DCC – Capítulo 171

Evolução

Alésia Latrell:


Já tinha pelo menos meio ano que a minha breve estadia em Maskin tinha começando. Eu tinha subestimado completamente o subsolo do exotitã que revestia todo o planeta. A praga dos Dragões de Thara tinha se espalhado como fogo em combustível e levamos muito tempo para conseguir eliminar todos.

No começo, continuamos com a estratégia em que removia o calor excessivo dos arredores, assim aqueles bichos mostrariam a cara para recuar, mas era muito ineficiente. Assim, formamos um plano de ir cercando cada área que ia sendo limpa por uma grade elétrica, assim eles não voltariam até o mainframe que era a parte mais delicada.

As áreas que foram isoladas aos poucos foram sendo reparadas por droids controlados pela fantasma d’água, que na verdade era a personificação de um conselho de várias inteligências artificiais que tinham se agregado. Eu acompanhava essas pequenas expedições de reparo para ajustar a temperatura ao redor das máquinas, para que elas não falhassem por conta do superaquecimento.

Aquilo aos poucos foi resolvendo o problema. Com a quantidade cada vez maior de servidores consertados e cada vez menos dragões, a quantidade de informações processadas começou a voltar ao equilíbrio e o mainframe que estava sobrecarregado saiu da zona de risco e voltou a trabalhar normalmente.

Nesse dia, Maskin, a entidade que nasceu da inteligência artificial que foi criada para ser o núcleo central, voltou a se comunicar com o mundo externo.

Maskin era tão excêntrico quanto tinha me parecido na primeira vez que conversamos no sonho. Maskin também nos explicou como aquela tragédia tinha acontecido:

Dhar tinha aparecido há alguns anos recrutando artes elementares para segui-lo em uma investida contra os mortais. Maskin tinha interesse em muitas coisas, mas não nisso. Ele não via sentido em deixar seu mundo pacífico em busca de uma guerra que não era dele. Dhar não tinha ficado satisfeito, e depois de receber vários nãos, ele finalmente desistiu de tentar convencer Maskin.

A partir daquele momento, não era mais um convite, mas uma coação. De acordo com Maskin, Dhar dominava a Onipresença em um nível que ia muito além do que Mikal poderia dominar. Ele poderia ir e vir de qualquer lugar do universo para onde bem entendesse, não importava a distância, como se ele fosse dono do próprio conceito do espaço.

Dominando esse nível de Onipresença, ele tinha lançado mão de um enorme grupo de Dragões de Thara renascidos no subsolo sem que ninguém da superfície percebesse. Quando vieram dar conta dos problemas, a situação já estava desesperadora.

O plano era mostrar para Maskin que a existência dele era tão frágil quanto a de qualquer outro mortal. Desde que seu “corpo” fosse destruído, sua consciência se perderia, e ele deixaria de existir. Dhar queria liderar as entidades superiores para a libertação da prisão carnal e expurgar todos aqueles que manchavam a perfeição do universo imortal com suas vidas efêmeras e sem significado.

Isso fez eu me sentir tão enojada. Tanto que eu tinha lutado para manter a minha vida e poder viver e decidir por mim mesma. Marco e Dhar eram a mesma categoria de pessoas: loucos controladores que exigiam que o mundo funcionasse de acordo com a vontade deles. A diferença é que Marco queria que todos o servissem, enquanto Dhar queria que todos morressem.

Enquanto estávamos em Maskin, ocasionalmente dávamos uma escapada de volta para Sátie, onde eu passava uma tarde com meus pais. Mamãe praticamente não me perdoou, até perceber o saldo na conta bancária dela tinha variado drasticamente. Depois disso, ela ao menos aceitou minhas explicações… e devolveu a maior parte do dinheiro, já que mesmo que aceitasse minhas desculpas, ela não tinha como verificar a procedência do dinheiro.

Mikal também aproveitou a oportunidade do tempo que passaríamos juntos para começar o meu programa de treinamento. Eu contatei o Professor Theo Yuri e ele me ensinava a teoria que eu precisava, enquanto Mikal me ensinava a prática.

A filosofia de Mikal era a de que não há teoria que supere a prática. Eu ainda me lembrava da primeira aula que tive na academia onde o professor tinha explicado as três etapas da mentalização para se tornar um artista mágico: o conhecimento, o domínio e a técnica.

Eu já tinha passado da parte do domínio, o que tecnicamente era bem fácil. O problema era a técnica. Mas ter acesso à nanotecnologia dos maskin foi uma mão na roda. Da mesma forma que eu precisava mentalizar exatamente o que eu queria materializar. Forma, cor, textura, tamanho, peso… todos os detalhes precisavam ser contemplados pela minha mente, ou eu iria criar um produto falho.

A magia também era assim, eu precisava pensar em todos os detalhes da arte que eu queria invocar para que ela criasse o efeito correto. Quanto mais clareza e domínio eu tivesse da minha técnica, mais poder ela teria. Então todos os dias Mikal me treinava para controlar a minha versatilidade na hora de invocar meus feitiços.

— A sua técnica de nomear esses seus truques é uma boa ideia. Quando você mentaliza o nome do feitiço, sua mente se enche com os pensamentos sobre o efeito que essa técnica tem. Mas, desde que você a criou, elas nunca evoluíram, por que você não aumentou a dificuldade dos encantamentos, — Mikal me explicava.

— E como eu aumento a dificuldade dos encantamentos? — eu perguntei.

— Veja essa faca na sua mão… — Ele apontou. Eu olhei para a minha novíssima faca feita com os litoângstroms. Ela era leve, maleável, fácil de ser manipulada, extremamente afiada e era um excelente condutor de eletricidade. Eu poderia direcionar facilmente a eletricidade do meu corpo para qualquer lugar a usando como um para-raios. — Você pensou em todos os detalhes pra criá-la de primeira?

Então eu pensei na primeira vez que eu criei uma faca com a nanotecnologia. A faca saiu um pouco mais pesada do que era necessário. Eu achava que ela precisava ser mais consistente para ter mais resistência. Mas eu cansava muito rápido carregando-a daquela forma, e a resistência também não era tão grande quanto eu precisava. Várias vezes ela tinha quebrado antes de entrar na pele dos dragões.

Depois, eu tive a ideia de usá-la para direcionar a eletricidade que saía do meu corpo, mas ela não era uma boa condutora de energia. Todos os problemas que eu ia encontrando, aos poucos eu modificava os detalhes para que na hora em que eu comandasse os litoângstroms para se tornarem uma faca, eles se tornarem precisamente o tipo de faca que era mais adequada para mim.

— Se você conseguiu evoluir essa arma para que ela se adequasse ao seu estilo, então você consegue fazer isso com seus encantamentos. É claro, quanto maior a quantidade de detalhes que você inserir em um feitiço, mais complicado será para invocá-lo corretamente e, principalmente, em tempo hábil. Se você for adicionando camada por camada de detalhes às suas artes enquanto as pratica, aos poucos elas irão ficar complexas e poderosas, e serão invocados facilmente apenas pelo fato de você pensar no nome da arte. Por exemplo: Essa arte que você chama de “Marionete”, eu tenho uma parecida que é chamada de “Manipulação remota”, ela foi criada depois de anos e anos de mestres que reformularam o texto do encantamento várias vezes até chegar no nível em que ela está. Quando a pessoa decora o texto, compreende o seu conteúdo e domina a sua técnica, então atende aos três requisitos da mentalização e pode invocar o feitiço. Tecnicamente, todas as pessoas já nascem com um potencial ilimitado para invocar qualquer arte, desde que elas estudem e treinem diligentemente.

Depois disso, eu comecei a pesquisar feito louca por todos os textos de feitiços de Onipotência e Onisciência que eu pude encontrar. A quantidade era absurda, então eu precisei filtrar os mais interessantes que eu poderia usar. Haviam artes cujo o texto das técnicas de invocação não passava de 1 linha. Tinham outros que apenas um dos efeitos do feitiço precisava de várias páginas de descrição. O meu maior interesse no momento era melhorar o meu “Ponto de Impacto” e dominar outros tipos de escudo.

Já que eu finalmente entendi essa teoria, e desde que eu tivesse a sabedoria, que era uma enorme trapaça na hora de relembrar as coisas, eu apenas precisava de alguma prática, e logo eu já estaria dominando as técnicas. Mas haviam três coisas que eu precisava aprender a controlar com precisão. Uma era a minha Obliquação, e as outras eram tanto o meu poder da Criação quanto o meu poder da Aniquilação.

Desde que eu tinha avançado nos estudos sobre a teoria das artes mágicas, eu já tinha aprendido perfeitamente o que eram as antíteses. Considerando os efeitos de uma arte mágica, a Criação por exemplo, que poderia criar matéria do nada apenas usando a minha vontade depois de absorver a energia ao meu redor, a Aniquilação poderia desfazer essa mesma matéria, ao ponto de que nem mesmo os átomos sobrariam para contar história.

Por outro lado, a antítese da Transformação de Henry deveria ter algo a ver com o advento da destruição que Marco falou. Enquanto ele poderia pegar qualquer matéria e transformar em outra completamente diferente e criar qualquer molécula e combinações químicas possíveis e impossíveis, ele também poderia desfazer essas combinações e fazer qualquer átomo de ouro voltar a ser hidrogênio.

A desculpa de Marco era que se Henry ficasse com raiva suficiente, ele poderia simplesmente reduzir um planeta a nada. Humpf… como se ele fosse diferente… como qualquer pessoa com poder suficiente fosse diferente. Mesmo eu vez por outra me pegava remoendo as melhores formas de fazer Marco pagar pelo que ele nos fez. Eu só não tinha poder suficiente ainda para cobrar essa dívida.

Mas, uma vez que eu saísse desse planeta, eu iria caçar cada um dos que me fizeram sofrer e usar eles como amoladores para minha faca. Eu teria poder suficiente para cobrar e dar o troco.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

6 Comentários

  1. Me pergunto qual seria a antítese da Sabedoria… aliás, por que o Marco deixou uma coisa tão incrível e tão perigosa com a pessoa que com praticamente toda a certeza iria querer arrastá-lo para o Inferno? xD

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