DCC – Capítulo 184

Capturando reféns

 

— Se você sabe quem eu sou, por que está atacando a gente? — eu perguntei, apertando os olhos na direção do cara desgrenhado.

— Você fala por conta da história que dizem que Henry Siever apareceu pessoalmente para te levar? Tem muita gente que duvida. Só acredita quem viu pessoalmente a transmissão da luta na arena Laplantine aquele dia, já que todos os dados sobre você simplesmente sumiram de toda a macronet, — ele comentou, me observando sem mais preocupações. — Eu confesso que eu também duvidava. Mas se tem alguém nesse império humano que poderia deter tecnologia superior ao nível 10, esse alguém é Henry Siever. Se você é algum brinquedo que ele criou, então com certeza você vale uma fortuna.

— Eu sou uma pessoa. Você não pode medir meu valor por dinheiro. — Eu retruquei ofendida.

— Hahaha! Garota, não me entenda errado. Normalmente eu não me meto com tráfico de corpos. Mas negócios são negócios. E um ótimo negócio, é que tem muita gente interessada em colocar as mãos na lendária Ruiva de Sangue. E pode ter certeza, se o seu valor de mercado já era enorme naquela época, deve ter sido multiplicado várias vezes depois de seu nome ser associado ao do Siever.

— E quanto ao meu amigo? Ele vai sufocar se não desfizer isso! — Eu apontei angustiada para Mikal que estava começando a mudar de cor.

— Infelizmente para ele… ele é um onipresente. Eu tenho um grande empreendimento para cuidar aqui garotinha. Não posso deixar um onipresente me seguir. Paguei muito caro nessas crisálidas para não correr risco nas mãos desse tipo de gente. E pelas recompensas de hoje, elas realmente valeram cada centavo. Mas não se preocupe. Quando ele morrer, eu vou soltar o corpo dele no espaço para que ele descanse entre as estrelas.

O cara desgrenhado falou como se isso fosse alguma espécie de favor. Então, ele bateu palmas duas vezes e começou a passar ordens:

— Muito bem, todo mundo já olhou um pouquinho! Voltem para seus postos. Deem algum tranquilizante para a menina, mas sem contato direto… Eu assistia as transmissões das lutas dela. Se vocês chegarem muito perto, ela vai acabar arrancando o braço de alguém. O artista vocês podem jogar fora da nave depois de dopar. Não quero uma coisa dessas na minha nave.

Eu cerrei os dentes angustiada. A consciência de Mikal estava começando a enfraquecer. Apesar dele tentar pensar rapidamente em alguma forma de se libertar. Ele também começou a repetir que ainda não era tarde para que eu fugisse. Ele tinha me explicado: o drone tinha sido uma armadilha. Eles provavelmente tinham equipamento de vigilância muito superior nessa nave, mandar o drone foi algo feito com a intenção de se deixar ser descoberto.

Quando Mikal usou a onipresença para se aproximar e capturar a máquina, o feitiço armazenado dentro da crisálida que a esfera carregava foi ativado e o espaço ao redor dele foi imediatamente congelado. Não é que Mikal tenha sido descuidado. Mas esse tipo de tecnologia mágica… semelhante às crisálidas obliterantes, era algo completamente novo. Nunca havia existido nenhum tipo de equipamento capaz de capturar um onipresente na história. Não era algo que pudesse ser facilmente previsto.

Eu também não entendia nada de Onipresença, e aparentemente não tinha talento nenhum para esse tipo de arte. Então, eu não tinha como desfazer e salvar Mikal. Que merda eu poderia fazer? Eu não queria ter que ver Mikal morrer na minha frente. Ainda por cima uma morte tão ridícula.

O que mais me incomodava era que ele estava calmo. Ele repassava várias vezes na mente todas as possibilidades que tinha para se libertar e fugir, e ainda me instigava a tomar a frente e sair sem ele. Mikal estava disposto a sufocar até a morte sem dizer mais nada. Sem arrependimentos nem desespero.

Um gás começou a ser injetado no espaço em que estávamos. Provavelmente era o tranquilizante que o descabelado tinha ordenado para mim. Nenhuma outra forma seria eficiente mesmo. Aquele cara realmente tinha assistido as minhas lutas. Demetre penou bastante até conseguir uma forma de me controlar. Tudo o que esses caras precisavam fazer era usar as mesmas técnicas.

— Sophia, — eu disse irritada.

Sophia, assim como eu, tinha passado por algumas “melhorias” na nossa estadia em Maskin. O programa de inteligência artificial dela tinha sido reescrito para ser mais eficiente. Ainda não era ao nível de uma inteligência autossuficiente como a do povo maskin, mas era algo complemente superior ao que era antes. Combinada com a Sabedoria, ela, que já era uma ferramenta absurda, agora era imparável.

Eu removi o meu casaco, e o observei se desfazer até sumir completamente no ar. Os litoângstroms se espalharam pelas frestas do chão que não estava cercado pelo campo de força e entraram nos sistemas internos da nave. Enquanto isso, Sophia tinha recriado todas as autorizações da nave inteira. Eles estavam muito enganados se achavam que eu seria facilmente controlada de novo.

Enquanto eu já estava ficando tonta, um alçapão foi aberto e o corpo de Mikal foi ejetado para fora daquele galpão, sumindo no vazio bem na minha frente.

Enquanto eu tentava me manter consciente e acompanhava as tarefas que o console Sophia realizava rapidamente. A voz sintética repassava para mim o andamento:

— Instruções recebidas.

— Iniciando controle remoto da Primeiro Adler.

— Iniciando varredura da nave: Modelo Cargueiro modificado. Nome: Névoa. Criando novo usuário mestre. Alterando permissões dos usuários. Cinquenta e três usuários identificados.

— Iniciando fechamento das portas. Iniciando desligamento dos sistemas de comunicação. Iniciando desligamento dos sistemas de navegação. Iniciando desligamento dos sistemas de propulsão. Iniciando desligamento das luzes. Controle total da nave atingido.

— Todas as tarefas concluídas.

Console Sophia relatava rapidamente as tarefas que eu tinha passado. Eu sacudi a cabeça tentando voltar a ter um pouco mais de clareza. Essa quantidade de tranquilizando com certeza seria bem efetiva para derrubar um Jomon bem forte, mas ainda era insuficiente contra mim. Eles não levaram em consideração que o fato de eu ter passado um bom tempo sendo exposta a essas drogas tinha aumentado a minha resistência em muito.

Até eu ficar inconsciente, levaria mais 5 minutos respirando aquela coisa. E eu não iria ficar ali esperando. Mikal não podia esperar. Quando as luzes apagaram, e a tripulação começou a correr em pânico sem conseguir resolver o problema, eu saltei diretamente para o teto, e com um simples pensamento uma faca surgiu na minha mão.

Dessa vez, eu aumentei o comprimento dela e, usando a Onipotência para aumentar a minha força base, eu cravei a lâmina no teto. Enquanto ela estava atravessada no metal frio, Parecia que eu estava cortando um bolo macio, até arrancar um pedaço e sair na parte superior do galpão. Depois só coloquei o pedaço de volta no lugar e magnetizei de uma forma para que ele não caísse.

Tudo estava completamente escuro. Nem mesmo as luzes de emergência tinham sido ligadas. Eu podia ouvir alguns tripulantes gritando para seus Links pessoais, tentando estabelecer contato com o capitão ou com os demais.

Ninguém conseguia identificar qual tinha sido o problema, e muito menos resolver. Eu não precisava ver para saber onde eu tinha que ir.

Sophia apresentou uma projeção da nave em tempo real para mim. Eu poderia ver tudo e todos que estavam lá e o que estavam fazendo. Inclusive a minha localização atual, e o que tinha à minha volta. Eu caminhei com os passos firmes até a ponte de comando da nave.

Os tripulantes se sobressaltaram quando ouviram a porta se abrir. Antes, por mais que tentassem, nada abria aquela coisa. Porém, eles não conseguiam ver quem estava entrando. Obviamente, por conta das permissões de acesso limitadas do lugar, eles acharam que era o capitão deles, pois ninguém mais poderia entrar e sair como bem entendesse.

Mas eles não sabiam que a nave já tinha mudado de mãos. Ela estava nas minhas mãos.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

3 Comentários

  1. Obrigado pelo Cap.
    eu ainda tô pensando em como eu não esperava (não sei pq) que o Marco ia botar coisa na cabeça do filho.

  2. Agr, só jesus na causa. Por um breve momento, eu senti pena desses caras. Eles não imaginam o monstros que eles deixaram entrar. 😈😈😈😈
    Obrigado pelo capítulo Nega Fulor

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