DCC – Capítulo 209

A falta de julgamento de Brás Alberto

 

Brás Alberto:


Que espécie de lugar era a Cidadela do Limbo? Não dava para andar por aqui sem correr o risco de morrer a cada esquina. Eu tinha que reconhecer que Bonny era um homem inteligente, se não, não teríamos passado tantos anos em confronto sem nunca chegar a uma resolução.

Para ele ter entrado nesse lugar com aquela menina… Ela provavelmente era uma refém. Ainda por cima considerando que ela estava no meio do grupo completamente cercada pelos homens dele, e com o rosto coberto.

Normalmente apenas bandidos procurados cobriam o rosto por aqui. O que uma menina daquele tamanho teria feito para ter o rosto coberto? Ela provavelmente era alguma princesinha de algum aristocrata Brard do império humano. Durante os últimos dias, várias famílias estavam fugindo de seus planetas, por conta das recentes ameaças de genocídio, então era possível que Bonny tivesse posto a mão naquela coisinha depois de atacar alguma das naves de refugiados.

— Você vai vir comigo gracinha… — Eu disse estendendo a mão para ela já pensando em quanto ela deveria valer por um resgate.

Antes que eu pudesse fechar a minha mão no ombro dela, em um movimento rápido e sem nenhum aviso prévio ela agarrou o meu pulso e torceu, no segundo seguinte já estava pendurada nas minhas costas puxando meu braço torcido para trás.

— Sua vadia…. ahhh!!! — Caramba! No susto, eu só consegui tentar insultar, mas foi apenas eu abrir a boca que ela torceu ainda mais meu pulso. Eu estava completamente imobilizado.

— Eu disse que você não tinha capacidade…. — A voz zombeteira e arrastada de Bonny veio por trás.

— Você é retardado? — Eu insultei entredentes engolindo a dor — Uma palavra minha e todos vocês já eram.

— Hum…. — Bonny caminhou até o meu lado parecendo considerar minha ameaça. — Inclusive você…  — Ele disse lentamente — Se você pensa que pode me mandar pro inferno, eu arrasto você comigo mesmo que todo meu grupo seja dizimado.

— Você não teria coragem! — Eu provoquei — E você, gracinha, é bem melhor me seguir do que seguir esse fracassado. O que acha? Eu só preciso dar a ordem e todos eles estão mortos. Você não precisa seguir o mesmo destino deles.

— Como eu disse, meu caro Alberto, você não tem essa capacidade… — Bonny caçoou sem se preocupar com o que a menina iria dizer, até parecia que a opinião dela não era relevante — Façamos o seguinte, você ordena seus homens a se retirarem, e eu não te levo pro mundo dos mortos comigo.

Calico falava como se pudesse fazer as escolhas por ela… isso só podia dizer uma coisa: ela não tinha escolha a não ser acatar as ordens dele e se sacrificar junto com ele nessa barganha.

Além disso, só haviam duas explicações possíveis para uma garota tão forte se sujeitar ao Bonny: ou ela estava sendo coagida de alguma forma com algo que a assustava mais do que a própria morte, ou…

— Você… não é uma humana!  — eu disse entredentes.

Não importa o motivo pelo qual ela estava obedecendo Bonny. Uma garota daquele tamanho com força suficiente pra me segurar sem parecer esforço algum… ela deveria ser no mínimo um humano aprimorado, um androide ou um renascido. Nenhuma das opções era um bom sinal.

— Então? Qual a sua escolha? — Bonny pressionou como se a minha escolha não fizesse diferença no fim das contas para ele. Os meus rapazes estavam nervosos apontando as armas para o grupo dele que apenas sorria de volta com escárnio. Parecia que a vida deles não estava em risco ali.

A vida deles não estava em risco ali!

Por isso Calico estava tão calmo. Toda essa presepada de querer me fazer escolher… mesmo que eu escolhesse apostar minha vida e arriscar lidar com eles, eles não deveriam estar tão calmos sem ter certeza de que havia uma saída.

— Então é por isso que você anda numa maré de boa sorte, — eu lamentei. Merda, fui muito precipitado em avançar para cima da coisinha — você colocou as mãos em uma arma tão poderosa.

Acho que nunca tinha sentido tanta inveja e desejo por alguma coisa na minha vida como estava sentindo nesse momento. Armas humanas eram supremas desde o início dos tempos. E essa garotinha parecia ser de altíssima qualidade. Fosse ela um androide, um cyborg ou um renascido, armas desse tipo podiam facilmente destruir cidades inteiras sem nem se cansar.

Bonny de alguma forma tinha posto as mãos em um brinquedo bem valioso. Era um brinquedo muito, muito caro. De repente eu comecei a sentir o suor frio escorrer pelas minhas costas.

— Tudo bem, eu vou recuar! Manda ela me soltar, que eu junto meus homens e vou embora.

— Você por acaso está vendo a palavra “idiota” escrita na minha cara? — Bonny perguntou levemente irritado. — Mande eles se retirarem primeiro. Depois, eu penso se eu liberto você.

— Bonny, não force. Não pense que eu não estou disposto a apostar tudo também caso seja eu que esteja perdendo. — Eu reclamei irritado. Esse patife não iria me libertar nunca se eu abrisse passagem completamente.

Da mesma forma que eu não deixaria eles passarem se ele me libertasse ali.

— Homens, abram passagem. — Eu ordenei no fim — Vocês passam e eu fico. Se ela não me libertar depois, todos nós morremos aqui.

Essa me parecia a melhor saída. Bonny me olhou calmamente como se estivesse considerando a minha proposta, mas respondeu logo depois:

— Muito bem, vamos indo.

Ele simplesmente deu a volta e se retirou seguido pelo próprio grupo. A menina ficou nas minhas costas até que todos eles estivessem vários metros fora do cerco.

Eu não tinha coragem de mandar revidar enquanto ela não estivesse bem longe de mim. Assim que ela se afastasse, eu daria a ordem. Bonny não iria escapar de mim com uma mercadoria tão boa. Ela tinha que ser minha, nem que eu tivesse que danificá-la um pouco.

Quando ela desceu e começou a se afastar andando de costas como se esperando que eu fosse dar o bote, eu finalmente consegui me endireitar e massageei meu braço torcido. Meu imediato correu para meu lado com uma expressão zangada e preocupada.

— Capitão Alberto! Vamos deixar por isso mesmo? — Ele reclamou zangado.

— Calma, eu vou… — o que eu ia dizer eu não consegui. Algo tinha entrado na minha garganta.

Eu estava engasgado. Na verdade, eu estava sufocando! Quando eu comecei a tossir furiosamente tentando tirar seja lá o que fosse da minha garganta, todos os meus homens se viraram pra mim distraídos.

Meu imediato percebeu que eu estava engasgando, e mesmo confuso e sem entender o que eu poderia ter engolido, ele me abraçou por trás, e começou a pressionar meu peito tentando forçar o que estava preso para fora.

Não foi até que todos os homens de Bonny, inclusive a menina estivessem fora de vista, e eu já estivesse quase desmaiando pela falta de oxigênio que a coisa saiu.

Se saiu, ninguém viu o que foi. Eu também não senti engolir nada. Fiquei apenas ali parado arquejando violentamente tentando sugar o máximo de oxigênio possível.

— Seus idiotas! Eu não precisava de plateia! Por que ninguém atirou na menina? — Eu perguntei irritado e com a voz fraca e rouca quando finalmente consegui algum pouco de ar.

— Mas capitão, o senhor tinha nos orientado a manter a calma antes de passar mal, nós não pensamos…

— INÚTEIS! — Eu gritei frustrado.

Aquela tinha sido a melhor oportunidade. Na verdade, talvez tivesse sido a única possibilidade de colocar as mãos nela. Bonny não iria deixar de me atacar se ele realmente estava com uma coisa tão boa como aquela nas mãos.

— Vamos indo. Temos que nos preparar…

Eu orientei dando a volta na direção oposta ao grupo de Bonny. Não tinha chegado sequer a ter uma briga, e eu tinha perdido feio.

Maldito momento em que eu fui engasgar com minha própria saliva. Que merda.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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