DCC – Capítulo 169

Litoângstroms

Mikal caminhava ao meu lado de volta para as instalações onde me consertaram, completamente em êxtase. Parecia que era ele quem iria receber a nanotecnologia dos maskin e não eu. Mikal ainda iria descer novamente comigo, então decidiram preparar um conjunto de equipamentos de acordo com as especificações que ele tinha pedido. Enquanto isso, me levaram para a mesma sala onde eu tinha despertado depois da operação.

— Por favor, sente-se aqui, — um dos robôs apontou para a maca. — Apenas relaxe, será rápido.

Outro robô entrou na sala carregando uma bandeja com alguns equipamentos cirúrgicos e uma enorme seringa.

— Tire o casaco, — um robô disse, dando a volta e ficando atrás de mim. Eu obedeci.

O procedimento era bem simples. Eles fizeram uma pequena incisão na minha nuca, por onde inseriram um chip de controle dos litoângstroms e o ligaram ao meu sistema nervoso, passando pela minha cervical. Considerando que meu sistema nervoso já era artificial desde a primeira alteração que Henry tinha feito em mim para suportar o peso da Criação, foi tudo bem mais simples. A parte mais demorada foi apenas a calibragem em que eu mesma tinha que testar os comandos enquanto minha nuca ainda estava aberta.

Era um sentimento estranho, como se eu estivesse controlando um braço extra. Eu podia sentir cada pequeno litoângstrom sob meu comando e ordená-los de acordo com a minha vontade e imaginação.

Ao contrário daquela lama disforme que Emil tinha usado para me prender em Nefrandir, a nanotecnologia dos maskin já era capaz de assumir e principalmente manter qualquer forma, inclusive variar nos níveis de dureza de acordo com a quantidade de energia disponível. Sendo que eu poderia ser considerada uma bateria ambulante com auto resfriamento embutido, não haveria nenhum problema.

Eu poderia controlar também a cor, a textura e a espessura de qualquer objeto que eu quisesse formar. Eu ainda iria precisar de bastante prática para conseguir mudar rapidamente a forma dos objetos que eu criava, mas uma vez que eles fossem criados, eu poderia escolher “travar” esse formato e ele só seria desfeito caso fosse destruído ou eu ordenasse uma nova forma.

Basicamente, eu tinha um quebra-cabeças infinito que poderia assumir a forma de qualquer coisa que existisse. Eu só precisaria saber como exatamente era essa forma para conseguir ordenar corretamente o comando, mas eu tinha a Sabedoria para “pensar” esses detalhes por mim.

Quando a instalação do chip terminou e eles fecharam a incisão cirúrgica, eu me senti levemente tonta, como se todo o meu centro de equilíbrio tivesse sido alterado. Agora eu tinha que levar em conta que eu estava “carregando” não apenas o meu corpo, mas todos os litoângstroms que estavam ao meu comando.

— Aqui está o seu casaco, — disse o robô, me oferecendo de volta o casaco que eu estava usando antes.

Eu olhei para aquela peça de roupa e um sorriso escapou pelos cantos da minha boca. Graças à Sabedoria, eu podia facilmente determinar como montar um objeto, mesmo que eu ainda demorasse um pouco no processo. Eu estendi a mão, não para pegar o casaco, mas para o ar, de onde uma quantidade indefinida de pequenas partículas começaram a se reunir e formar uma réplica perfeita do meu casaco.

— Obrigada, mas eu não vou precisar mais… — eu disse satisfeita, vestindo minha “nova roupa”.

O toque era o mesmo que o do tecido, e eu podia trocar a cor à vontade. Isso com certeza iria me salvar bastante espaço com roupas, e como o chip de controle não ficava diretamente conectado a eles, mas seguramente protegido dentro da minha cervical, eu não precisava me preocupar de ser descoberta, mesmo pelos melhores scanners e detectores de tecnologia que tinham por aí.

Mikal já estava esperando do lado de fora. Ele olhou para mim, como se procurasse encontrar alguma coisa diferente:

— Deu tudo certo?

Eu confirmei sorridente.

— Então, acho que agora nós temos que planejar nosso plano de ataque.

Nós dois voltamos até o lado subterrâneo para nos reunir novamente com a fantasma d’água, para discutir como deveríamos fazer nosso ataque. O que sabíamos até agora era que se tratavam de Dragões de Thara renascidos. Não sabíamos quantos, nem quantos filhotes ou adultos. Mas apesar de não terem mais alma, todas as funções fisiológicas deles deveriam estar funcionando. Qualquer um que ficasse para trás poderia continuar fazendo estragos nos servidores de Maskin.

— Eu tenho uma ideia, — eu disse enquanto discutíamos as opções. — Eu posso sugar o calor de todo o lugar. Eles vão naturalmente se concentrar onde ainda estiver quente. Então, podemos fazer uma armadilha para lidar com eles.

— Isso é possível? — a fantasma d’água perguntou.

— Não. Isso é um movimento suicida. Você não tem controle sobre esse poder para usar em larga escala. Vai acontecer o mesmo que aconteceu no seu planeta, e você vai acabar se ferindo gravemente de novo.

— Dessa vez eu não estou sozinha, estou? — Eu retruquei — Meu corpo absorve energia por que ela é a matéria prima para criar outras coisas. Então, toda a energia que eu absorvo tem que ser convertida em algo. O mais fácil pra mim é transformar em eletricidade, mas mesmo assim isso ainda é realmente difícil de controlar. Mas se eu tiver ajuda, algo para canalizar a eletricidade que eu produzir e tirá-la de mim, então ela não vai entrar em conflito dentro do meu corpo e eu vou ficar bem.

— Você quer dizer… como um aterramento? — Mikal perguntou. Ele não entendia os meus poderes, e estava se esforçando para não tentar saber demais, mas ele estava realmente preocupado.

— Acho que sim, mas talvez algo mais eficiente. Se eu vou estar lá embaixo tirando o calor, vai ser lá embaixo que a eletricidade vai sair também. Não vai ser como quando eu estava lidando apenas com o calor à nossa volta que causou alguma estática. Seria perigoso se ocorresse uma sobrecarga que queimasse os servidores que ainda estão intactos.

— Parece um bom plano. Eu irei avaliar a viabilidade e ver quais são as melhores formas de lidar com a energia excedente que você produzir. — A fantasma d’água parou por um momento, levantando a cabeça para cima enquanto absorvia um fluxo impressionante de informações e fazia todos os cálculos necessários. Impressionantemente, isso só levou alguns segundos. — A sua ideia é viável. Nós inclusive poderíamos enviar apoio quando a temperatura fosse reduzida para lidar com os répteis, mas isso iria expor o seu poder, então ainda seria necessário que os dois lidassem com eles. Pelos meus cálculos, a temperatura voltará a subir aos mesmos níveis por volta de 10 minutos após você parar. A janela de tempo é bastante curta. Acha que pode dar conta?

— Bom, se não der tempo, sempre poderemos fazer mais uma vez. — Eu sorri, garantindo à fantasma d’água. Eu podia sentir que a preocupação dela nesse momento era que nós desistíssemos, uma vez que nosso acordo já tivesse sido cumprido. Afinal, eu não precisava ter sucesso, eu só precisava tentar. — Eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para consertar o núcleo central e resgatar Maskin, — eu assegurei.

— Então tomem cuidado. Nós também faremos tudo o que for possível para fornecer todo o apoio que necessitarem, — ela assegurou, agradecida.

— Dito isso, vamos nos preparar. Assim que estiver tudo pronto, nós vamos descer!

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

5 Comentários

  1. Mano, eu preciso me confessar… eu não consigo ler Dragões de Thara sem pensar em um dragão tarado ou pervertido.
    Obrigado pelo capítulo Nega Fulor

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