dela para que ela pareça ser um híbrido da minha raça com a dela, será de grande ajuda.

Enquanto eu pensava no DNA irrastreável de Alésia, eu entendi que era bem mais fácil para proteger a família e o planeta natal dela, já que não era possível de se localizar suas origens por amostragem genética. Porém, isso a deixava vulnerável demais. Se o DNA dela fosse associado com o meu, é claro que iria causar estranheza, mas o máximo que especulariam se alguém voltasse a investigá-la, seria que ela era o resultado de algum Jomon do meu planeta se divertindo por aí com mulheres Brards. Além de que era bem mais aceitável que uma garota híbrida fosse capaz de manejar artes mágicas do que uma Brard pura.

— Isso é possível, mas irá arrastar o nosso cronograma por mais alguns dias. — O droide respondeu indiferentemente, como se eu tivesse pedido por um copo d’água e não uma reconstrução genética. — Isso aumentará a necessidade de nutrientes para manter a condição física do corpo dela.

— Ok… então removam uma quantidade de sangue suficiente para mantê-la enquanto eu vou buscar mais, — eu disse, puxando a manga da camisa e mostrando o cotovelo exposto para o droide.

Os droides começaram os procedimentos quase imediatamente. Não tinham deixado margem para nenhum atraso. Enquanto eu olhava para a agulha sendo enfiada dentro da minha artéria e o sangue ser sugado para dentro de uma máquina que iria torná-lo compatível e mais eficiente para a menina, eu mais uma vez fiquei pensando onde diabos eu tinha me metido.

 

Alésia Latrell:


Eu pisquei várias vezes tentando discernir o ambiente à minha volta. Mas, por mais que eu tentasse, eu não estava realmente conseguindo ver muita coisa. Além do chão imediatamente ao meu redor, tudo estava na completa escuridão. Eu comecei a andar em uma direção qualquer, tentando alcançar alguma coisa, mas não havia nada naquele lugar. Eu mesma só vim perceber depois de um bom tempo que nem eu estava ali.

Que espécie de alucinação bizarra era essa? Isso era alguma espécie de entorpecimento causado pela anestesia daqueles droides?

Continuei andando por aquele vazio por várias horas até que finalmente eu cheguei em um lugar vagamente familiar. Era um lago de água brilhante no meio de uma caverna. Havia um ar quente e abafado circulando naquele lugar, do tipo que nenhuma pessoa comum poderia suportar facilmente.

Eu olhei distraidamente para a água brilhante. Algum lugar perdido na minha consciência me dizia que nenhuma gota daquele líquido era realmente água. Depois de um bom tempo olhando para aquele lago, eu comecei a ter a vaga sensação de que alguma coisa estava me chamando. Chamando diretamente a minha alma.

Meus pés começaram a se mover inconscientemente, indo um passo de cada vez para dentro do lago, até que eu imergi completamente.

Eu continuei a me mover dentro daquela água, sem conseguir ver nada na minha frente além do brilho ofuscante que emanava daquele lugar. Eu continuei afundando mais e mais, até que finalmente meus pés voltaram a tocar no chão.

— Você já imaginou como deve ser o sabor de chocolate?

Uma voz ressoando de toda parte perguntou de forma corriqueira. Não me ocorreu achar aquilo estranho, já que eu achava que estava sonhando.

— Eu já provei chocolate, — eu respondi.

— Mas você já “imaginou” o sabor? — a voz insistiu enfatizando.

— O que você quer dizer com isso? — eu retruquei a pergunta, seguindo no meio daquela água brilhante, sem saber exatamente para onde eu estava indo.

— Se os sabores são sempre os mesmos, por que há pessoas que gostam e outras que não gostam de certas comidas?

A voz começou a divagar. Parecia uma conversa muito estranha para mim.

— Acho que por que as pessoas têm gostos diferentes… — eu respondi mesmo assim.

— Eu imagino que o chocolate tenha o gosto do prazer. Talvez um pouco de gosto de amarelo. E um pouco de gosto de solidão.

— … — Eu não consegui acompanhar aquela linha de pensamento. — Eu só acho que chocolate tem um gosto doce…

— Não! — A voz me repreendeu imediatamente. — Isso não é o que você imaginou. Isso é o que as sinapses nervosas dos receptores de sabor de sua língua enviaram para o seu córtex cerebral que gerou uma resposta automática informando que o sabor era doce. Mas o que você sentiu, o que você experienciou naquele momento? Não teria sido isso a sua verdade sobre o chocolate?

— Eu… acho que não entendi… — Eu respondi.

— O que é real? O que é realmente real? As respostas automáticas das suas sinapses nervosas ou o sentimento que você desenvolve motivados por elas?

— Eu acho que… um pouco dos dois? — Que tipo de conversa era essa afinal?

— Oh! — a voz exclamou surpresa com a minha resposta. — Explique! — ela pediu como se fosse uma criança curiosa sobre alguma coisa interessante que ainda não conhecia.

— Bom, acho que nós somos uma combinação do que sentimos com o nosso corpo e com a nossa alma, não? Somente essas tais respostas automáticas podem ser simuladas por um gerador de realidade aumentada. E isso não quer dizer que aquele momento tenha acontecido no mundo real. Mas mesmo assim gerou uma reação emocional. E… as pessoas podem imaginar e sentir coisas sem motivações reais, como desenvolver sentimentos umas pelas outras. Acho que isso independe necessariamente de uma resposta física e mesmo assim não deixa de ser real.

Silêncio.

— Eu nunca tinha pensado dessa forma, — a voz disse quase sussurrante. — Eu cheguei a várias conclusões diferentes sobre esse assunto, mas nunca tinha pensado que duas instâncias completamente diferentes como a física e a espiritual pudessem se complementar dessa forma para criar a realidade.

— Quem é você exatamente? — eu finalmente perguntei.

— Eu sou Maskin!

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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