DCC – Capítulo 177

Talvez esse seja o problema

 

O tempo era curto. No momento em que dei as coordenadas para Mikal, ele nos mandou para uma dimensão paralela e rasgou o espaço diretamente para dentro do apartamento de Isaac.

— Não dá pra sair… — Mikal disse olhando ao redor. — Tem vários artistas ao redor desse lugar.

— Então como eu consigo falar com ele? Ele não está usando o Link pessoal agora! — Você consegue trazer ele com a gente e fugir?

Mikal olhou ao redor como se estivesse avaliando alguma coisa que eu não conseguia enxergar.

— Sim, mas eu não posso carregar vocês dois ao mesmo tempo, — ele disse finalmente. — Além disso, esses são artistas imperiais. Não vai levar mais do que 3 minutos, talvez menos, para eles pegarem nosso rastro e nos acharem assim que o garoto sumir.

Isaac corria de um lado para o outro do quarto juntando os pertences numa mala. A maior parte das coisas já havia sido empacotada. Parece que ele estava se preparando para partir há dias.

— Nos mande para cá… — eu disse passando as coordenadas da casa de Henry. Ela ainda estava desocupada.

Mikal era bem eficiente. Ele pegou as coordenadas no mapa, avaliou a distância e em um segundo eu já estava na casa… nossa casa… Meu coração ainda doía apertado pelo laço da alma. Mas, naquele momento, eu tive medo que fosse passar a minha dor para Henry. Todas as boas memórias que nós tínhamos entre essas paredes. Eu tentava empurrar esses sentimentos para o lado e tentar lidar mais facilmente com a nossa separação, mas olhar para o lugar onde ele havia me pedido em casamento e me tomado nos braços tantas vezes era doloroso demais.

Eu precisei respirar fundo e com força para engolir as lágrimas que queriam sair. Agora não era hora de lamentações.

Menos de um minuto depois, Mikal apareceu com um baque violento carregando Isaac pelo braço. É claro que Isaac não ia se deixar ser levado facilmente do nada dessa forma, então ele tentava acertar Mikal com toda a força que conseguia conjurar com a Onipotência. Mas ainda não era força suficiente para quebrar as barreiras de defesa de Mikal.

— Eu vou tentar ganhar tempo. Seja rápida!

Mikal se posicionou no canto e abriu os braços criando uma barreira temporária isolando o espaço em que estávamos. Quando Isaac percebeu que Mikal falava com alguém, ele se virou e me viu. Isaac imediatamente parou de se debater contra Mikal e me olhou com uma expressão chocada.

— Alésia… você voltou! — ele disse fracamente.

— Isaac. Não temos muito tempo. Precisamos fugir!

— Fugir de quem? — Isaac perguntou aturdido.

— Desses caras que estão querendo te levar embora…

— Mas eles são da guarda do palácio! Eu conheço eles a vida toda. São os homens mais confiáveis do meu pai. O que está acontecendo?

— O problema é justamente esse! Eu tentei seguir a vontade de Henry e deixar você construir sozinho sua opinião sobre Marco, mas ele é um cretino controlador… — Isaac respirou fundo depois de ouvir isso. Ele olhou para baixo pensando em alguma coisa enquanto mordia o lábio inferior. Parecia relutante. — Ele usou uma coroa horrorosa para enganar Henry e deixa-lo preso no palácio. Henry está sofrendo, e não tem mais nenhuma forma de eu entrar em contato com ele.

— Coroa horrorosa… — Isaac repetiu as palavras levantando os olhos e voltando a me encarar. Por um momento eu senti uma vaga semelhança entre aquele olhar e o de Marco. — Pai me avisou que isso ia acontecer. Eu não quis acreditar, afinal você é minha melhor amiga. Você é esposa do meu pai biológico. — Você tem a alma da minha mãe… eu o ouvi pensar alto que até mesmo Mikal virou o rosto, apesar de ele não conseguir pronunciar as palavras verbalmente. Desde quando ele sabia disso? — E mesmo assim você decidiu nos abandonar e fugir.

— Do que você está falando? — As palavras de Isaac realmente me pegaram de surpresa. Ele estava bravo comigo? Eu ignorei a mágoa que brotou em minha alma e continuei — Marco fez sua cabeça contra mim… Você tem que prestar atenção à sua volta. Henry está preso no palácio sendo controlado por Marco.

— E por que você não escolheu ficar ao lado dele? — Isaac acusou. O garoto doce e curioso que costumava andar ao meu lado não estava mais ali. — Se você o ama tanto, podia ter escolhido ficar ao lado dele nesse momento, mas preferiu fugir. Agora que seu laço da alma está te punindo, você resolve voltar arrependida. Eu posso ver as ondulações na sua aura…

— É mais complicado do que isso, Henry foi preso…

— Pai Marco me explicou o que aconteceu. E você podia muito bem ter ficado no palácio ao lado do pai Henry, mas decidiu partir sozinha. Eu tentei entrar em contato várias vezes. Eu me preocupei com você!  Mas você passou meses fora! Meses! Você decidiu nos abandonar!

— Humpf… — eu debochei enquanto suspirava. — Marco já envenenou a sua cabeça contra mim. Não é assim que…

— Pense bem antes de continuar falando, já que parece que está insinuando que eu fui enganado pelo imperador. Não é bem o argumento mais esperto a se fazer.

— Você precisa escutar meu lado da história! — eu insisti. — Sei muito bem que Marco não deve ter mentido para você, mas nada impede de que ele tenha omitido.

— Então me ilumine! — Isaac disse cruzando os braços e levantando uma sobrancelha. — Pelo que eu saiba, é você que pode dizer o que quiser. Você é que é a obliterante aqui.

— Isso… isso não é justo. Eu… eu nunca usei meus poderes em ninguém.

— Mas podia, se quisesse. Você tinha todo o apoio do império ao seu lado. Podia ter apagado a depressão de pai Henry. Mas teve que deixá-lo sofrer até se tornar um perigo para si mesmo e para os outros. Ele te deixou ser sequestrada, vivendo em cativeiro por mais de um ano e meio, e quebrou os dois braços do Pai Marco! Isso não é normal! Podia ter tentado recuperar as memórias de Amelie. E até mesmo ela, você deixou para trás.

— Você está me culpando pela depressão de Henry? Eu nem sequer tinha nascido quando ele entrou em luto! O que eu poderia ter feito? Além disso, ele estava muito melhor, e você sabe disso. Mas parece que você esperava mesmo que eu tivesse usado essa magia para mexer nas mentes deles? Que autoridade em magia você acha que eu sou? Eu sou mais nova que você. Eu tenho menos tempo de prática, e você espera que eu enfie as mãos na cabeça das pessoas que eu amo?

— Se você realmente as amasse, não devia ter deixado elas para trás. — Isaac me acusou novamente. — Eu também acho que as medidas de Pai Marco talvez tenham sido um pouco autoritárias, mas foram necessárias. Os rompantes de violência de Pai Henry são muito perigosos. Você tem que levar em consideração que estamos no meio de uma sociedade Jomon. Decisões egoístas e individualistas não fazem parte dos melhores currículos.

— Eu sou uma Brard… — eu disse entredentes me forçando mais ainda a manter a calma.

— Talvez esse seja o problema, — Isaac disse.

Minha mente ficou em branco. Somente depois que meu coração doeu, que eu consegui reagir ao fato de Isaac ter tentado usar minha raça como insulto… Era quase uma dor física como a do laço da alma. E eu me senti realmente insultada… e por alguém que eu amava profundamente. Eu passei um bom tempo me contorcendo por dentro tentando segurar a vontade de meter a mão na cara dele.

— Um minuto… — a voz de Mikal soou abafada, me apressando.

— Quer saber… deixa para lá. Você já fez sua própria opinião. — Eu fechei os olhos, respirei fundo e pela primeira vez em meses, eu usei a obliquação para apaziguar minhas emoções. Então continuei com a voz arrastada e sem vida: — Você está certo. Eu podia ter deixado minha liberdade de lado e me rendido a Marco. Eu podia ter escolhido abandonar meu livre arbítrio e virado uma vagabunda nas mãos dele. Afinal, é isso o que qualquer Jomon teria feito. Mas eu não sou uma Jomon, não é? Não adianta eu querer a liberdade de Henry tanto quanto quero a minha. Só vale se eu estiver me sacrificando e me sujeitando a tortura ao lado dele… — eu comecei a ironizar. — Com certeza Henry está bem melhor agora, sofrendo com as coisas que Marco também disse pra ele. Eu esperava que você pudesse me ajudar a libertá-lo, mas você… tem que ser um Jomon, mesmo sendo apenas um mestiço hipócrita. Eu não sei o que Marco disse para você a ponto de você sequer querer saber o meu lado da história, e nem me importa mais. Se eu pudesse escolher, eu estaria numa boa com Henry vivendo a nossa vida. Mas eu não tive escolha…

Eu olhei profundamente nos olhos dele. Podia sentir que ele realmente tinha alguma raiva contra mim. Mas eu não podia fazer nada se ele não queria me escutar. Todos os anos que ele cresceu se sentindo abandonado pela família biológica, ele acabou jogando tudo isso sobre mim. Eu estava me sentindo tão ofendida e injustiçada. Eu sequer tinha pensado na possibilidade de ter filhos eu mesma, e já tinha que lidar com os problemas de maternidade da minha vida passada.

Só que apesar de eu não poder dizer que eu tinha amor materno por Isaac, eu realmente o amava. Ele era muito querido para mim, e eu sabia que ele estava apenas magoado. Só que eu também não podia pedir desculpas por que eu não me sentia culpada. Eu suspirei e me aproximei dele, ainda com o olhar vazio e o abracei. Isaac ficou rígido no lugar e só me deixou ficar ali por um tempo.

— Temos que ir. — Mikal me apressou.

— Para onde você vai? — Isaac apertou os olhos na direção de Mikal, avaliando ele, mas ainda perguntou com a voz quebrada e o sentimento de abandono crescendo mais ainda.

— Não importa pra onde eu vou, — eu respondi com a voz ainda indiferente.

Isaac alcançou minha mão e a segurou com força.

— Não vai… é claro que importa! Eu estava irritado por que você sumiu e nos deixou pra trás… Volta comigo para Keret… — Isaac chamou.

— O que espera por mim em Keret não é nenhuma alegria ou um lar feliz… Você diz que Henry quebrou os braços de Marco… mesmo que diga que ele é instável, mas você já se perguntou o motivo? Eu me arrependo por Henry… por mim, eu teria arrancado o braço inteiro de uma vez.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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