DCC – Capítulo 183

Congelado

 

Calico Bonny:


— O que você quer dizer com “acima da classificação 10”? — eu perguntei para Guilhermo, o meu primeiro imediato que veio alvoroçado me trazer a notícia.

— Nosso equipamento não conseguiu determinar exatamente a classificação da tecnologia que desceu para o planeta ontem. A única explicação é que o que quer que tenha pousado lá, levou algo acima da classificação 10.

O olhar excitado dele não era sem justificativa. As tecnologias de alto nível disponíveis no império humano eram classificadas em apenas 10 níveis diferentes. Quanto mais poderosa ou valiosa, maior o nível. Acima da classe 10, ou era alguma patente nova que não tinha sido disponibilizada para o público, ou algum desgraçado desses tinha conseguido botar a mão em algo realmente bom fora do império.

E me fez o grande favor de entregar bem na minha porta.

— Você checou para ter certeza se não era algum erro no sistema do radar? — eu perguntei só para ter certeza.

— Mas é claro! Eu não cometeria um erro desse nível. Definitivamente os dados estão corretos. Além disso, esse radar veio do povo Shariar fora do império humano. Eles têm uma tecnologia bem superior e mais confiável pra esse tipo de coisa.

Classificação acima do nível 10… Eu tinha que ser rápido. Se mais alguém tivesse um radar desses e topasse com o sinal que vinha do planeta, a competição não iria ser fácil. Mas também era burrice descer lá sem checar as coisas previamente.

— Mande uma patrulha checar a área. Eu quero a confirmação visual da situação em terra nos próximos 10 minutos. Enquanto isso, ajuste o curso da nave para ficar em prontidão.

Alésia Latrell:


Já estávamos há dois dias naquele planetinha inóspito. Eu pude presenciar de perto a decadência que a vida de Emil tinha se tornado. Nesses dois dias eu também me concentrei ativamente em tentar controlar a “quantidade de emoção” que eu me permitia sentir de cada vez, e até aquele momento o meu progresso tinha sido um redondo zero.

— Você não pode esperar conseguir alcançar resultados absurdos em tão pouco tempo. Sequer já ter conseguido determinar um limite é impressionante. — Mikal falava tentando me animar.

Emil por outro lado, só voltava para a própria nave quando era chamado. A maior parte do tempo ele evitava completamente qualquer contato direto comigo e com Mikal, e ia para o deserto se jogar na areia escaldante debaixo dos dois sóis e ficava lá resmungando pra que as duas estrelas se matassem de uma vez.

Mas uma coisa eu tinha percebido. Quando eu revivi as memórias junto com Emil, havia uma sensação que eu mesma tinha bloqueado, e que posteriormente Marco deixou de fora quando desbloqueou minhas memórias daquele dia.

Era a sensação de sentir…. tudo.

O vento…

A areia…

O chão…

Tudo estava lá, cheio de partículas. Cheio de matéria. Tudo à minha volta era algo que existia. Se existia, eu podia sentir. E se eu pudesse sentir… eu podia controlar. A minha mente humana ainda era muito limitada para compreender a grandeza disso. Por isso meu corpo não aguentava a pressão.

Quando eu despertei esse poder em Nefrandir, o planeta inteiro estava nas minhas mãos. O planeta inteiro! Com todas as pessoas, plantas, animais! Tudo. Isso era muita coisa para processar.

Como diabos uma mente humana daria vazão a tanta informação ao mesmo tempo sem explodir? Eu sequer poderia chegar ao ponto de conseguir dominar esse poder? Então realmente era bom eu aprender a controlar a minha Obliquação adequadamente antes de tentar. Eu não podia me dar ao luxo de falhar enquanto Henry esperava por mim.

— Ei, quanto tempo ainda vamos ficar aqui? Você já não conseguiu o que queria daquele cara? — Mikal perguntou agoniado. Ele detestava a ideia de permanecer nesse planeta. — Definitivamente eu nunca vou te aborrecer. O cara ficou medonho demais. Parece um zumbi sedento. Tenho nenhuma vontade de continuar nesse fim de mundo.

— Eu sinto que estou tão perto de entender o que eu vim buscar aqui. Eu sei que eu posso sentir o ar… mas como eu deveria sentir ele realmente para usar esse poder? — eu comentei ignorando a reclamação dele.

— Você talvez esteja precisando de outro gatilho… — Mikal disse casualmente parecendo distraído com alguma coisa no horizonte. — Eu já volto…

Mikal disse, e desapareceu sem dar mais explicações.

Dois minutos depois ele estava de volta com uma bola de metal amassada nas mãos.

— O que é isso? — eu perguntei vendo a coisa que ele trouxe.

— Um drone de monitoramento remoto. — Alguém estava querendo nos espionar. — É melhor a gente sair daqui. Estamos em pleno terreno aberto, somos alvos fáceis pros bandidos que rondam…

Mikal não terminou de falar. Eu me virei para ele confusa, mas ele sequer se mexia.

— Mikal? — eu chamei.

O olhos dele eram a única coisa que pareciam estar se mexendo. Todo o corpo dele estava paralisado.

— O que houve? — Eu perguntei diretamente para a mente dele.

— Isso… alguém travou completamente meus movimentos… sabem que eu sou um onipresente… eu estou preso.

— Ah… o que eu faço!? — Eu perguntei angustiada. Eu olhei para Mikal completamente congelado. Nem mesmo se eu o tocasse, eu conseguia mover qualquer parte do corpo dele. Parecia que o próprio espaço tinha sido solidificado ao redor dele.

Se ele não conseguia se mexer, tampouco mover as pálpebras para piscar ou a boca para falar, ele também não conseguia respirar. Mikal estava congelado como uma estátua, e se isso não parasse, ele poderia sufocar até a morte.

Enquanto eu ainda estava beirando o desespero sem saber o que fazer, uma enorme força de tração se agarrou na gente, nos puxando rapidamente para cima. Era uma abdução. Eu não resisti. Seja lá quem fosse, era a pessoa responsável por ter feito isso com Mikal. A forma mais fácil de conseguir desfazer seria indo direto à fonte.

A energia de tração nos puxou até o lado de dentro de um galpão sujo de uma enorme nave desconhecida. Eu consegui perceber vagamente que havia um escudo ao nosso redor enquanto vasculhava apressada atrás das pessoas que estavam ali.

— Quem são vocês? Por que prenderam ele? — eu perguntei apressada.

— A tecnologia está com ela? — um dos caras presentes, que tinha o rosto quase inteiro escondido pelos cabelos assanhados, perguntou apontando para mim.

— Sim, o radar aponta para a máscara no rosto do sujeito, mas o sinal de controle vem da garota.

— Uma garotinha com tecnologia tão alta e uma escola mágica… e vocês não conseguiram identificar o rosto dela no bando de dados dos Jomons? Ela não deve ser uma fichinha qualquer.

O cara se virou na minha direção e afastou os cabelos do rosto, me olhando atentamente tentando decidir se eu era ou não um bom alvo. Enquanto me olhava, a expressão facial dele foi mudando de curiosidade para choque, cada vez mais surpreso. Ele me conhecia por um acaso?

— A ruiva… A Ruiva de Sangue! — ele disse boquiaberto, apontando para mim.

Eu já não estava exatamente de bom humor. Mikal era um Jomon, o que significava que ele poderia resistir pelo menos uns 10 minutos naquela situação, mas eu queria muito desfazer logo isso. Mas se aqueles caras sabiam sobre a “Ruiva de Sangue”, então no mínimo, nenhum deles era gente boa.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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