DCC – Capítulo 180

Demônios do passado

 

Mikal Stanislav:


— Por que você quer morrer? Pensei que você presava muito pela sua vida… — Alésia tripudiou com aquele meio sorriso maligno. Emil voltou a se contorcer no chão, choramingando e resmungando. Alésia ainda continuou a provocar uma voz tentadora — Você não quer se vingar? Você não quer fazer a pessoa que fez isso com você sofrer da mesma forma? Não prefere algo assim?

Os olhos de Emil reviraram e ele se contorceu ainda mais no chão sacudindo a cabeça negando tão fervorosamente, como se fosse até um sacrilégio pensar em tais coisas. O que diabos Alésia tinha feito com ele?

— Por favor… por favor…

— Cale-se. Recomponha-se. Eu não consigo falar com você nesse estado. Me dá mais desprezo do que pena. E eu acho que você não quer que eu te despreze ainda mais.

Uma onda forte e instável de arte onisciente começou a oscilar ao redor de Emil. Ele parecia usar a própria magia para tentar se restabelecer. Pelo estado mental dele, ele já deveria estar completamente fora de si.

Depois de alguns minutos, ele ofegava fortemente no chão, mas já tinha conseguido parar de se contorcer e de choramingar. Definitivamente ele colocava muito valor nas ordens de Alésia. Alésia não falou com ele de novo até que ele pudesse se colocar de pé com um mínimo de dignidade.

— Eu não quero ver você rastejando por aí de novo dessa forma. Você desgraça Henry dessa forma.

O rosto de Emil se contorceu, mas ele não fez nenhuma reclamação. Eu conhecia o sujeito o suficiente para saber que o que ele mais detestava era ser comparado com o irmão.

— O que veio fazer aqui? — ele perguntou com a cabeça baixa.

— Você realmente tem esperanças, não tem? — Alésia comentou, apontando para o céu. Eu olhei para cima, mas não tinha nada além dos sóis e das nuvens. — Não pensou em se jogar diretamente numa estrela?

Emil sorriu com sofrimento.

— De que adianta? Eu provavelmente seria queimado vivo por anos até a estrela apagar. Eu já tentei de tudo. Nada adianta.

Para a minha surpresa, Emil enfiou a mão no bolso e retirou uma faca. Eu rapidamente ergui uma barreira entre nós achando que ele estava prestes a atacar, mas em vez disso, ele se esfaqueou.

A faca atravessou o peito dele bem no local do coração. Eu encarei aquilo com os olhos arregalados. Estava prestes a estender a mão, mas Alésia me parou. Então eu olhei melhor para a expressão de Emil. Não havia a menor flutuação. Parecia que ele nem estava sentindo.

— Humm… — Alésia caçoou dele. — Se fosse tão fácil se livrar da minha maldição, não teria sentido eu ter feito ela.

Ele retirou a faca do peito e começou a enfiar a lâmina no braço, mostrando a pele rachada para nós. A faca fazia um corte profundo sem nenhuma cerimônia e a pele que parecia morta não sangrava. Ele fez rapidamente vários cortes em sequência parecendo algo corriqueiro. Mas pouco tempo depois a pele de Emil voltava a se ligar e voltava ao estado original de antes de se ferir. Só que aquilo não parecia uma coisa boa.

Eu fui pra guerra.

Eu vi muita desgraça e desespero.

Mas por algum motivo ver Emil naquele estado me dava muito mais repulsa e ânsias do que qualquer outra coisa que meus olhos calejados já tinham se acostumado em ver. E isso tinha sido uma maldição de Alésia? Eu olhei para a garotinha do meu lado, com aquele ar impassível de quem nunca se abalaria com nada. Como se nada importasse a não ser suas vontades. Essa era realmente a bonequinha que tinha passado os últimos meses comigo exterminando as pragas de Maskin?

— Por isso eu estou aqui… — Emil disse, apontando pro céu também parecendo depositar todas as esperanças ensandecidas em algo que eu ainda não entendia o que era.

Do que diabos eles estavam falando?

— Mesmo que essas estrelas sejam destruídas sobre a sua cabeça, ainda vai faltar o meu perdão. E isso eu não posso te dar. Talvez um dia, se Henry interceder por você…

— Ele… está vivo? — Emil perguntou com os olhos esbugalhados.

— Eu não permitiria que ele morresse na minha frente.

— Claro que não… claro que não… — Emil suspirou. — Mas você ainda não disse o que veio fazer aqui…

Alésia olhou para ele de cima a baixo sem o menor esforço para esconder o desprezo que tinha por ele.

— Eu preciso de uma cobaia para testar meus poderes, e acontece que você é justamente ideal para isso.

Emil estremeceu violentamente.

— O que você quer fazer exatamente? — ele perguntou enquanto recuava levemente, mas sem se atrever a negar.

— Eu quero relembrar as memórias daquele dia pelo seu ponto de vista.

— Só… só isso?

— Talvez.

— Então… se… se você não pode me perdoar… p-pode pelo menos fazer uma concessão quanto ao meu castigo?

Alésia sorriu para ele com um ar arrogante e dominador. Essa era a primeira vez que eu a via exalar uma aura tão perigosa. Definitivamente eu tinha de convencer ela a destravar as próprias emoções de novo, se não seria um tormento continuar ao lado dela. Ainda mais sabendo que ela tinha a capacidade de fazer alguma coisa com Emil Siever ao ponto dele chegar no estado lamentável em que estava.

— Você parece que não entendeu, cunhadinho… Eu não vim aqui negociar. Eu vou pegar o que eu quero de você, quer você esteja disposto a me dar ou não.

Alésia estendeu o punho na direção de Emil, e uma ondulação de um tipo de arte mágica que eu não conhecia atingiu o corpo dele. Emil não conseguiu mais sequer se contorcer. Ele simplesmente caiu no chão bem ali na nossa frente e ficou de joelhos encarando Alésia como se estivesse na presença de um demônio.

Alésia se aproximou de Emil até poder tocar na testa dele. Ela iria remover as memórias dele. Eu hesitei por meio segundo mas logo depois que ela lançou mão de seus poderes em cima de Emil e entrou na mente dele, eu a segui.

Eu coloquei a mão diretamente em contato com a bochecha dela, que era a fração de pele mais fácil de tocar, e segui a consciência da garota para dentro da de Emil.

No segundo seguinte eu estava no meio de uma selva de pedras. Vários monólitos se espalhavam ao meu redor oceano adentro. O céu estava turvo e caótico. Era a Esfera Caótica. A barreira de arte onipresente que a Hus Stanislav era especialista em criar. Era capaz de cobrir uma área enorme e proteger milhões de pessoas. Mas tinha sido usada para cobrir apenas esse pequeno espaço de algumas centenas de metros quadrados. As leis do espaço se contorciam ao nosso redor tão ferozmente que pareciam capazes de rasgar a própria realidade.

Em um dos monólitos, eu vi Alésia, os irmãos Siever e outro rapaz que tinha desaparecido junto com Emil Siever, mas ele estava coberto por uma barreira de invisibilidade. Havia claramente uma outra barreira envolvendo Emil e Alésia como um escudo, enquanto Henry tentava furiosamente quebrá-la com os punhos, ao tempo que fogo subia ao redor dele.

Emil impiedosamente ria dos esforços do irmão e ao mesmo tempo torturava Alésia, que parecia incapacitada, além de estar presa em um composto de litoângstroms. Enquanto eu assistia de fora, eu vi o desespero de Henry e de Alésia. Na verdade, como aquela ilusão era criada pela combinação das memórias de Alésia e de Emil, eu podia sentir o que cada um deles sentia. Ação seguida de ação, até que finalmente o rapaz que estava escondido apareceu e apunhalou Henry Siever pelas costas.

Eu senti na pele a emoção de vitória e vingança emanando de Emil, e o desespero de Alésia. Até que ela também foi apunhalada por outra daquelas flechas enquanto segurava o corpo de Henry sem vida.

Eu tinha lido o relatório que a Casa dos Siever tinha preparado sobre o incidente mas eles tinham acobertado muitas informações. Eu sabia que Alésia tinha tido algum envolvimento, mas ainda assim não era algo desse tipo que eu esperava… e por que diabos Alésia iria querer reviver esse tormento? Quem estivesse preso naquela ilusão iria sentir de primeira mão o que tinha sentido no dia. Como se tudo estivesse acontecendo de novo. Toda a dor no corpo e na alma. Então, por quê?

Mas então as coisas começaram a mudar. Aquela onda sem paralelo de poder emanando de Alésia. Aquela sensação de domínio absoluto sobre tudo. E toda a raiva que ela tinha. Quase palpável. O ódio com que ela lidou com o rapaz Louie. E depois… a tão falada maldição contra Emil. Parecia que todo o planeta tremia de medo dela. Eu tremia de medo. Só de testemunhar o lado das memórias de Emil já era tremendamente traumatizante.

Quando tudo acabou e os dois se separaram, não havia mais como a ilusão de suas memórias combinadas continuar. Então nossas consciências foram jogadas de volta para a realidade. Meus dedos estavam gelados depois daquele tempo em contato com a pele dela. Ela tremia ao meu lado, com lágrimas escorrendo e um sorriso sádico. Emil, por outro lado, também tremia, mas de pavor.

Eu abri e fechei a boca várias vezes para falar, mas sinceramente não conseguia pensar em nada. Sentir toda aquela dor e ódio desses dois na minha frente de primeira mão não era lá algo que qualquer um pudesse fazer. Ainda era mais fácil para mim aturar, por que eu não tinha o amor de Alésia e o ressentimento de Emil por Henry. Então a minha experiência ainda foi relativamente incompleta.

Alésia respirou fundo enquanto cobriu os olhos com uma das mãos, mas sem desfazer o sorriso macabro da boca. Logo em seguida, sem nenhum aviso, ela concentrou toda a força no outro punho e desceu um soco violento na cabeça de Emil.

Emil saiu voando até bater com força na parede de trás dentro da nave e caiu com o corpo enrolado no chão enquanto choramingava de dor e medo.

— Alésia, não! — Eu tentei chamar.

Mas ela simplesmente saiu voando e sem dar tempo para Emil se levantar, começou a espanca-lo com toda a força que tinha. Hematomas cresciam e desapareciam logo em seguida do corpo maldito de Emil, mas a dor parecia que não desaparecia.

— Alésia!!! — Eu voei tentando pará-la. Porém, ela girou o braço e tentou revidar em mim. Nossos braços se travaram até que finalmente eu consegui estabilizar uma postura para que ela tivesse que parar de atacar. Lágrimas ainda escorriam dos olhos dela, mas ela ainda tinha aquele sorriso maníaco e os olhos vazios. Completamente fora de si. — Essa não é você!

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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