DCC – Capítulo 174

Traição?

 

Mikal Stanislav:


— Ahh! — Ela gemeu de dor de repente.

— O que foi? — Eu me virei alarmado, pensando que talvez tivesse deixado passar algum dragão e que ela tivesse sido ferida.

Alésia estava com a mão no peito e o rosto contorcido. Parecia que algo muito ruim tinha acontecido.

— Meu coração dói! — ela disse entredentes enquanto respirava com dificuldade. — Não… não o coração… Algo aconteceu com Henry. Ele não está bem!

— Como… como você sabe? — eu perguntei me aproximando dela. Ela parecia que iria entrar em colapso a qualquer minuto. — Por acaso é o laço da alma?

Alésia confirmou com um olhar aflito enquanto abraçava o próprio peito tentando se manter firme. Mas o que estava havendo, afinal? O laço da alma não deveria ter esse tipo de reação, a não ser que o outro lado fosse traído ou abandonado. Mas não tinha como isso ter acontecido.

— Eu preciso… falar com Amelie, — ela disse suplicante.

— Certo. — Eu sabia quem era Amelie, mas para Alésia entrar em contato com ela, precisávamos sair do subsolo. Então eu a coloquei nos braços e saí voando a toda velocidade para a superfície. Eu só vim parar quando já estava na margem do lago da fantasma d’água.

— O que está havendo? — a fantasma se materializou e perguntou preocupada. Ela nunca tinha visto Alésia reagir daquela forma. — Por que ela está assim?

Eu coloquei Alésia no chão e a observei enquanto ela se encolhia de dor. Esse tipo de reação aos laços de alma era o principal motivo para muita gente evitar esse tipo de união caso não tivesse certeza absoluta sobre o amor um do outro. Se nada tivesse acontecido realmente, então alguém tinha feito uma intriga muito eficiente para magoar os sentimentos de Henry por Alésia, ao ponto do laço torturá-la tanto.

— Eu não tenho certeza, — eu respondi inquieto. — Ela parece estar tendo uma reação a uma arte mágica, mas eu não sei dizer o porquê.

— Sophia… — Ela forçou o nome entredentes.

— Sophia? Você quer dizer o seu console? — a fantasma d’água entendeu imediatamente o que Alésia estava pedindo. Sem que eu percebesse, ela já tinha entrado em contato com os responsáveis pelo nosso alojamento. — Estará aqui em alguns minutos. Aguente firme.

Sem nenhum imprevisto, o console de Alésia foi entregue em pouco mais de dois minutos. Os maskin eram realmente muito eficientes na hora de realizar tarefas. Enquanto um deles estava entrando no alojamento para pegar o console, outro já estava com o transporte preparado esperando na porta, e o elevador já estava preparado para descer até aqui.

Alésia Latrell:


Por que dói tanto? Henry… o que aconteceu? — Eu pensava desesperada. Eu sempre sentia um incômodo tolerável por conta da minha separação compulsória de Henry. Eu podia sentir que ele estava sofrendo pela minha falta tanto quanto eu estava sentindo a falta dele. Mas isso já era sacanagem.

Só que Henry sofria ainda mais, tendo perdido o livre arbítrio e sendo obrigado a ficar debaixo das asas de Marco, tendo que obedecer o tempo todo as ordens daquele canalha. Mas, por algum motivo, Henry estava com medo de me perder. Foi um medo terrível que veio de repente. Parece que algo tinha o feito acreditar que eu o abandonaria, e isso abalou as estruturas do nosso laço.

Bom, eu não precisava me esforçar para saber que isso com certeza deveria ter o dedo de Marco. Henry era inseguro quanto a mim, coisa que eu nunca havia sentido, mas eu tinha que entender que ele também tinha uma história cercada de traições. Não era tão fácil confiar plenamente em mim, como eu confiava nele.

Eu precisava urgentemente entrar em contato com Amelie. Precisava saber o que estava acontecendo. Assim que eu peguei Sophia, eu me conectei imediatamente na primeira frequência imperial que consegui localizar. Com a ajuda da amplificação de sinal que vinha naturalmente de Maskin, era fácil conseguir uma conexão rápida.

Para a minha surpresa, Amelie atendeu a chamada quase no mesmo instante. Normalmente ela demoraria um pouco até encontrar um local tranquilo para poder conversar comigo, mas agora parecia que ela estava esperando por mim.

— Alésia! — ela chamou angustiada do outro lado. — Eu estava tentando te ligar agora há pouco…

— O que aconteceu com Henry? — eu perguntei tentando forçar a minha voz a sair normalmente.

— Eu não sei dizer. Mas algo com certeza está acontecendo. Normalmente, o imperador sempre fazia vista grossa para a minha presença aqui no palácio. Ele até mesmo permitia que eu me aproximasse de Henry já que quando eu estava por perto e passava suas mensagens ele ficava mais calmo. Mas hoje ele enviou guardas para me passar um recado de que “meus serviços não serão mais necessários”. Eles me deram até o fim do dia para eu deixar o palácio. Além disso, o imperador foi pessoalmente visitar Henry hoje e os dois saíram juntos agora há pouco.

Amelie falava muito rápido. Ela parecia estar realmente nervosa com a situação.

— Marco vai deixar você simplesmente sair do palácio? — eu perguntei, estranhando. — Ele sempre foi o mais preocupado em manter o segredo. E você sabe… ele não tem medo de que essa informação venha a público?

Amelie era a única pessoa além de mim, Henry e Marco que sabia que eu estava portando a Sabedoria. Não tinha como Marco deixar uma fonte de informações tão valiosa solta por aí.

— Eles não vão simplesmente me colocar para fora. Arthur vai vir aqui me buscar. Eles vão me deixar ficar com o casal Sruar. Mas Alésia… eu estou com medo… as coisas aqui não parecem normais. Os ânimos no palácio parecem muito instáveis. E todos estão cada dia mais tensos. Alguma coisa muito séria está acontecendo.

— Como assim? — eu estranhei. Mesmo nas vezes em que Amelie reportava como Henry estava de mal humor ou até mesmo destruindo tudo em volta dele, ela nunca tinha comentado sobre a reação das pessoas do palácio.

— Eu não sei dizer. Mas há algumas semanas o imperador parece ter ficado mais ocupado. Todos os autômatos que ele deixava ligados pelo palácio tomando de conta dos demais afazeres oficiais foram desligados, e ele não está mais recebendo comitivas. Todas as reuniões e agendamentos foram cancelados sem previsão de retorno. Além disso, eu fiquei sabendo que Rael irá retornar no final do período da academia daqui a alguns dias e ele não terá mais permissão de sair.

— Isso é mesmo muito estranho… — eu comentei quase sussurrando. Se tinha uma coisa que eu entendia de Marco, era que ele realmente era quase compulsivo com o trabalho dele. Não tinha como ele deixar as obrigações de lado sem um bom motivo. Além disso, por que chamar Isaac de volta? Eu sempre pensei que Marco tentasse manter uma boa relação com ele. Não tinha como ele revogar isso… tinha? — Não se preocupe Amelie, vá com o Sr. Sruar. Se você quiser, pode ficar hospedada o tempo que for necessário na nossa casa no Distrito Vinnie. Eu vou tentar descobrir o que está acontecendo.

Eu precisava entrar em contato com Henry. Eu precisava saber o que diabos Marco tinha dito a ele para que ele ficasse tão aflito. Henry tinha emoções muito fortes, então ele sofreria mais do que o normal por algo que não valeria a pena. Mas se Amelie tinha sido colocada para fora do jogo, então eu precisava de outra maneira de entrar em contato com Henry. E a minha melhor chance, era interceptar Isaac antes que ele viajasse de volta para casa.

Depois de terminar a chamada com Amelie, eu respirei fundo e tentei me recompor. Eu considerava que eu tinha uma tolerância bem alta a dor, mas aquele aperto no laço da alma era de forçar a barra. Mesmo assim eu travei os dentes e me coloquei em pé, me sentindo levemente nauseada e um pouco desorientada.

— Mikal, temos que partir, — eu informei engolindo em seco.

Nesse momento, eu precisava engolir a dor e resolver o que tivesse que ser resolvido.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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