DCC – Capítulo 175

Troca de emoções

 

Eu acabei me despedindo às pressas de Maskin e da fantasma d’água. Eu apenas me demorei o suficiente para garantir a eles que eu voltaria sempre que possível, e que eles podiam contar comigo se precisassem de ajuda novamente. Maskin não era alguém que eu podia deixar de manter uma boa relação. Então, eu embarquei no banco passageiro da nave, e deixei Mikal pilotar em direção à academia. Não tinha como eu pilotar na velocidade máxima nas condições que estava.

Mesmo com toda aquela dor, preocupação e raiva, ainda havia uma leve excitação ao pensar que eu veria Briane, Márcia, Michelly, Isabel e Isaac de novo. Eles também eram pessoas preciosas na minha vida a quem eu queria bem. Tudo o que estava acontecendo era culpa de Marco. Ele com certeza tinha usado alguma vulnerabilidade de Henry para deixá-lo ainda mais frágil, o que seria ótimo para a necessidade de controle que ele tinha sobre todos.

A viagem duraria mais de um dia. Infelizmente, o Exotitã Athena onde o planeta Maskin ficava já era fora dos limites do império humano, então não era uma questão de poucos parsecs. Mesmo assim, um dia de viagem já era algo consideravelmente absurdo se levasse em consideração a velocidade das outras naves. A nave mais rápida no mercado levaria pelo menos três semanas imperiais para fazer esse trajeto, sendo que elas ainda usariam todos os pontos de salto nos Espaço-portos ao redor dos planetas mais movimentados.

Enquanto Mikal pilotava, eu me concentrei em tentar ganhar equilíbrio do meu próprio corpo. A punição do laço da alma tinha vindo por causa dos sentimentos conturbados de Henry. E como ele não tinha como entrar em contato comigo para se acalmar, eu não tinha como me livrar dessa sensação por meios normais.

Mas eu também tinha que considerar que nem eu nem Henry fazíamos as coisas por meios normais. Se eu podia sentir o desespero de Henry, então eu tinha que arranjar uma forma de fazer com que ele sentisse o que eu estava sentindo também. Se ele soubesse que estava tudo bem comigo, então era possível que ele se acalmasse. Afinal, ele tinha que confiar em mim.

Assim, eu fechei os olhos e me concentrei profundamente no selo que entrelaçava nossas almas. Quando fiz isso, eu pude sentir claramente o fragmento quente de energia espiritual que Henry tinha colocado dentro da minha alma quando eu me entreguei a ele. Da mesma forma, ele tinha um fragmento da minha própria energia espiritual dentro dele, e portanto ele também poderia sentir as minhas emoções por ele.

Eu respirei fundo e abracei aquele fragmento assustado de energia espiritual. Quando a minha alma fez contato direto, a dor se intensificou mais ainda, e eu pude sentir meu corpo se contorcer tentando suportar. Mas eu não soltei.

Eu não podia soltar.

Eu tinha que fazer ele entender.

— Não importa onde eu estiver, ou o que tente nos separar. Eu não vou desistir! Você precisa acreditar em mim. ­— Eu falei para aquele pequeno fragmento.

Eu repeti várias vezes. Tantas vezes que eu entrei em uma espécie de transe e aquelas palavras se tornaram meu mantra. Eu tinha que repetir, até que ele entendesse. Até que ele acreditasse. Até que ele sentisse.

Várias horas já tinham se passado quando finalmente eu consegui algum efeito. O fragmento da energia espiritual de Henry parou de se debater. Mas não havia nenhuma grande melhora. Ele parecia estar se sentindo culpado. Depois que finalmente se acalmou, eu pude sentir exatamente o que estava acontecendo naquele turbilhão de emoções que vinham de Henry.

Ele sentia alguma espécie de culpa. E essa culpa cresceu para um medo. Medo de ser abandonado. E enquanto essas emoções cresciam desenfreadas, ele acabou se convencendo de que eu iria deixá-lo.

Isso não era do feitio de Henry. Ele tinha alguns problemas de insegurança e um pavio curto, mas com certeza não era do tipo que se deixava levar dessa forma. Principalmente por algo tão inconcreto quanto especulações. Naquele momento eu tinha mais certeza do que nunca: Marco definitivamente tinha dito ou feito alguma coisa com Henry.

Considerando o sadismo compulsório de Marco em fazer com que todos o obedecessem na base da ameaça, parecia que não bastava simplesmente tirar todo o livre arbítrio de Henry. Parecia que Marco pretendia tirar toda a esperança dele também.

Quando finalmente saí do meu estado meditativo, eu vi Mikal também em um estado semelhante, observando o universo passar ao nosso redor do lado de fora da nave. Ele fazia isso para melhorar a própria compreensão de espaço que ele tinha e assim se aprofundar mais ainda na arte da Onipresença. Era por isso que ele era tão apaixonado por essa nave. Os conceitos que ela usava iam muito além dos que ele dominava por si mesmo. Ele talvez até pudesse competir com a velocidade que ela tinha, mas não poderia replicá-la em um objeto sem gastar do próprio esforço, como Henry tinha feito.

— Você acordou… Está se sentindo melhor? — Mikal sussurrou sem tirar os olhos da janela.

— Pode-se dizer que sim… — eu respondi de volta.

O espaço do lado de fora era apenas uma série de distorções de cores e luzes sem forma que passavam tão rapidamente que eu sequer era capaz de compreender. Onipresença tinha feito sentido para mim, por mais que eu ainda tentasse compreender o que quer que seja que fizesse a arte funcionar. Nem mesmo a Sabedoria podia me ajudar com isso, o que era consideravelmente frustrante. Se eu pudesse rasgar o espaço à minha disposição como Mikal, as coisas seriam bem mais fáceis.

— O que estamos indo fazer na academia? — Mikal perguntou quase casualmente.

— Eu preciso encontrar uma pessoa… — Eu tinha prometido a Isaac não revelar que ele estava na academia. Então, mesmo que Mikal descobrisse eventualmente, eu não podia quebrar minha promessa. — Além disso, eu quero voltar atrás em uma decisão que talvez tenha sido errada.

Mikal esperou que eu continuasse e explicasse que decisão tinha sido essa, mas como eu não expliquei, ele entendeu que eu não queria ou não podia falar, então  não insistiu em querer saber do que se tratava.

Na verdade, se eu pretendia falar com Isaac, eu iria contar tudo.

Eu iria abrir o jogo completamente com ele sobre Marco, e contar tudo o que eu sabia que Marco tinha feito contra Henry. Era culpa de Marco que a vida de Henry tinha desandado, e culpa dele também que a mãe de Isaac não tinha suportado continuar nesse mundo.

Será que Marco provavelmente queria atormentar Henry até que ele não suportasse mais e também desistisse? Eu não iria permitir.

Antes eu respeitava a decisão de Henry de deixar que Isaac tirasse as próprias conclusões, mas eu não tinha como esperar por esse dia. Se Marco tinha feito tudo o que fez com Nádia e Henry apenas por causa de uma lenda estúpida, então o que ele não faria com Isaac? Henry tinha me dito que Marco foi sinceramente um grande amigo. O que só tinha piorado o golpe da traição. Henry amava Marco mais do que ao irmão estúpido que tinha tentado nos matar. E ambos traíram Henry.

Então o que impedia Marco de fazer o mesmo com Isaac? O fato dele estar sob a bandeira de “filho” não me dava nenhuma sensação de segurança. No momento em que Marco viesse a achar que precisava usar Isaac para os esquemas e as manipulações que ele fazia, eu não duvidava de que ele faria isso sem sequer pensar duas vezes.

Portanto, eu tinha que interceptar Isaac antes que ele voltasse para Keret e contar a ele as verdades sobre Marco. Custe o que custar.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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