DCC – Capítulo 211

Em Sátie mais uma vez

 

— O que você pretende fazer com essas informações agora? — Mikal me perguntou assim que voltamos para a Névoa — Aquele cara era muito estranho, meu instinto diz que ele é muito perigoso.

— Eu sei! — Eu respondi já me recostando em uma cadeira e brincando com uma das crisálidas em minha mão. — Eu acho que ele tem domínio sobre alguma forma de Obliquação muito avançada. Eu mesma me senti muito superficial perto dele.

Calico já tinha me passado todas as crisálidas que comprou para as minhas mãos. Não havia nenhuma outra utilidade para ele nesse momento.

— Sobre o que fazer com essas informações… — Eu peguei uma das crisálidas e passei para Mikal, — você pode decidir.

Eu sabia que Mikal estava muito preocupado com o momento atual em que o império se encontrava. Apesar dos motivos meio tortos que ele usou para começar a me seguir, Mikal era um amigo muito importante para mim. Eu iria dar a ele essa chance de se redimir, já que ele tinha praticamente desertado só para não me deixar sozinha.

— Tem certeza? Eu precisaria voltar para o Quadrante 01 para entregar isso… — ele disse levantando uma das sobrancelhas.

Mikal tentou disfarçar, mesmo isso era impossível entre artistas oniscientes, mas eu podia sentir que ele estava agoniado e ansioso para retornar para casa e reportar pessoalmente as coisas que ele havia descoberto nesse tempo que esteve fora.

Não que ele não pudesse enviar mensagens, mas dado o teor de confidencialidade ele não se atrevia a arriscar. Eu tinha plena consciência que eu tinha o colocado em uma situação delicada. Mikal trabalhava diretamente pro império. Ou seja, ele não reportava para uma soberania afiliada, mas para o Imperador, para Marco.

— Vamos embora. Não preciso da Névoa para mais nada. — Eu disse depois de um tempo. Mikal pareceu bastante surpreso — Vamos voltar na casa dos meus pais. Eu transferi o dinheiro para a conta deles, mas não fui ver como minha mãe reagiu a isso.

— Ter se encontrado com ela te deixou realmente bem estressada. — Mikal comentou se sentando recostado na minha frente tamborilando os dedos no antebraço enquanto olhava para o lado de fora da nave pelo painel.

— Minha relação com ela tinha sido corroída pelos problemas que a Criação trouxe. Naquele tempo eu não entendia as razões dela. Eu só pude entender como ela estava sofrendo tanto quanto eu depois de ver as lembranças dela. — eu comecei a relembrar — infelizmente não tinha como eu convencer ela da verdade, nem ela sabia como se expressar pra mim. Acho eu não era pra ser…

— Ela é a sua mãe. É claro que era pra ser… mas eu entendo o seu lado… Eu realmente invejo esse lado dos Brards de superarem certos sentimentos e evoluírem emocionalmente tão rápido. Jomons normalmente remoem os mesmos sentimentos por anos e anos sem nunca seguir em frente.

— Acho que é uma das vantagens de se saber que a vida é curta, — eu comentei me esticando enquanto me levantava, — não dá pra perder tempo revirando sentimentos acabados. Vamos embora, eu já recolhi todos os litoângstroms da Nave, podemos simplesmente ir embora.

— Oh! — Mikal ficou surpreso. — Simples assim? Sem nenhuma festinha de despedida, um bolo… um estrangulamento?

Eu parei meus passos a meio caminho da porta, e me virei para Mikal que estava com um sorriso sarcástico naquela cara de guaxinim enquanto ironizada a conversa.

— Prefere que eu dizime a população inteira dessa nave antes de irmos? — Eu ironizei de volta.

Nós dois sabíamos que isso não ia acontecer. Eu tinha o controle da Névoa, e mesmo que eu fosse embora, eu não iria devolvê-lo. Se fosse o destino deles, nos encontraríamos de novo, então essa seria a toda a sorte que eles teriam, mas até lá, eles teriam um pouco de paz.

Mikal alargou o sorriso também se levantando da cadeira, caminhou até o meu lado, me pegou pelo braço e rasgou o espaço até a Primeiro Adler. De lá ele diretamente rasgou o espaço mais uma vez e saímos com nave e tudo para fora da Névoa.

Quando Calico percebesse que não estávamos mais lá, já estaríamos do outro lado do Conglomerado Imperial.

Sátie estava tão viva como sempre. Desde a última visita que eu fiz, praticamente nada tinha mudado, apesar de que pela contagem de tempo local já ter passado mais de um ano.

A tragédia em Versal já havia sido superada e enterrada nas profundezas da memória das pessoas comuns. O que podia ser reconstruído, foi reconstruído, o que não pôde, foi deixado para trás. Para o povo de Keret não fazia sentido perder tempo lamentando uma situação inevitável como aquela para os padrões tecnológicos do planeta.

Mikal estacionou a Primeiro Adler na praça em frente à casa de meu pai. Daril costumava sempre estar em casa a essa hora. Pelo calendário, era fim de semana em Sátie. Se ele por acaso tivesse saído com a esposa nova, eu poderia esperar por ele. Eu não tinha cara de procurar pela minha mãe sozinha.

Eu estava relativamente animada em rever meu pai quando apertei a campainha. Mas quase imediatamente senti que havia algo errado. Para manter o pouco de privacidade que meu pai ainda tinha nesse planeta, eu reprimia meu instinto onisciente e não ouvia os pensamentos das pessoas que ficavam por aqui. Mas isso não significava que eu deixava de sentir as emoções que flutuavam ao meu redor.

Ansiedade.

Nervosismo.

Desespero.

Uma mulher muito bonita abriu a porta quase correndo. Ela já devia ter por volta de quarenta ou cinquenta anos de Sátie, que provavelmente foram muito bem vividos. Ela estava em casa quando eu tinha vindo a primeira vez, mas Daril tinha pedido a ela para não descer. Ele tinha explicado que era um segredo que ele não poderia dividir, e ela tinha decidido acreditar nele e ficar do lado dele.

A expressão de decepção no rosto dela quando me viu, quando ela percebeu que eu não era quem ela estava esperando ligou todos os instintos de alerta no meu coração, e eu joguei qualquer cautela fora.

— Onde está Daril? — Eu perguntei sentindo meu rosto se contorcer.

— Quem é você? — A mulher ignorou minha pergunta, me rebatendo com outra.

— Parente! Onde ele está? — Eu não ia dizer abertamente ali que eu era a filha morta dele.

O olhar de apreensão no rosto dela aumentou ainda mais. Todos aqueles sentimentos angustiantes que ela estava sentindo quando ouviu a campainha tocar estava se revirando dentro dela.

Tudo isso por que… ela não sabia!

Ela não fazia a menor ideia de onde Daril, meu pai, e atual marido dela, tinha ido parar! Ela me olhou por um bom tempo parecendo ter cedido à um estupor letárgico, como se não estivesse mais na realidade.

— Eu sabia… ele se foi, ele se foi… ele recebeu um dinheiro que não tinha como explicar, ele e a ex mulher. Os dois receberam o dinheiro e se foram. Devem ter fugido juntos… devem ter se reconciliado… — ela começou a balburdiar enquanto cobria os olhos com uma das mãos trêmulas.

Parecia que ela estava me explicando a situação, mas ela na verdade estava repetindo essas palavras para si mesma. Ela não queria acreditar nisso, mas não tinha como não acreditar. Ela sabia que Daril guardava algum segredo, mas ela preferiu confiar nele, que esse segredo seria algo inofensivo.

Mas ele tinha desaparecido completamente sem deixar nenhuma pista para trás. Apenas dois tipos de pessoa tinham como desaparecer sem deixar rastro nenhum: as que tinham dinheiro e as que tinham poder.

Se Daril não quisesse mais ser encontrado por ela, agora que ele tinha tanto dinheiro nas mãos, não havia forma alguma dela alcança-lo. Ela tinha que encarar a realidade e se convencer que ele não tinha desaparecido… ele tinha a abandonado.

Eu tinha visto tudo isso na mente dela, e estranhei mais ainda. Eu conhecia meu pai. E eu o conhecia melhor ainda depois de sentir as emoções dele. Eu sabia que ele não era do tipo que faria uma coisa dessas e se deixaria levar por dinheiro pra fugir, ainda por cima com a minha mãe.

Tinha algo muito errado nessa situação toda. Em minha mente, eu ordenei diretamente para o console enrolado em meu braço:

Sofia! Reúna todos os dados disponíveis sobre o último paradeiro conhecido de Daril Latrell e Alya Viana.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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