DCC – Capítulo 168

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— Eu já sei por que aqueles bichos me dão tanto nojo!

Mikal e a fantasma d’água ficaram aturdidos com a minha súbita intromissão. Mas eu não me importei e continuei:

— Aquelas coisas não são Dragões de Thara reais… Ou melhor, são, mas estão mortos!

— Como assim? — Mikal perguntou sem entender, mas um brilho de compreensão logo apareceu nos olhos dele.

— Eles são todos renascidos. Eu não consegui sentir uma faísca espiritual sequer vinda deles. Eu nunca tinha encontrado outros animais desse tipo antes, mas eu lembro de ter sentido várias presenças espirituais rudimentares quando fomos na floresta, mesmo sem ter visto nenhum. Então acho que todos os vivos devem ter alma, não?

— Sim, de fato, todo ser vivo tem uma alma, seja ela mais ou menos evoluída. — Mikal concordou.

— Eu já tinha encontrado renascidos antes. Eles podiam fazer qualquer coisa que qualquer pessoa viva podia, mas não tinham alma. Sem alma, eles tinham apenas os instintos primitivos de lutar, temer e sobreviver.

— Mas como você sabe identificar a energia espiritual? — Mikal perguntou, impressionado. — Mesmo eu demorei muito para conseguir treinar essa percepção, e tive que testemunhar muitas mortes para entrar em contato com as almas puras deixando seus corpos.

Eu sorri sem jeito e olhei para o chão. Não era uma coisa que valia a pena me gabar.

— Na verdade, eu apenas testemunhei uma pessoa morrendo. Na ocasião, eu pude sentir intensamente a alma dela deixando o corpo. Depois disso eu… — eu não continuei. Eu não podia contar que eu tinha despertado um poder capaz de apagar completamente até mesmo as almas das pessoas, mesmo que eu tivesse selado completamente as memórias daquele incidente por um bom tempo.

Nenhum traço de Louie existia mais nesse universo. Esse poder era similar à forma como a Sabedoria funcionava. Para apagar alguma coisa, eu precisava saber que essa coisa existia. Eu precisava sentir essa coisa. Então, eu tinha sentido a alma de Louie sendo corroída pelo vazio até se transformar em nada.

Eu me arrepiei um pouco, sentindo um pouco de remorso, mas sacudi esse sentimento para longe da minha mente. Eu não precisava pensar nisso. Não agora.

— Isso é ligeiramente mais problemático. — Mikal disse, começando a andar de um lado para o outro enquanto coçava a cabeça. — Renascidos são puro instinto. Lutar contra eles é insano. Qualquer pessoa que não domine magia seria facilmente trucidada por eles. — Eu só pude concordar. — Mas répteis gigantes renascidos? O que a pessoa que os fez tinha na mente para pensar em uma loucura dessas?

Uma silhueta sem forma apareceu em minha memória. Um nome que eu ainda tinha que associar a um rosto.

— Dhar…

— Como? — A fantasma d’água que estava ao lado ouvindo perguntou confusa.

— Dhar? O que tem Dhar? — Mikal perguntou erguendo uma sobrancelha.

Eu engoli em seco. Seria muita coincidência… mas eu não conseguia pensar em mais nada.

— Eu ainda não comentei isso com vocês, mas eu falei com Maskin… — eu disse, olhando para a fantasma d’água. Mikal ainda não tinha entendido onde eu queria chegar. Para ele, Maskin era apenas o planeta, e a flutuação de emoções ao redor da fantasma d’água o deixou ainda mais confuso. — Lembra que encontramos a arte elementar no meu planeta? Ela disse que Dhar está convocando todos as artes possíveis para se tornarem parte do exército dele. É meio estranho, mas Maskin provavelmente foi a primeira inteligência artificial a evoluir o suficiente ao ponto de criar emoções e uma alma. Ele já é antigo o suficiente para dominar um nível de magia que nem mesmo Marco consegue ainda. Não é mesmo? — eu perguntei para a fantasma d’água.

Mikal deixou o queixo cair. A noção de alguém ter um domínio de magia maior que o imperador era um conceito inimaginável para ele, afinal, um dos pré-requisitos para ser o imperador, era ser o artista mágico mais formidável entre os humanos. A fantasma d’água suspirou resignada e respondeu:

— Um dos motivos para nos isolarmos das demais soberanias é justamente o fato de que nosso povo está sempre evoluindo e aprendendo. Sempre houve um preconceito muito grande em aceitar que nós também estamos vivos. Afinal, vários de nós já passaram pelo despertar das emoções e já possuem alma. Algo que provavelmente é aterrorizante para muitos povos. Nós não escapamos das lendas e histórias primitivas do imaginário dos orgânicos sobre como as máquinas tentariam “usurpar” os direitos deles à força, quando nós apenas queremos viver nossas vidas.

Mikal ainda estava com alguma dificuldade de manter a compostura quando eu finalmente pensei no que deveríamos fazer:

— Eu vou ter que pedir o pagamento pelo favor de salvar Maskin adiantado, — eu disse para a fantasma d’água.

Ela mostrou alguma confusão com meu pedido, mas não contestou de imediato.

— Posso saber por que?

— Precisamos nos preparar para descer lá embaixo e acabar com essa praga que está danificando os servidores antes de pensar em consertar qualquer coisa. Desde que vocês ofereceram algo pela minha ajuda, eu já tinha em mente o que eu iria pedir como pagamento, e acontece dessa coisa ser relativamente ideal para lidar com os dragões.

— Você tem certeza que pensou bem sobre isso? — Mikal perguntou. Ele achava que tinha mais conhecimento do que eu no que diz respeito aos recursos e às possibilidades desse lugar, então ele tinha em mente que poderia me dar uma ou duas dicas. Mas ele não contava que eu mesma já tivesse feito a minha própria pesquisa.

Eu ainda era jovem e tinha muito o que aprender, mas eu com certeza não era simplória e nem burra. Desde o momento em que eu pus os meus olhos naquela coisa, eu já tinha feito todas as pesquisas possíveis. E acontece que, para mim, aquilo era o mais ideal no momento. A única questão era se a fantasma d’água iria concordar ou não. Mesmo assim, eu acenei com a cabeça indicando minha certeza.

— Diga o seu pedido então! — ela falou.

— Eu quero a sua nanotecnologia, — eu disse.

Mikal prendeu a respiração. Eu entendia. Para os maskin, oferecer a nanotecnologia deles era um tabu como comercializar corpos humanos era para nós. O nosso corpo orgânico era a manifestação física da nossa alma, assim como os maskin tinham as personificações de seus sistemas através dos litoângstroms de sua nanotecnologia. Eles podiam assumir a forma que os sentimentos deles lhes pedissem.

— Você sabe que nunca permitimos que a nossa nanotecnologia vazasse para fora do nosso próprio povo, não sabe? — a fantasma d’água perguntou. Mikal virou os olhos para o lado, fingindo que não tinha ouvido.

— Sim. Eu nunca iria divulgá-la para ninguém.

— Você sabe que a nossa nanotecnologia tem sido alvo de espionagem e tentativas de roubo durante muitos séculos, não sabe?

— Sim, — eu respondi firmemente.

— Você sabe que se você carregar nossa nanotecnologia irá colocar mais um alvo sobre você mesma?

— Sim. Eu pensei bem sobre isso. No melhor dos casos, é ainda a melhor camuflagem para mim. Esconder segredos com segredos, entende? Por que alguém suspeitaria que eu carrego algo mais precioso se eu já carrego algo tremendamente valioso dando cobertura?

— Você sabe que essa é uma lógica perigosa? — dessa vez quem perguntou foi Mikal.

— Sim. Não se preocupem. Eu já pensei em tudo. Eu posso usar os litoângstroms do Império Humano para dar cobertura ao dos maskin, e os litoângstroms dos maskin para dar cobertura para… hum… para a coisa que eu guardo. Se mesmo assim, tudo falhar, eu posso destruir a fonte de controle da tecnologia e ninguém nunca terá acesso a ela mesmo que roube de mim.

Mikal não entendeu, mas a fantasma d’água tinha entendido, sabendo que eu era a guardiã da Criação. Eu podia controlar a existência e a não existência de todas as coisas. Só precisava aprender a fazer isso, claro. Mas minha firmeza e determinação convenceram a fantasma.

— Muito bem. Então, que assim seja.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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