DCC – Capítulo 182

Reflexões

 

Mikal suspirou aliviado na minha frente. Eu podia ver que tinha assustado bastante ele.

— Ótimo. Agora tente se recompor. Quando estiver mais calma, repasse na sua mente tudo o que te magoa e tudo o que te fez sofrer. Tente pensar nessas coisas sob uma nova perspectiva. Talvez você seja capaz até de ver um lado bom. — Ele começou a me orientar.

Nós entramos na nave de Emil enquanto ele continuou choramingando na entrada. Era um modelo de expedição completo. Bem grande e aparentemente já tinha sido luxuosa, quase equipada com todas as funcionalidades de uma casa. Devia caber uma tripulação de pelo menos umas 40 pessoas se não estivesse abandonada aqui.

Lá dentro, encontramos uma pequena sala de conferências e sentamos lá. Mikal começou a vasculhar por lá, ignorando completamente a presença do dono.

— Humpf… esse maluco não tem um grama de comida ou água sequer nessa espelunca. Espere um segundo, — Mikal disse abrindo uma pequena janela no espaço e enfiando a mão lá. Depois de vasculhar um pouco, ele tirou alguns dos mantimentos que levávamos na nossa nave. — Aqui… beba um pouco de água e se concentre em relaxar. Reveja devagarzinho tudo o que te aconteceu até você chegar no ponto em que está. Encare realmente seus sentimentos, um passo de cada vez. E quando estiver pronta, deixe o passado para trás.

Depois de aceitar o sermão de Mikal, eu comecei a testar seguir o conselho que ele me deu. Bebi a água em um gole só e fechei os olhos, vagamente consciente de que ele estava acompanhando todos os meus pensamentos. Pela primeira vez eu tinha que encarar o fato de que realmente estava aproveitando o meu poder como obliterante para usar uma máscara e fingir que era forte. E o tempo todo isso só estava fazendo com que eu ignorasse o fato de que nunca tinha aprendido a superar nenhuma dessas coisas.

Encarar uma coisa de cada vez…

Eu já tinha voltado a Sátie e visto o que as pessoas que se diziam minhas amigas tinham se tornado depois de virarem as costas para mim. Naquele tempo tinha sido difícil, e eu fui muito magoada. Mas, graças a isso, eu não me tornei uma inútil aproveitadora igual a eles.

Depois de todos os… mal-entendidos… eu sabia que mamãe também tinha sofrido do jeito dela. Ela era minha mãe. Ela se preocupava. E eu ainda tinha magoado ela, e ela tinha ficado brava, mas eu sabia que ela estava aliviada por saber que eu estava viva. Mesmo já tendo passado mais de um ano em Sátie, quando eu pudesse voltar lá, ela ficaria feliz em me ver.

Eu relembrei de quando Henry me levou ao laboratório. Eu relembrei a dor de ter meu corpo inteiro reformado. A primeira vez que Marco me insultou. Quando eu o beijei e o fato de Henry ter fugido. Eu tinha raiva. Eu tinha sido abandonada. Eu estava aterrorizada e sozinha em um planeta totalmente novo, tentando o tempo todo fingir que estava tudo bem.

Eu relembrei Laplantine. Todo o tempo que eu passei naquela lua foi como um borrão. Eu tive que me obrigar a lutar para viver. Eu podia ter escolhido não lutar, e servir àqueles doentes com meu corpo, afinal eu via o que acontecia com os renascidos que não serviam para o combate. Mas eu aprendi a lutar. Eu queria viver e, entre as minhas escolhas, lutar foi o caminho que eu segui.

E eu sempre tinha que lutar mais e mais, contra adversários mais fortes e mais numerosos. Eu cheguei a um ponto em que a minha dor física já não era algo tão intolerável. Eu aprendi a lidar com ela. Mas a solidão, o desespero… o medo de ser abandonada? Eu não podia encarar esses sentimentos. Então eu comecei a fingir que não sentia essas coisas. Inconscientemente eu acabei usando a Obliquação para apagar a minha própria mente, e deixar de fora apenas meu instinto de sobrevivência, até que eu realmente me tornei a Ruiva de Sangue que Demetre tanto se esforçou para construir.

E no fim, eu não tinha sido abandonada. Eu tinha medo, mas me tornei forte ao ponto de ser capaz de lidar com as lutas e com o meu corpo ferido. Eu comecei a aprender a usar magia por mim mesma, cercada pela resolução de que viver era o mais importante. Que eventualmente eu poderia sair daquele inferno, que um dia eu teria minha liberdade de volta.

Eu me agarrei a Henry com força depois que ele me tirou daquele buraco. Mas eu ainda tinha medo de me envolver. Eu ainda tinha medo de ser abandonada. De ser deixada para trás. Eu tentava manter minha cabeça erguida no meio de todos aqueles Jomons, mas na realidade, eu tinha plena consciência de que eu sempre fui apenas uma Brard jovem e insegura, sendo obrigada a arcar com o estilo de vida Jomon. Apesar disso, todo o incidente em Nefrandir só me fez ter certeza de que eu realmente amava Henry.

Eu estava feliz… eu estava tão feliz… Eu tinha amigos, e tinha Henry… Até Marco aparecer para estragar tudo.

Mikal Stanislav:


Ela sentou na cadeira, tão pequena e se encolhia mais ainda abraçando as pernas. Alésia fechou os olhos e começou a repassar diligentemente tudo o que aconteceu na vida dela nos últimos anos. Eu acompanhei atentamente cada memória que ela repassava. Eu costumo pensar que os jovens exageram muito nas reações que tem ao encarar algum problema. Muito disso é por conta da imaturidade emocional. O problema é que se um jovem está triste por alguma merda qualquer, não importa o que for ou se não valha a pena, ele ainda vai estar triste.

O sentimento ainda vai ser real, mesmo que a situação não seja condizente. Mas esse não era o caso de Alésia. Ela realmente tinha passado por algumas coisas bem macabras para uma criança como ela. Tudo simplesmente tinha sido uma grande mudança atrás da outra. E cada uma mais terrível. E ela tinha o que? Dez ou onze anos imperiais? Eu só cheguei a ver sangue pela primeira vez com mais de um século de idade. Um acidente qualquer, com uma vítima anônima. Eu já tinha visto coisa muito pior. Eu já tinha feito algumas coisas bem piores… mas eu ainda hoje me lembrava daquela primeira vez.

Já no curto espaço de pouco mais de 3 anos imperiais, a vida dela já tinha sido virada completamente ao avesso várias vezes. Pelo menos o lado bom é que essa arte obliterante que ela usava em si mesma conseguiu impedir que sua mente entrasse em colapso. Acho que não tem muita gente que teria sangue frio o suficiente de encarar essa vida de peito aberto.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

4 Comentários

  1. Eu acho que aquilo não era água. Pensa comigo, o cara é praticamente imortal e o maluco quer morrer mais do que tudo no universo, pra quê ele iria querer comer ou beber alguma coisa? Entenderam aonde eu quero chegar, né!?
    Obrigado pelo capítulo Mestra Fulor.
    (Desculpe só ter percebido isso agora.)

    1. Ela pode ter ficado com uma carga de emoções grandes, tão preoucupada e concentrada que ela pode não ter percebido.(ou talvez pode ser a minha esquizofrenia atacando de novo)

      1. Não entendi, a água não foi pega da nave dela? Mikal rasgou um espaço e pecou mantimentos (água), ou eu entendi errado?

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!