DCC – Capítulo 166

Isso é obviamente uma armação

 

— O que é isso?

Mikal franziu o cenho enquanto olhava para o chão. Vários pedaços de coisas rasgadas estavam espalhados pelo chão aleatoriamente em vários pequenos montes, junto com vários cacos de uma coisa amarelada no meio. Eu me aproximei para verificar.

— São… cascas de ovos… Então isso deve ser algum tipo de troca de pele. Não dizem que alguns tipos de répteis trocam de pele? — eu comentei, olhando ao redor. Eu tinha apenas um conhecimento raso sobre biologia, do tipo que se aprende na escola, e como eu fui expulsa cedo, não aprendi muito dessas coisas básicas. Sequer reconhecer aquilo já era um grande feito.

Mikal se aproximou, retirou um pequeno bastão do bolso, e o usou para revirar um dos ninhos. Ele encostou o bastão tanto nas peles quanto nas cascas de ovo, depois se levantou e conferiu os dados enviados para o Link pessoal dele:

— De fato. De acordo com a análise do DNA, é de uma espécie de répteis que existia em alguns planetas do Império Humano. Costumava ser chamada de “Dragão de Thara”. Isso não é bom…

— O que não é bom? — eu perguntei enquanto voltava a olhar ao redor. Já que Mikal podia prover as informações, eu não iria me dar ao trabalho de procurar por elas.

— Eles são extremamente adaptáveis. Além disso, as escamas da espécie deles são muito duras e eles são atraídos naturalmente por fontes de calor para procriar. Por isso foram nomeados com o nome de “dragão” pelos primeiros a catalogarem a espécie. O problema é que esses primeiros exploradores que se encontraram com eles tiveram suas naves completamente rasgadas pelos espécimes.

— As naves? Uma nave não deveria ser capaz de suportar o impacto de meteoros? Como pode um animal sequer danificar a lataria? — eu comentei chocada.

— Bom, infelizmente, por mais que a tecnologia tenha se desenvolvido, nenhum humano conseguiu controlar a vontade da natureza. Coisas assim podem acabar se desenvolvendo em todo o tipo de ambiente inóspito ao qual as pessoas não são capazes de ir normalmente. O problema é… vida orgânica… em um planeta que não tem vida orgânica. Esses ninhos não são antigos, — Mikal disse, olhando preocupado para mim. — Eles foram plantados aqui por alguém.

— Uma espécie adaptável, capaz de retalhar naves e favorável a ambientes quentes… Não é à toa que o povo daqui nunca conseguiu descobrir qual o problema.

Quando o núcleo central perdeu a conexão com a rede de conhecimento deles, eles pensaram que deveria ser por causa de algum problema no hardware. O que não era errado, já que esses dragões devem ter destruído a dentadas vários dos servidores que serviam para o tráfego de informações do mainframe. Os demais que ainda estavam funcionando então deviam ter começado a superaquecer e falhar, por conta da sobrecarga de trabalho.

Quando a situação chegou nesse ponto, eles não conseguiram estabelecer uma linha de comunicação para investigar o problema remotamente, e só poderiam tentar enviando os droides, que não suportaram a temperatura interna.

Mesmo que eles enviassem os litoangstroms para aniquilar a praga, eles não podiam fazer isso, já que não sabiam que havia uma. Então, basicamente, quem conseguiu plantar esses dragões no subsolo de Maskin sabia que eles não poderiam ser percebidos facilmente pelos habitantes, e provavelmente achava que eles não iriam chamar alguém de fora para entrar nesse lugar. Basicamente, todos os segredos, projetos, tecnologias e história do planeta estavam aqui. Qualquer pessoa mal-intencionada poderia facilmente destruir toda a civilização I.A. da superfície apenas entrando aqui dentro.

Mesmo que eles não fossem dependentes de um único corpo físico como os seres orgânicos, assim que os dragões tivessem gastado os dentes em todos os servidores e no mainframe, o povo de Maskin simplesmente deixaria de existir, já que não haveria mais nenhum hardware para executar suas funções primárias.

Além de “quem?” eu realmente queria saber “por quê?”.

Qualquer pessoa que viesse aqui deveria ter a confiança dos maskin. Se esse era o caso, a pessoa também deveria saber que apesar de serem inteligências artificiais, sem nenhuma relação orgânica, as existências deles já haviam chegado a um ponto em que eles começaram a desenvolver consciência própria e sentimentos. Eles não eram apenas uma sequência de códigos de programação ordenados com um propósito específico com as inteligências artificiais subdesenvolvidas do Império Humano. Eles já tinham as próprias vidas.

Basicamente, colocar uma colônia de Dragões de Thara era como cometer genocídio contra todo esse planeta. Eu comecei a me sentir enjoada. Como alguém era capaz de carregar tantas mortes na mão? Será que o fato de serem artificiais fazia com que os responsáveis por isso não tivessem nenhum senso de compaixão?

— Temos que sair daqui… — Mikal disse em alerta. — Mesmo que a gente possa achar um ou dois dragões e lidar com eles, não temos como lidar com todos eles. Precisamos nos preparar melhor e ter um plano. Definitivamente não viemos preparados para enfrentar algo desse tipo. Para a nossa sorte, não encontramos nenhum até agora. Pela quantidade de ninhos, não devem ter mais do que 6 ou 8 espécimes adultos. Mesmo que os filhotes sejam pequenos e relativamente fáceis de se perder de vista, os adultos são enormes, quase do tamanho de um humano adulto.

— Sim, vamos… — eu disse sombriamente, me virando em direção à saída.

Dessa vez no caminho de volta, eu pude perceber pequenos buracos que poderiam passar despercebidos se alguém não estivesse especificamente procurando por eles nas colunas onde os servidores estavam instalados, por onde os filhotes devem ter entrado e destruído o lado de dentro.

Considerando o tamanho do lugar, não dava nem para saber quantos desses bichos já tinham se espalhado por ali. Os ninhos que tinham perto do mainframe eram apenas uma provável fração da quantidade de adultos mais velhos, já que a fantasma d’água não tinha especificado há quanto tempo esse “problema” estava acontecendo.

— Isso é um sério atentado terrorista. O pior é que Maskin é um planeta neutro, e utilizaram uma espécie animal de planetas controlados por humanos. Não seria difícil deduzir que foi um humano que fez isso.

O olhar de Mikal era sério e irritado. Eu ainda não tinha o visto com uma expressão tão tensa antes.

— Por que você acha que fizeram isso?

— Obviamente, alguém está tentando voltar os maskin contra o Império Humano.

— Mas isso é obviamente uma armação! — eu comentei indignada. Mesmo que eu quisesse lutar contra Marco, eu não queria envolver nenhuma vida inocente no processo. Isso era muito injusto.

— Eu acho que isso não importa. No momento em que Maskin decidir que tem um posicionamento, quem estiver do outro lado vai sair perdendo. E mesmo que possa parecer uma armação, ainda restaria uma pitada de dúvida quanto a se é mesmo ou não. Nenhum líder permitiria que seu povo sofresse nas mãos de um provável inimigo. Nesse momento, uma mão amiga que aparecesse providencialmente, para oferecer recursos pra reparar os danos que os Dragões de Thara teriam causado seria efetivamente bem recebida. Fosse ela suspeita ou não.

Eu tinha que levar em consideração a opinião de Mikal. Ele era um espião profissional. Provavelmente era acostumado a lidar com esse tipo de conspirações terríveis. Mas era a primeira vez que eu via algo do tipo.

— Bom, por enquanto acho que isso é algo que devemos nos preocupar depois… — eu comentei.

— Por quê?

— Veja. Um dos dragões adultos ali na frente…

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

5 Comentários

  1. Será que este que encontraram deixa ser acariciado no pescoço? Vai que eles são como gatos :3
    Mas como conseguiram colocar ovos sem que ninguém percebesse? o.O

  2. Pq eu sinto q foi o Dhar q fez isso de propósito? Será q essa foi a ‘ajuda’ q ele deu para ela matar o Marco? Ou será q foi uma forma de ‘precaução’ para o caso do plano falhar?
    Obrigado pelo capítulo Nega Fulor

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