DCC – Capítulo 213

Para que conversar?

 

Não, não, não, não… não!!!

Eu olhei ao meu redor desesperada. Meus pais foram levados, Mikal desapareceu e agora o “sol foi apagado”?

Não… por favor! Eu não queria acreditar que eu tivesse sido traída por Mikal! Eu tinha decidido confiar nele com a minha vida, assim como ele tinha confiado a vida dele a mim.

Por que Mikal me trairia?

Não… ele nunca tinha sido leal a mim para começo de conversa, como ele poderia me trair? O erro tinha sido meu em acreditar nele… Ele mesmo tinha me avisado, sempre dizendo que eu era muito ingênua…

Então no meio daquela escuridão, vários pontos de luz brilharam no céu vazio e sem estrelas, como se comandados a ascenderem todos de uma vez. Depois disso os pontos de luz começaram a cair ao mesmo tempo, deixando um rastro para trás marcando o caminho por onde passavam.

No meio daquela cidade, eu comecei a ouvir os gritos assustados das pessoas que estavam sem entender o que estava acontecendo. Os mais desesperados já estavam associando ao holocausto Brard que tinha sido divulgado na macronet.

O fim do mundo chegou.

O som estridente dos pontos de luz que cortavam o céu encheu o ar e se misturou ao grito das pessoas. De alguma forma, eu podia ouvir o planeta inteiro nesse caos.

Era Dhar. Tinha que ser Dhar. Ele tinha saído da rota de destruição original para vir até Sátie no dia em que eu também tinha chegado. Não podia ser coincidência. Mikal havia me traído e me trazido pra uma armadilha direto para as mãos de Dhar.

Enquanto eu lamentava a minha burrice, os pontos de luz se aproximavam cada vez mais da terra, até que eles simplesmente pararam em pleno ar. Eram enormes massas de terra, pedras, meteoritos… alguns pareciam feitos até mesmo apenas de poeira brilhante.

Todo o planeta prendeu a respiração naquele momento olhando para os pontos de luz suspensos no ar. Eu já tinha me acalmado o suficiente para conseguir sentir contra o que eu realmente estava lidando.

Depois de vários minutos de suspense silencioso e angustiante, os pontos no céu se moveram mais uma vez. Dessa vez eles pareciam estar se esticando e se levantando abrindo os “braços” e esticando as “pernas” até que por fim eles tomaram uma forma humanoide completa.

Pela distância, eles ainda pareciam pontos insignificantes, mas na verdade eles eram enormes. Colossais titãs feitos com a fusão da matéria com artes elementares. Centenas, talvez milhares deles.

A pressão que eles exerciam sobre todos os habitantes de Sátie era esmagadora. Era como se a gravidade tivesse dobrado e o oxigênio estivesse se tornando rarefeito. Tudo estava em silêncio naquele momento. Mesmo os choros e gritos de desesperança tinham cessado enquanto as pessoas olhavam para o céu… esperando…

— Este planeta foi condenado por recusar a boa vontade do salvador da humanidade, o Deus Dhar. — Uma voz profunda e poderosa ressoou por toda a atmosfera parecendo falar diretamente com as almas de todos — Por conta disso, esta terra deverá receber a bênção da purificação. Os demais seres vivos serão condenados por traição pela escolha da arte elementar que governa este planeta. O tempo de acolher o verdadeiro deus que protegeria vocês passou. Agora morram.

Mas que merda era essa?

Eu não sabia de onde a voz vinha. Não tinha como identificar. Ela tinha sido transmitida para todo o planeta diretamente para a alma das pessoas. Não importava o idioma, desde que a intenção da mensagem fosse compreendida.

Se eu não tinha como rastrear a origem da mensagem, como eu iria parar aquela loucura? Que droga! Eu estava ansiosa demais! Eu tinha que fazer alguma coisa. Eu era provavelmente a única pessoa nesse planeta inteiro que tinha magia.

No meio tempo em que a mensagem tinha sido transmitida, os titãs já haviam tomado a forma humanoide completa, levantado os braços estendidos sobre suas cabeças sem resto e seus braços se encontraram sonoramente no lugar onde deveriam ficar as mãos.

Uma onda de impacto visível a olho nú foi criada pelo choque das mãos dos titãs. Elas se estenderam pelo céu cobrindo tudo sob as nuvens, até se encontrarem com a onda vinda do titã vizinho e então cobrindo o planeta inteiro.

— Há uma forte interferência vinda do ambiente externo. O hardware está sujeito a mal funcionamento. — O console Sophia acusou quando as ondas de impacto começaram a cobrir o céu.

Não foi apenas Sophia. Todos os aparelhos eletrônicos, máquinas e motores também pararam de funcionar. Em um instante. Todas as naves, aviões e drones que circulavam ao redor do planeta começaram a despencar um a um como uma chuva de sucata sem energia.

Em seguida a isso, as luzes pararam de funcionar. O sinal de internet e macronet foi cortado, e não havia mais nenhuma fonte de energia ou comunicação funcionando em todo o planeta.

— Sophia, ainda está aí? — Eu perguntei mentalmente.

— Sim. Todas as funções regulares estão suspensas e um backup foi preparado com todos os dados hospedados de acordo com as instruções da Sabedoria. Se o console não for desligado, será danificado pelo ambiente.

Eu suspirei aliviada. Desde o update feito em Maskin, Sophia tinha começado a se tornar cada vez mais autossuficiente. Se desse a ela mais alguns anos, era possível que ele desenvolvesse consciência própria. Eu não queria ter que perder ele. Pelo menos ele também não.

Quando o manto ficou completo, eu finalmente senti o Sinal de Sophia parar de responder. Ele tinha se autodesligado para se preservar.

Então a pressão que eu sentia no meu corpo ficou ainda pior. Era uma sensação que eu nunca tinha sentido igual. Se o que eu sentia com a Relíquia da Criação, era como se eu me tornasse um redemoinho que sugasse toda a energia do mundo ao meu redor, naquele momento parecia que havia algo tentando sugar a energia para fora de mim.

Mas diferente de quando eu estava com Henry, que me dava uma sensação de paz e completude, essa sensação era como se algo estivesse tentando me rasgar ao meio.

Mas então eu percebi que não era realmente a “energia” simples e pura que estava sendo sugada. Ela ainda estava lá. Só que tudo se movia cada vez mais rápido como se algo tivesse apertado um botão acelerador.

Eu trinquei os dentes e engoli a dor que aquilo me causava. O manto que cobriu o planeta não me afetaria desde que eu pudesse suportar isso, afinal o que mantinha a minha vida não era a mesma coisa que os outros humanos normais.

Eu só não iria ficar parada esperando ver todas as pessoas inocentes do planeta inteiro morrerem vítimas de um sádico louco.

Com um salto no ar eu alcei voo e em poucos segundos me coloquei flutuando na frente do que seria equivalente a um rosto de um dos titãs. Ele era tão grande que provavelmente teria mais de quinhentos metros de comprimento. Era do tamanho de um arranha-céu.

Enquanto eu estava flutuando na frente dele, eu mal podia ver as bordas do “rosto” enorme daquela coisa. Como eu iria me comunicar com ele?

Mas que merda eu estava pensando? Me comunicar com eles? Eles tinham vindo exterminar as pessoas desse planeta! Eu já conseguia sentir a dor e a tristeza das almas das pessoas que já tinham morrido nos arredores da minha posição.

Ele era um inimigo. Eu não tinha que falar com um inimigo. Eu não tinha que me importar com o fato dele ser grande. Eu apenas estendi minha mão na direção dele tentando sentir em mim o que ele era. No momento em que eu senti… Apenas uma palavra foi pronunciada em minha mente:

Aniquilar!

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!