DCC – Capítulo 170

Conferência interplanetária

 

Marco Gionardi:


— … do Quadrante 117 encerraram oficialmente os conflitos internos. Os representantes dos sistemas planetários que antes tinham se mantido neutros também se reuniram em assembleia e elegeram uma nova soberania como representante do quadrante. O eleito estará vindo para Keret nas próximas semanas para tomar posse do título de nobreza, juntamente com uma delegação de governantes locais.

— Ótimo… — eu respondi com a voz arrastada. Não tinha nada mais maçante do que os relatórios de andamento dos governos planetários. Não dava para eu avaliar todos os planetas individualmente, então eu tinha uma comitiva de assessores que cuidava disso pra mim. Cada um era responsável por me passar um relatório bem resumido com qualquer informação digna de nota. — Próximo.

A imagem projetada girou e mostrou outra pessoa. Também não dava para me encontrar pessoalmente com todos eles, só ouvir os relatórios já tomava um dia inteiro, então as reuniões eram feitas por meio de conferência em um auditório virtual. Mas eu preferia focar em uma pessoa de cada vez. O próximo relator parecia um pouco nervoso. Todos parecem nervosos quando falam comigo, mas esse parecia um pouco mais.

— Senhor… três planetas do Quadrante 118 cessaram comunicações nas últimas semanas. Enviamos um pedido de comparecimento, mas sem resposta até o momento. Tentamos contatar por outros meios, mas não tivemos sucesso. Estamos preparando uma comitiva para averiguar cada um pessoalmente.

— Houve algum indício de desentendimento com o Império ou outros planetas associados? — eu perguntei um pouco mais interessado.

— Não, senhor. Eles simplesmente cessaram as comunicações sem nenhum aviso prévio — o relator respondeu muito nervoso.

— Muito bem. Mantenha o plano atual. Envie uma comitiva para solicitar uma reunião com os representantes locais.

Algo estava errado. Mesmo que fosse uma falha mecânica, o relator teria recebido uma resposta do próprio sistema informando a incapacidade de conectar as chamadas, já que usávamos tecnologia de comunicação via entrelaçamento quântico. Mas esse não era o caso. De acordo com ele, os planetas “cessaram as comunicações”. Isso quer dizer que eles deliberadamente não estavam respondendo as chamadas.

Os planetas do Quadrante 118 lutaram muito pelo direito de se tornarem parte do Conglomerado Imperial. Eles não iriam simplesmente ignorar as relações diplomáticas. E mesmo que fosse algo do tipo, três planetas ao mesmo tempo? Algo com certeza deveria ter acontecido.

Os relatórios continuaram maçantes até o último quadrante pertencente ao Conglomerado Imperial. A exceção de que um ou outro relator ainda apontava um planeta que não estava respondendo as chamadas de comunicação, nada mais estava acontecendo. Ao todo, doze planetas estavam sem resposta. Isso não tinha precedentes.

A conferência foi encerrada deixando todos com uma expressão confusa e preocupada. Essas pessoas tinham o mínimo de inteligência para perceber que algo estava acontecendo. O sistema de comunicação de doze planetas diferentes não quebraria ao mesmo tempo. Por garantia eu ainda tive que exigir que comentários sobre o ocorrido não fossem divulgados até termos mais respostas.

Ainda faltavam alguns meses para o dispositivo terminar de ser preparado. O prazo de oito meses já estava acabando, e já estava nas fases finais. Eu me senti inquieto por um momento… Será que daria tempo?

Caramba, eu não podia simplesmente esperar para as delegações reportarem as condições dos planetas. Uma das vantagens de ser eu é que eu poderia ter acesso a qualquer informação sobre qualquer lugar, graças à Sabedoria. Enquanto eu caminhava lentamente para fora da sala de conferências, eu já estava vasculhando as imagens das câmeras dos centros políticos desses planetas.

Os meus passos arrastados ecoavam pelo corredor deserto do palácio quando eu parei. Eu podia ver o problema. Eu troquei o foco para outra câmera, e depois para outra e mais outra. Eu precisava checar isso.

Por meio de um dos meus autômatos bio sensoriais que estava resolvendo outros pormenores do trabalho imperial, eu contatei os guardas, e logo o alarme silencioso do palácio foi ativado. Enquanto eu corria para o meu apartamento, os guardas corriam de um lado para outro para ocuparem os seus postos.

Se fosse antes de Dhar me atingir com aquela maldição de forma traiçoeira, me prendendo em Keret, eu mesmo iria pessoalmente até esses planetas ver com meus próprios olhos. Porém, uma das vantagens do imperador é que em todos os planetas associados ao império, eu tinha uma instalação onde um autômato bio sensorial estaria à minha disposição em casos de emergência. E o que era mais urgente que isso?

Enquanto os guardas tomavam seus postos para proteger apenas a sede do palácio, eu baixei o raio do escudo protetor para ter o máximo de energia disponível. Eu poderia transferir minha consciência para esses autômatos sem interferir no escudo, mas eu tinha um mal pressentimento. O máximo de energia que eu tivesse à minha disposição seria melhor.

Assim que cheguei no meu quarto, iniciei o processo de conexão com um dos autômatos dos 12 planetas. Como eu imaginava, o processo foi suave e sem interferências, já que não precisava de alguém do outro lado para autorizar a minha entrada.

O autômato se ativou bem lentamente. Parecia mais pesado do que o normal, como se fosse velho. Eu levantei minhas mãos e olhei para elas. Elas eram velhas. Até mesmo o sistema de projeção de imagem não estava funcionando para exibir a minha aparência real. Quantos anos teria esse troço? Setecentos? Oitocentos? Mil? Talvez até mais…  Mas como isso era possível? Os autômatos bio sensoriais eram feitos sob medida para o usuário. O que significa que os meus autômatos mais antigos tinham no máximo algo em torno de 50 anos.

Não só isso, até mesmo o ambiente à minha volta parecia velho e abandonado além da razão. Parecia que ninguém vinha aqui há séculos. Porém, a última comunicação foi feita há poucas semanas. Além disso, a possibilidade de eu ter me conectado com o lugar errado era nula.

Sentindo as articulações rangerem, eu andei para fora do prédio sem perceber uma única alma viva sequer, até estar de frente para o que deveria ter sido uma rua movimentada. Haviam vários veículos enferrujando ao descaso no meio das ruas. O próprio ar parecia ter uma aparência de desolação.

Eu continuei caminhando até um dos carros e passei aquela mão artificial no para-brisas para ver o lado de dentro. Haviam duas pessoas lá. Ou o que sobrou de duas pessoas depois de séculos. As duas múmias raquíticas estavam abraçadas quando morreram.

Eu podia passar o restante do dia caminhando entre aquelas ruas. Trocar de autômato e ir investigar os outros planetas. Mas a resposta era a mesma. Estavam todos mortos. Todos, sem exceção.

O tempo tinha sido acelerado impiedosamente. As pessoas perceberam de repente que estavam envelhecendo a uma velocidade alarmante. Mas não era simplesmente isso, era muito mais cruel. O tempo começou a correr mais rápido para os corpos deles, mas isso não alterou suas percepções.

Quando essas pessoas começaram a sentir o efeito de dias se passando em apenas poucos minutos, seus organismos começaram a entrar em colapso. O corpo funcionaria e gastaria a energia de vários dias, e não teria como repor, até chegar ao ponto de entrar em colapso. A maior parte morreu de fome e de sede em pouco tempo antes mesmo de perceber o que estava acontecendo.

Se o corpo deles estivesse envelhecendo na taxa de 1 dia por minuto, em meros 5 minutos, os primeiros começariam a entrar em colapso pela falta de energia no corpo. No máximo em 10 minutos, a maior parte já estaria desnutrida e desidratada. Em menos de 15 minutos todos já estariam mortos. Mesmo que as autoridades pensassem em chamar ajuda, ou avisar outros planetas, não teria dado tempo.

Eu expandi minha consciência por toda a vastidão do planeta, apenas para checar o que eu já sabia. Até mesmo as bactérias e os fungos e toda a fauna e flora do planeta estavam extintos sem terem mantido a capacidade de se nutrir a tempo e de reproduzir. Eu olhei para as mãos enrijecidas do autômato novamente.

Então ele já tinha começado…

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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