DCC – Capítulo 165

Mainframe

 

— Você parece estar muito bem agora… — a fantasma d’água comentou, me observando atentamente enquanto me rondava de um lado para o outro observando todo o meu corpo. Tínhamos descido para a câmara subterrânea ao lado do lago onde nos encontramos pela primeira vez — Sua condição física quando chegou era a de alguém que parecia prestes a entrar em colapso.

— Eu tenho que agradecer a vocês por isso. — Eu sorri.

— Não há necessidades de agradecimentos. Nós fizemos um acordo. Então é claro que iríamos cumprir nossa parte da melhor forma possível. — O tom de voz dela parecia deixar bem claro que não tinham feito aquilo de graça. Mikal estava ao meu lado tentando controlar sua proteção mágica contra o calor excessivo que emanava daquele lugar, então a fantasma d’água me puxou para um lado para conversarmos a sós. — Então, quando acha que será possível realizar sua parte?

Eu sacudi os ombros com indiferença.

— Agora mesmo? Não tem motivo para adiar.

A fantasma d’água sorriu satisfeita e então começou a explicar, ativando uma tela que representava uma planta tridimensional mostrando vários quilômetros quadrados de onde estávamos, camada por camada, até chegar a aquele nível onde nos encontrávamos, e que depois descia ainda mais para mostrar um imenso espaço vazio com várias centenas de colunas e um enorme engradado no meio, que deveria ter o tamanho de um prédio.

— Esse é o caminho. O mainframe do núcleo central se desconectou da nossa rede de conhecimento, então não temos contato com a situação há muito tempo. Você deve ter reparado no nosso improviso em utilizar autômatos particulares de nossos cidadãos como servidores substitutos até conseguir resolver a situação. Tentamos enviar vários representantes para tentar reestabelecer contato manualmente, mas todos falharam em conseguir chegar ao centro e sequer sabemos a causa das falhas ainda. Nem mesmo a nossa nanotecnologia é capaz de se aproximar sem perder desempenho e eventualmente falhar.

— Entendo… — eu nunca tinha me especializado em estudar sobre tecnologia digital, mas eu sabia muito bem o básico ao ponto de saber que, sem o mainframe, que era a principal máquina que servia para ajudar no tráfego de informações, não tinha como o núcleo central funcionar.

— Aqui, tome esse dispositivo, — a fantasma d´água disse entregando para mim uma espécie de micro-drive externo. — Com a ajuda de seus talentos específicos, acho que poderá conectar esse transmissor ao mainframe e então poderemos nos conectar e fazer uma varredura completa, mas primeiro você deverá passar pelo sistema de acesso. Não é algo que seja possível para alguém que não pertença ao nosso povo, a não ser que esse alguém tenha a Sabedoria.

— Como eu passo pelo sistema de acesso? — eu perguntei enquanto observava o micro-drive.

— O nosso mainframe principal sempre teve uma segurança muito rigorosa, por isso, ele gera uma sequência de códigos aleatórios que permitem acesso manual aos servidores que só podem ser decifrados quando em sincronia com um representante de nosso povo sincronizado com cada servidor do local, — ela disse apontando para cada uma das centenas de colunas que apareceram na planta. — E por mais que tenhamos um ótimo desenvolvimento tecnológico, falhamos ao pensar em como lidar com uma situação desse nível e não temos recursos para enviar nosso próprio pessoal adentro para resolver o problema. Sempre evitamos o calor a todo custo. Nunca pensamos em como seria se tivéssemos que encará-lo de frente. É uma falha terrível na nossa história.

Era realmente uma ironia cruel como as coisas aconteciam. Eu sempre tentando fugir para o calor, e eles tentando fugir dele. E por mais que eu pudesse levar um ou dois deles para o lugar, se fossem muitos, ou se demorasse muito, não teria como eu dar conta de lidar com o fluxo de energia da Criação, mesmo que eu fosse uma Jomon. E aquele lugar deveria ser enorme. Não tinha como eu lidar com o fluxo de energia sem explodir igual em Sátie, e isso só pioraria as coisas para eles. Eu pude apenas suspirar e colocar o drive no bolso.

— Não se preocupe. Eu vou fazer o meu melhor para passar pela segurança do mainframe.

A fantasma d’água sorriu satisfeita e indicou com um dos braços na direção do lago. Pelo visto a passagem era realmente pelo fundo daquele lugar. A “água” girou até formar um redemoinho que cresceu até abrir um túnel que demarcava o caminho.

— Eu devo ir também, não é? — Mikal, que estava afastado sem ouvir nossa conversa, se aproximou e perguntou apreensivo. — Será que não há nenhum problema para organismos como os nossos irem para lá?

A fantasma d’água flutuou ao redor de Mikal de forma sinuosa antes de falar:

— Especificamente vocês não terão problemas.

— Oooook… — Mikal respondeu usando aquele tom de voz exagerado que ele gostava.

Eu e Mikal descemos pelo túnel que descia até o fundo do lago. Lá havia uma espécie de escotilha que se abriu automaticamente quando nos aproximamos. Uma rajada de ar quente foi jogada para fora. Comparativamente, a temperatura que saia de lá de dentro era bem maior do que a do lado de fora, que já era bastante alta.

Assim que aquela massa de calor saiu, Mikal instintivamente tentou tomar a minha frente para criar um escudo para me proteger, mas ainda assim eu agarrei as costas da roupa dele, o puxando para perto de mim.

Pelo que eu sabia da capacidade de criar escudos, eles ainda não eram completamente efetivos quando o assunto era vedar a entrada e saída de energia e calor. O escudo de Mikal imediatamente ganhou forma no momento em que a porta foi aberta, mas mesmo assim eu estiquei a mão criando um “Buraco Negro” para dissipar o calor excedente.

Com uma mão eu absorvia o calor que vinha e com a outra eu tentava liberar o excesso de energia convertida em eletricidade e espalhava pelo meus pés como se fosse um aterramento. Afinal eu tinha que encontrar uma forma de equilibrar como meu corpo iria lidar com tudo aquilo.

— O que você está fazendo? — Mikal perguntou quando tanto meus cabelos quanto os dele começaram a se revirar por conta da estática.

— Se eu não tirar o excesso de calor, você vai acabar cozido, — eu disse, sentindo a minha pele formigar onde pequenos raios saiam. — Mantenha o escudo. Vamos descer.

Empurrei Mikal pela entrada. Não havia realmente uma corrente de ar naquele lugar, mas quando a escotilha foi aberta, parecia que o espaço estava sendo descompressurizado.

— Caramba! Como pode estar tão quente aqui em baixo? Até mesmo a minha visão está distorcida por conta do mormaço.

— Parece que as máquinas aqui em baixo estão muito sobrecarregadas. Estão produzindo mais calor do que as saídas de ar são capazes de dar conta.

— Eu não acho que devamos ir mais adiante… não tem como saber quanto tempo vamos conseguir manter nosso controle de temperatura, e se ficarmos sem proteção mágica, estaríamos diretamente expostos.

— Desde que você mantenha contato físico direto comigo o tempo todo, vai ficar tudo bem, — eu disse, simplesmente ignorando a preocupação dele, e começando a andar adiante.

Mikal suspirou resignado e colocou uma das mãos no meu ombro. Eu podia sentir a expressão dele franzir enquanto ele se perguntava como eu ainda podia estar tão fresca e tranquila naquele lugar inóspito.

— Meu corpo perde energia muito rápido… — eu comecei a explicar, ao entender a dúvida dele. — Seja qual for o tipo de energia, eu não tenho como manter. Então estou sempre com frio.

— Isso não é meio contraditório? — ele torceu ainda mais as sobrancelhas. — Se você está sempre com frio, então tudo ao seu redor deveria ser comparativamente muito mais quente do que é pras outras pessoas.

— Seria, se essa condição não se espalhasse para o ambiente ao meu redor. As coisas que eu toco perdem calor tão rápido que a diferença de temperatura chega a ser irrelevante, o que basicamente me torna imune ao fogo.

Mikal parecia ter compreendido alguma coisa. Parece que agora começava a fazer sentido como eu pude me manter no centro da explosão em Sátie. Eu continuei andando em frente. Ou melhor, flutuando na direção que a fantasma d’água tinha indicado no mapa. Era possível que o chão derretesse as solas dos nossos sapatos se pisássemos diretamente nele. Não havia paredes, apenas colunas contendo os processadores e servidores a perder de vista em um imenso galpão que parecia não ter fim.

— O que viemos fazer aqui afinal? — Mikal perguntou, decidindo não insistir mais no assunto anterior.

— Descobrir qual o problema que está afetando o núcleo central daqui e, se possível, consertar.

À medida que andávamos, era possível ver os “corpos” dos autômatos que falharam em chegar até o centro. A temperatura do lado de fora parecia estar por volta dos 200ºC e subindo. Os processadores dos autômatos acabaram parando de funcionar a meio caminho sem sequer saber a causa das falhas que estavam ocorrendo naquele lugar.

Quanto mais ao fundo íamos, mais quente ficava. Parecia que aumentava de 3 a 5 graus a cada 10 metros. Isso não era pouca coisa. Se continuasse aumentando assim, haveria um limite para o qual os equipamentos poderiam se manter sem derreter. Inclusive, quanto mais avançávamos, mais o cheio de eletrônicos queimados poluía o ar. Mais adiante, alguns dos servidores que eram bem mais resistentes que os autômatos e ainda trabalhavam tenazmente, começavam a sobrecarregar e desligar. Depois reiniciavam lentamente e voltavam a cair. As luzes acendiam e apagavam parecendo uma fila de pisca-piscas gigantescos. Bem no meio daquele lugar finalmente estava o tal mainframe…  e outras coisinhas.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

3 Comentários

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!