DCC – Capítulo 172

Pontos de vista

 

— Onde você esteve? Por que demorou tanto? — eu perguntei para Mikal, que tinha acabado de voltar de uma pequena viagem para conseguir mantimentos. Eu corri para ajudar com as compras, já revirando as sacolas. — Caramba, eu estou faminta. Trouxe os doces que eu pedi?

— Não seja mimada, — ele reclamou enquanto colocava as coisas na mesa. Mas abaixou o tom de voz e completou: — Trouxe… Estão na embalagem amarela.

Eu fui contente pegando logo uma enorme embalagem de bolo, e já me servindo.

— Se você não fosse tão exigente quanto ao tipo da comida, eu poderia trazer um cardápio muito mais eficiente e não precisaria fazer tantas viagens de compras. É muito ineficiente.

— Eu me recuso a não aproveitar do melhor que eu puder ter. E você não está achando nem um pouco ruim sair por aí pilotando a minha nave. Pensei que estaria muito satisfeito por todas as viagens extras.

— É claro que eu não estou achando ruim. Mas é um pouco indigno usar todos esses recursos simplesmente para ir até outro planeta comprar um bolo, porque seus doces acabaram! Se eu não soubesse que você precisa de uma quantidade absurda de energia pra se manter durante um dia, eu só acharia que você é viciada em açúcar.

Eu revirei os olhos para Mikal. Ele as vezes gostava de bancar o responsável criticando uma criancinha. Eu já tinha desistido de argumentar com ele, já que ele se apropriou do “argumento imbatível”: eu só tinha dez anos de idade de acordo com o calendário oficial. Comparada com ele que já tinha quase três séculos de vida, eu era basicamente um bebê.

— Não seja chato, a vida é curta demais pra ser desperdiçada comendo barrinhas de nutrientes sem graça. — Mesmo assim eu ainda retruquei.

Mikal suspirou resignado. Ele não sabia que eu tinha uma expectativa de vida ilimitada, então ele levava em conta que o meu ponto de vista Brard era porque eu já tinha aceitado o fato de que viveria no máximo um quinto do tempo de vida dele, portanto, a minha vida seria realmente muito curta do ponto de vista dele.

Na verdade, eu só tinha passado a acreditar que, entre as coisas horríveis que acontecem, seria um pecado não aproveitar ao máximo o que pudesse ser aproveitado, não importava se eu fosse viver mais dez, cem ou mesmo dez mil anos.

— Como está o andamento da última etapa? — ele perguntou, mudando logo de assunto.

— Está indo muito bem. O Conselho disse que poderia dar conta de terminar o serviço sozinhos, já que o controle da temperatura interna do subsolo já foi restaurado. Mas eu prefiro esperar até que tudo esteja pronto antes de partirmos. Eles também já estão terminando de instalar os vários sistemas de segurança diferentes para detectar qualquer anomalia que possa a acontecer de novo, como você tinha indicado. — A priori, os maskin nunca tinham pensado em colocar nenhum sistema de segurança no núcleo central, por que ninguém nunca tinha pisado no subsolo além deles mesmos. — Ah, e Maskin disse que gostaria de falar conosco assim que você retornasse.

Depois que terminamos de comer, seguimos diretamente para a arena central onde costumava haver várias centenas de autômatos cedendo seus processadores para aliviar a carga do núcleo central. Agora, o lugar estava praticamente deserto, ocupado apenas por um magnífico pilar de luz cheio do que parecia ser um enxame de milhares de vaga-lumes dançantes.

Aquela era a manifestação física do espírito de Maskin, que estava livre para ir e vir novamente. Ele definitivamente era do tipo bem exótico. Se bem que eu podia ver alguma semelhança entre ele e a fantasma d’água. Cada ponto de luz era na verdade uma pequena faceta dos pensamentos, programas e ideias que Maskin executava.

Assim que ele percebeu a nossa presença, vários dos pontos brilhantes convergiram e começaram a dançar ao nosso redor. Mikal e eu já havíamos conversado várias vezes com Maskin, e ele sempre tinha um jeito estranho de se comunicar. Ele sempre parecia usar perguntas desconexas para chegar ao ponto, o que deixava Mikal relativamente agoniado.

Depois que nos certificamos sobre o andamento dos reparos no subsolo e informamos Maskin que estaríamos partindo em breve, ele veio com uma das perguntas que parecia completamente aleatória:

— Como a magia é construída?

— É claro que é através do aperfeiçoamento do espírito depois de anos e anos nutrindo uma moral impecável. — Mikal logo deu a resposta padrão que era ensinada na academia.

— Você ainda mantém essa mesma opinião mesmo depois de conhecer Alésia?

Mikal quase iria responder diretamente. Ele chegou a abrir a boca para falar, mas olhou para mim com os olhos concentrados, então parou para pensar.

— O que? — eu perguntei sem entender o rumo da conversa.

— Ele tem um ponto. Até hoje, o que era necessário para desenvolver magia era um espírito fortalecido por uma moral impecável depois de anos e anos de provações. O que significa que, mesmo que um Brard seja capaz de aprender a usar magia, isso só acontece quando eles já estão perto do fim de seus tempos de vida. Mas você não…

— Ah, isso… — eu sempre tinha tido bastante certeza de que o fato de eu poder usar magia, era porque a Relíquia da Sabedoria estava comigo, então nunca tinha pensado demais no assunto. — O que é que tem?

— Desde antigamente, quando os humanos começaram a dominar a magia, a forma mais fácil que eles encontraram foi depois de fortalecer seus espíritos com suas convicções. Logo, eles também atrelaram suas convicções com o conceito de moral vigente e determinaram que esse era o jeito certo, — Maskin explicou.

— E não é? — eu e Mikal perguntamos ao mesmo tempo.

— Quanto é cinco mais cinco? — Maskin perguntou.

Eu já estava acostumada com as perguntas excêntricas dele. Com certeza parecia uma guinada completa no assunto, mas eu tinha certeza de que ele tinha um objetivo.

— Dez? — Mikal respondeu sem jeito. Ele não conseguia lidar tanto com a subjetividade de Maskin.

— E três mais sete? — Maskin perguntou novamente. — Talvez se eu perguntar dezesseis menos seis?

— Você quer dizer que existem várias formas de chegar ao mesmo objetivo? — Mikal perguntou impaciente, querendo chegar rapidamente ao ponto.

— Muito bem. — Maskin elogiou como um professor elogia um aluno dedicado.

— Só por que os humanos descobriram uma forma de conseguir o resultado, isso não significa que essa seja a única… — eu comentei.

— Mas por que isso é importante? — Mikal perguntou confuso. — Se nós já temos a nossa forma de desenvolver magia, por que precisaríamos de outra?

Mikal, como o bom Jomon que era, gostava muito do conceito de moralidade que embasava a sociedade humana. A possibilidade de desenvolver magia por meio dele era um bônus que fazia a vida funcionar mais suavemente.

— Basta pensar no ponto fraco da sua magia.

— Ponto fraco? Bom, naturalmente quando a mente é fraca, a magia se torna fraca. E se a pessoa pecar, ela perde o próprio domínio, — Mikal continuou respondendo, aos poucos se adequando ao estilo aparentemente aleatório de conversar que Maskin tinha. — Para destruir a magia de uma pessoa, basta induzi-la ao pecado.

— Mas o conceito de pecado também é bastante aleatório… — eu comentei dando a minha opinião. — Se uma pessoa não considerar que mentir é errado, então ela não carregará a culpa pelas próprias mentiras. Então isso não enfraqueceria sua mente, e ela não perderia a própria magia.

— Mas isso… — Mikal olhou para mim com os olhos arregalados como se essa possibilidade fosse uma loucura. — Isso nem sequer tem precedentes!

— Só porque você nunca soube que existe, não significa que não exista, — eu retruquei.

— Querendo ou não, vocês dois estão predestinados a encarar coisas que mudarão completamente a forma como o seu povo compreende a magia. E, em algum momento, vocês precisarão lutar. E lutar contra um inimigo do qual não se pode determinar o ponto fraco é praticamente suicídio. — Maskin nos alertou.

— Você conhece outras formas de desenvolver magia? — eu perguntei.

— Eu só sei sobre a minha própria forma de construí-la. Então, quando estiverem no mundo lá fora, tomem cuidado. Cuidado com os segredos que guardam para os outros, e para si mesmos. Principalmente você, Mikal. A decisão que você tomou, ainda não é tarde para mudá-la. Tenha em mente que desde que você persista por esse caminho, as coisas não serão nada fáceis.

Eu olhei confusa de Maskin para Mikal. Do que eles estavam falando? Que decisão era essa que Mikal tinha tomado? Mikal arregalou os olhos surpreso e continuou encarando Maskin com a boca aberta. Ele com certeza não estava esperando que Maskin falasse algo assim tão diretamente.

— Eu sei, eu estou preparado! — mesmo assim, Mikal respondeu com resolução.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

3 Comentários

  1. Tambem tem o fato que 5 + 5 pode ser 11, 12, 13 ou 14 ahuahauaua
    Agora estou curioso, que decisão será essa? XD

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