DCC – Capítulo 178

Conversa Franca

 

Mikal Stanislav:


O garoto ficou lá parado com uma cara de decepcionado depois de ouvir Alésia, como se tivesse levado um choque, soltou a mão dela e se afastou sem insistir mais para que ela ficasse. Os guardas imperiais eram sempre muito bons. Qualquer outro grupo de artistas onipresentes levaria pelo menos 10 minutos para conseguir passar pelas minhas barreiras e rastrear a minha localização. Mas eu gostava de trabalhar com uma margem de erro generosa.

O maior problema de fazer alguma coisa era planejar a fuga. Eles poderiam muito bem nos perseguir até eu ficar cansado se eles conseguissem colocar a mão no meu rastro. Então, eu não iria brincar com uma coisa dessas.

Ainda mais depois que eu percebi quem era o garoto, fora as outras coisas que eu ouvi. Eu juro que me esforçava bastante para não me meter nos segredos que não me diziam respeito, mas acho que para tudo existe um limite.

Eu agarrei Alésia e rasguei o espaço diretamente para dentro da nave e em poucos segundos já estávamos distante suficiente da academia a ponto de nem podermos mais vê-la à distância. Foi apenas depois de um tempo, quando eu finalmente tive certeza de que nosso caminho não estava sendo rastreado que eu relaxei um pouco.

Eu olhei para a garota, que estava encolhida no banco de copiloto abraçando as próprias pernas e com a cabeça apoiada nos joelhos enquanto olhava para fora. Ela tinha puxado o capuz o que estava dando uma aparência ainda mais sombria para ela. Pela primeira vez, olhar para ela estava me dando calafrios de medo, principalmente por que eu não podia sentir nada vindo da alma dela. Como se ela estivesse vazia.

— Pelo visto falar com o rapaz não deu certo… — eu disse tentando aliviar um pouco toda aquela tensão conversando.

— Como eu posso ficar mais forte, Mikal? — ela perguntou, girando a cabeça para mim e me olhando com aquela expressão vazia.

— Você já está ficando mais forte, — eu disse. — Você é praticamente uma aberração. Ninguém… Ninguém consegue desenvolver magia tão rápido quanto você. Mesmo os Jomons mais talentosos.

— Se eu fosse mesmo uma deusa, eu não deveria ser tão fraca ainda, — ela murmurou, parecendo que estava apenas falando consigo mesma.

— Está certo… Eu cheguei no limite. — Eu respirei profundamente. Eu nunca fui nenhum otário. Eu podia pegar as informações e entender o contexto mesmo sem todos os fatos. — Eu sei que eu disse que não queria saber, e que…

— Pergunte… — ela disse com a voz fraca como se não se importasse mais sem sequer esperar eu terminar de falar.

— O garoto lá na academia. Ele era o príncipe imperial… — Não foi uma pergunta. Hipoteticamente falando, ninguém além da guarda pessoal do imperador e alguns amigos próximos selecionados a dedo sabiam da identidade real do garoto. Me admirava que ela além de conhecer, tinha algum envolvimento pessoal com ele.

E mesmo que todos soubessem que ele existia, caramba! Marco era mais jovem do que eu por quase um século, e o filho dele já estava cursando a academia! E eu ouvi tão alto e claro quando qualquer coisa ele verbalizou… sobre a alma da mãe… Fora que a informação pública de que Isaac tinha nascido á menos de 20 anos era real. Alésia já era uma mini aberração, e ainda havia outro igual!

— Isaac é especial. A mãe dele era uma Brard também. Eu acho que você deve saber que Isaac, na verdade, é filho biológico de Henry… — eu engoli em seco ouvindo essas informações sendo contadas com aquela voz apática. — Quando a mãe dele morreu, Henry sofreu muito com o luto. Enquanto isso, Marco o criou como se fosse filho dele. Por causa da… natureza… dos pais, Isaac teve o próprio crescimento influenciado e se desenvolve muito mais rápido do que qualquer um.

— Tanto quanto você? — eu não consegui deixar de perguntar.

— Não.

— Então… você tem a alma da mãe de Isaac…

— Eu não sou ela, — ela disse com a voz um pouco mais firme. Parece que ela desprezava essa ideia.

— Eu sei que não. Pode parecer um conceito estranho para os Brards, mas é comum os Jomons terem acesso às memórias e às vezes a alguns sentimentos e experiências das vidas passadas. Mas isso não é nada diferente do que ver um filme ou ler um livro. Mas… — eu não sabia como perguntar isso corretamente. — O que tem de diferente na sua alma?

Ela sorriu. Parecia mais um deboche do que um sorriso verdadeiro. Ela olhou para mim com aqueles olhos vazios e ainda com um meio sorriso nos lábios antes de falar:

— Tem certeza que quer mesmo saber? Aparentemente esse é um segredo que sequer Henry sabe, — ela disse com um ar provocativo.

— Bem… eu posso saber? — eu realmente queria entender algumas coisas. Mas eu sabia do peso que era carregar algumas informações. Por mais que eu tivesse a confiança do imperador, tinha certas coisas que ele nunca me contaria por que não eram coisas que eu precisava saber. Eu não podia me dar ao luxo de saber algo que não era permitido.

— Se você quiser… eu não me importo, — ela disse ainda com aquele meio sorriso no rosto. — Provavelmente apenas três pessoas sabem desse segredo.

— Três pessoas? Contando com você e, suponho, o imperador, são duas pessoas. Mas se Siever não é uma delas… Eu não consigo imaginar quem mais tenha status para conhecer essa informação… Quem é a terceira pessoa?

O sorriso dela cresceu mais ainda. Sinceramente eu já estava para pedir que ela parasse com isso. Ela realmente dava medo nesse estado.

— Dhar.

— Dhar? O Dhar? O terrorista Dhar? — Eu vasculhei na expressão dela tentando encontrar alguma pista de que ela na verdade estava brincando comigo. Mas ela continuou com aquela mesma expressão macabra enquanto confirmava com a cabeça. — Você tem certeza que eu posso saber sobre isso? Eu realmente não me importo em continuar no escuro.

— Você quem sabe. — Ela me provocou.

— Conte logo de uma vez, — eu respondi irritado.

— Minha alma… eu sou o avatar de uma deusa, — ela disse. Não havia nenhum traço que era como quem estivesse se gabando ou usando metáforas.

— Uma deusa… — Eu repeti lentamente tentando absorver a informação, considerando que ela estava falando sério.

Se bem que agora, eu não duvidaria. Fazia pleno sentido. Ela me passava mesmo uma sensação estranha de como se fosse algo superior e inatingível como as artes elementares. Fora que ela mesma já tinha dito isso ainda mais cedo. Além disso, ainda tinham as magias estranhas que ela era capaz de executar.

— Então você é como as artes elementares, capaz de coisas que os humanos normais não podem…

— Não… não como as artes elementares. Algo muito mais superior. Algo mais… primordial.

Eu não queria nem perguntar o que isso queria dizer.

— Mas como que Dhar sabe disso? Por acaso você é parte de algum experimento que ele participou para incorporar divindades em seres vivos?

— Não, não… nada do tipo. É que ele é um deus também! — Eu quase me engasguei com saliva depois de ouvir isso. Então ela começou a balbuciar coisas como se estivesse comentando para si mesma. — Imagino que seja algo assim que ele esteja querendo fazer recrutando as artes elementares por aí. Mas somos de um tipo diferente.

— Então esse é o seu segredo? É por isso que os maskin foram tão corteses com você?

— Algo assim… — ela suspirou profundamente. — O que aconteceria com todo o poder divino de um deus, se sua alma encarnasse? Mesmo que um humano tenha uma alma divina, tecnicamente ele não deve nascer com magia por que o corpo não é capaz de suportar. Mas a magia não para simplesmente de existir. Então…

— Alguém recolhe essa magia e transforma ela em algo utilizável por um portador adequado — eu completei. Basicamente era o mesmo princípio com o imperador, de certa forma. Eles possuíam uma crisálida onde iam acumulando a própria magia juntamente com a dos predecessores. Tal item era inestimável, e resguardado como o último recurso do império. — Então você é alguém capaz de carregar um poder divino por conta de sua alma. Isso te torna virtualmente mais poderosa do que o imperador! Não é à toa que… Por que você o odeia?

— Marco roubou Henry de mim… ele me feriu e eu não tenho meios de revidar e me proteger contra ele. Eu não posso voltar para Keret ainda. Marco usou uma Marionete da Alma para capturar Henry, e ainda usou a vida dele para me ameaçar. Henry está preso lá, a mercê daquele canalha… se eu voltar sem nenhum peso para barganhar, ele só vai ser feito de peão para Marco tentar me subjugar. Eu não posso suportar ver Henry ser machucado daquela forma de novo.

A forma como ela falava aquelas coisas com aquela expressão apática era muito arrepiante. Eu tinha presenciado o fim da amizade de Siever e Marco. Por que Marco fez o que fez, ninguém sabia, mas esse era um dos grandes mistérios que me seguiu por anos sem resposta.

— Será que o imperador não teria tido algum motivo para fazer isso? — eu testei mesmo assim.

— Quem sabe… — ela disse fracamente, mas eu pude perceber que havia um motivo. Só que essa parte da história eu não estava apto a saber. Mas se ele tinha um motivo, e ela não podia aceitar a ponto de até mesmo Henry Siever ter de ser usado como moeda de barganha… o que poderia ser tão obscuro?

— Você deveria ter dito isso para o príncipe imperial… — as coisas realmente eram bem mais complicadas do que eu esperava. Todo esse tempo que eu imaginei o porquê de Siever não vir atrás dela. E pensar que ele estava sendo mantido refém…

— Ele não quis me ouvir… não iria adiantar muita coisa.

Eu suspirei, cansado. Ela ainda estava naquela mesma posição apática me olhando com aqueles olhos vazios como se estivesse sem vida. Era realmente incômodo.

— Você é mesmo uma obliterante? — a pergunta saiu antes que eu pudesse me conter. De novo, ela sorriu daquela forma bizarra, quase psicótica, sem nenhuma alegria.

— Você vai ter medo de mim se eu disser que sim? — ela disse.

O jeito que ela rebateu a pergunta me pegou um pouco de surpresa. Apesar de parecer que naquele momento ela não ligava para nada, eu podia ver que ela tinha vontade de que isso acontecesse.

— Depende… você vai usar isso em mim algum dia quando estiver com raiva? — parecia uma besteira, mas era a minha preocupação sincera.

— Henry uma vez me disse que ninguém deveria saber nunca sobre isso por que as pessoas do império temem os obliterantes. Eu nunca tinha entendido direito o porquê até o dia do incidente com Emil. Além disso, para alguém que preza segredos, eu nunca esperaria que Marco fosse contar para Isaac. E que Isaac contaria na sua frente…

— E sobre a minha resposta? — eu insisti reparando que ela ainda não tinha respondido.

— Eu não sei, — ela disse depois de pensar por um tempo. — Eu nunca seria capaz de usar esse tipo de magia contra um amigo. Mas eu não sei como as coisas vão estar amanhã. Eu confio em você, Mikal. Então, espero que você continue confiando em mim, e assim a gente não vai precisar descobrir se essa resposta vai mudar.

Eu sorri de nervoso. Parecia bastante com uma ameaça bem leve. Se alguém usasse magia obliterante para atacar outra pessoa com magia onisciente mais fraca, então a mente dessa pessoa viraria mingau. Na melhor das hipóteses, todas as memórias seriam perdidas. Então era tudo uma questão de o quão forte a magia obliterante dela era.

— Qual foi o mais longe que você já chegou usando essa arte? — eu perguntei. Era bom eu sondar melhor o terreno em que eu estava pisando.

— Acho que foram as vezes que eu estapeei Marco? — Ela disse franzindo o cenho tentando lembrar. — Não foi consciente, então talvez não conte.

Alésia estapeou o imperador…

Ela. Estapeou. O. Imperador??? E ainda por cima com o poder latente, e não intencional. Isso era o mesmo que dizer que se ela pudesse desenvolver esse poder, não haveria artista onisciente no universo capaz de parar ela. Definitivamente, não era alguém para se ter como inimiga.

— Sabe de uma coisa, eu tive uma ideia… — ela disse de repente. — Me leve até o local onde Emil está. Eu sei que você anda acompanhando as informações sobre ele. Eu quero trocar umas palavrinhas com aquele cara.

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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