DCC – Capítulo 210

Enigmático Esdras Portos

Alésia Latrell:


Ora mais… eu devia ter deixado ele enforcar até a morte. Eu por acaso tenho uma placa na cabeça dizendo que eu sou diferente? Humpf…

Ainda por cima, Mikal estava do meu lado dando risinhos. Só de imaginar aquela cara de guaxinim dele me caçoando já me deixava irritada. O cara simplesmente me julgou pela minha altura!

Não fosse por ele mesmo ter pensado na melhor desculpa possível para a minha presença ali, eu teria explodido a cabeça daquele retardado. Mas se ele estava pensando que eu era uma arma, que seja. Pelo menos ele iria pensar duas vezes antes de querer chegar perto de mim de novo.

Você não pode fazer muita coisa pra mudar isso. Você realmente se destaca bastante no nosso meio. — Mikal comentou diretamente para minha mente.

— Humpf… — eu estava irritada.

— Ora vamos… você tem o que? Um metro e sessenta? Um metro e setenta centímetros de altura? A altura média desses Jomons é de mais de dois metros. Você é destacável.

Apesar de Mikal parecer estar me caçoando, eu sabia que ele estava preocupado. Se eu pudesse controlar o que eu estava indo fazer a distância, eu realmente não teria vindo. Além do mais, o senso comum de espião de Mikal dizia que agentes sob disfarce não poderiam ter características marcantes para não chamar atenção.

E mesmo considerando que eu estava usando uma roupa aproximadamente parecida com o restante do grupo de Calico, bem sobrea e passável, eu literalmente tinha apenas três quartos da altura do resto do time. Aquele tal Aberto tinha sido um alerta que talvez minha presença realmente fosse ser um problema.

Eu rangi os dentes frustrada. Mas no fim tive que respirar fundo. De todas as diferenças óbvias entre os Brards e Jomons, essa era uma das mais inconvenientes. Dificilmente haveriam Jomons baixinhos, pois normalmente a gravidade dos planetas Jomons era relativamente mais baixa que a maioria dos planetas Brard.

Enquanto eu revirava na minha cabeça sobre a injustiça da terraformação dos planetas humanos, o nosso grupo chegou no ponto de encontro. Os rapazes estavam relativamente de bom humor depois da vergonha que eu fiz Alberto passar, mas mesmo assim, ainda ficavam a uma distância confortável de mim sem parecer óbvio que estavam me evitando.

O local era um bar bem movimentado e cheio de prostitutas e gigolôs desfilando apenas de gravata borboleta com tudo o que a natureza tinha para oferecer à vista. Aquelas gravatas…. eram apenas uma decoração para coleiras de restrição. As mesmas coleiras de restrição que usavam em Laplantine. Parece que esse método de controle de escravos era bem difundido.

Não que os clientes aqui fossem ingênuos em achar que qualquer uma dessas pessoas servindo eles estava ali de boa vontade. Muito pelo contrário, eu podia sentir uma espécie de prazer doentio na mente corrupta deles em usar uma pessoa contra a vontade dela.

A diferença entre essas pessoas e as que serviam em Laplantine era justamente que Laplantine tinha um nível de segurança muito mais detalhado e elitista. Até mesmo meu DNA foi checado para verificar se eu não seria rastreada até eles. Agora essas pessoas, eram todos pobres coitados que não tiveram outra escolha a não ser venderem os próprios corpos. Ninguém iria procurar por eles. Ninguém se importava o suficiente para isso.

Mikal apertou brevemente meu braço. Ele podia sentir o quanto eu estava triste. Eu tinha que me concentrar. Calico nos trouxe até uma mesa relativamente reservada em um dos cantos próximo ao bar.

O grupo se sentou e logo algumas beldades vieram servir bebidas, e todos ficaram animados. Porém a hora do encontro veio e passou. O contrabandista das crisálidas ainda não tinha aparecido. Eu já estava começando a ficar agoniada e prestes a questionar Calico quando…

— Que calamidade caiu sobre você que você já gastou todas as peças que te vendi da última vez? — Um homem perguntou. Ele simplesmente tinha aparecido ao lado de Calico.

Eu pisquei várias vezes até entender o que tinha acontecido. Ele não tinha rasgado o espaço, nem tinha saído de uma dimensão paralela. Era como se aquele cara já estivesse ali o tempo todo mas ninguém tivesse percebido. Que espécie de magia era essa?

Notando a aparição repentina do estranho, os membros do grupo ficaram sobressaltados. Depois que o espanto passou, eu voltei a olhar para ele com atenção. Aquele rosto dele, bem bonito diga-se de passagem, era o mesmo rosto que eu tinha visto quando invadi a mente da Princesa de Kanis, e quando eu estava investigando os envolvidos no caso de Briane.

Mesmo assim, por mais que eu tentasse, eu não conseguia guardar a aparência dele na minha memória. Sequer tentando forçar a Sabedoria, eu estava conseguindo. Esse homem era perigoso. Muito perigoso. Se sequer a Sabedoria conseguia investiga-lo, o nível da Obliquação que ele praticava era muito além do que eu podia lidar atualmente.

O único problema que me incomodava, é que por mais que eu fosse incapaz de reter a aparência dele, eu podia sentir que ele se aprecia muito com alguém que eu conhecia. Quando essa ideia nasceu, eu não conseguia tirar mais ela do pensamento. Ele eu não conhecia, pelo menos isso eu tinha certeza, mas ele se parecia tanto com algum conhecido meu, mas eu não conseguia associar a qual. Apesar de todas essas coisas terem se passado na minha mente, apenas meros 2 segundos tinham se passado.

Calico se recuperou do choque de ver Esdras Portos ali ao lado como se não fosse nada demais e respondeu à pergunta:

— Talvez não uma calamidade, mas uma oportunidade. E dadas as circunstâncias, resolvi aproveitar essa oportunidade para limpar todos os meus inimigos. Os lucros têm sido ótimos.

— Lucrando, então está uma maravilha. Então, no que posso te ajudar hoje? — o homem misterioso perguntou.

— Por enquanto, o mesmo pacote da última vez basta! — Calico respondeu indo direto ao ponto. Eu podia sentir que ele estava bastante desconfortável com Esdras, mas que ele provavelmente já tinha se acostumado a lidar com essa situação.

Esdras abriu um sorriso encantador e simpático. Depois disso, os dois começaram a discutir questão de preço. Não era nada muito complicado, só uma transação comercial clandestina comum. Assim que Esdras recebeu o dinheiro, ele tirou a mercadoria sabe-se lá de onde. E tudo estava completo.

Enquanto os dois conversavam, eu já tinha enchido todo o local com meus litoângstroms. Desde que alguém respirasse, eles já iriam entrar dentro do corpo dessa pessoa. Eu estava aproveitando o breve momento para alojar uma pequena quantidade desses robozinhos no sistema nervoso de Esdras. Para nenhum outro motivo se não poder rastrear ele.

Eu não podia vê-lo quando eu queria. Eu não podia pesquisar sobre ele. Eu não podia sequer lembrar da aparência dele quando piscava os olhos. Esse tipo de poder era bastante assustador.

— Vamos! — Calico disse prontamente assim que tinha encerrado os negócios com Esdras. Ele se despediu dizendo esperar poder fazer negócios em outra ocasião, e liderou o grupo para o lado de fora.

Eu segui calmamente junto com os demais tentando não pensar demais. Quando virei de costas para dar uma última olhada na direção do bar, Esdras não estava mais em nenhum lugar para ser visto. Eu só tinha certeza que ele ainda estava lá, por que os litoângstroms que eu enviei para o sistema nervoso dele ainda estavam dentro do mesmo hospedeiro ali na proximidade.

Mas essa incerteza de não poder saber de algo, principalmente depois de ter as mãos na Sabedoria, estava me deixando cada dia mais nervosa.

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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