DCC – Capítulo 214

De frente com a morte

Nada nunca deixava de existir completamente. Quando a matéria era “destruída”, ela precisava absorver energia para isso, mas quando “aniquilada” a matéria liberava energia. Ela deixava de existir com forma física para existir em forma de energia.

Quando eu comecei a aprender sobre “Aniquilação” eu já tinha tido um entendimento sobre isso, mas outra coisa era a aplicação na prática.

O titã não teve tempo de reagir quando minha magia caiu sobre ele. O imenso corpo dele começou a se desfazer como farinha soprada ao vento. Ao contrário de como foi com Louis, que eu tinha feito questão de que a morte dele fosse o mais lenta possível, ele praticamente já tinha desaparecido no espaço de alguns segundos.

Todas as partículas que desprendiam do corpo dele pairavam por um piscar de olhos antes de se transformarem em energia pura ao meu redor. Ele era muito poderoso… Me ocorreu que se ele não tivesse me julgado como um inseto inferior e me ignorado, eu não teria tido sequer a oportunidade de me aproximar para conjurar minha magia.

De qualquer forma eu precisava dar um destino para a energia que saía do corpo dele, antes que a Criação sugasse tudo aquilo para dentro do meu corpo. Eu ergui uma das minhas mãos para o céu em uma ideia repentina, e de alguma forma as coisas aconteceram por si mesmas.

As partículas de água na atmosfera se condensaram e eu as usei como veículo para direcionar toda aquela energia. Do titã para mim e de mim para a atmosfera.

Raios começaram a se espalhar pelo céu indo para todas as direções entre as nuvens. Todos os pelos do meu corpo se levantaram em frente a estática e o barulho de trovões reverberava tão alto que eu mal podia ouvir meus próprios pensamentos.

Tudo isso não durou dez segundos. Quando o titã percebeu que estava sendo atacado, o corpo dele já tinha sido inteiramente consumido e apenas a essência da alma dele tentava se livrar de mim e escapar. Mas sem a forma física para prender sua alma, ele não tinha como manter a alma intacta. A alma dele então se desfez da mesma forma que o corpo.

Era uma arte elementar que tinha existido por milênios a fio. E ele tinha deixado de existir simples assim.

O manto se desfez no local onde o titã que eu destruí tinha estado, mas mesmo assim ele lentamente começou a se recuperar e recobrir o buraco. Naquele momento, eu senti como se centenas de olhos tivessem se virado para mim ao mesmo tempo.

A distância era imensa para os olhos humanos, mas eu podia sentir como se todos os outros titãs que tivessem vindo para esse planeta tivessem se virado ao mesmo tempo para a minha direção e estivessem me encarando agora. Observando atentamente cada um dos meus movimentos.

Eu me virei para o titã que estava mais perto de mim. Eu não podia parar para considerar os riscos. Se eles continuassem livres, as bilhões de vidas inocentes em Sátie seriam jogadas fora.

Com um impulso de força, lancei meu corpo voando na maior velocidade que eu podia controlar na direção dele. Eu sequer considerei como parar. Eu apenas iria passar direto por ele, já que se não houvesse nenhum titã na minha frente, não haveria nada contra o que me chocar.

Aniquilar! Aniquilar! Aniquilar!

Tempestades começaram a se formar por onde eu passava deixando um rastro luminoso com a chuva de raios no meio daquela escuridão tenebrosa.

Mas por mais que eu destruísse um titã, pouco depois o céu tornava a escurecer coberto pelo manto que se restaurava rapidamente.

Enquanto eu voava rapidamente na direção do que seria a minha quinta vítima, eu parei. Não por que eu quisesse. Mas por que eu não conseguia seguir em frente. Era como se o ar tivesse se solidificado ao meu redor. Não… não era o ar.

Era o espaço em si que não permitia que eu me movesse. Juntamente com isso, veio uma sensação de perigo. Era como se a própria morte tivesse vindo e estivesse parada atrás de mim e eu não conseguia sequer me virar para ver quem era.

— Destino é mesmo uma coisa interessante… Quem diria! Este é o seu planeta natal? — Uma voz rouca e etérea soou atrás de mim.

Eu sabia que havia alguém atrás de mim, mas eu não conseguia sentir nada além do instinto sinistro que me fazia ficar arrepiada. Mas eu tinha certeza…. se a morte fosse uma entidade que tivesse um cheiro, uma aura… Essa seria a exata sensação.

— É você quem está atacando este planeta? Por que está fazendo isso? — Eu perguntei desesperada tentando pensar em uma forma de me libertar.

Ele riu. Riu como se eu fosse a pessoa mais hilária da história.

— Aí está… Estava querendo me distrair para pensar em como escapar? Só precisava me pedir! — Ele disse de bom humor.

Naquele momento, eu senti que podia me mover de novo. Mas era estranho. Parecia que me mover ali era difícil. Parecia que o ar era mais denso que me mover dentro d’água.

Eu me afastei e me virei de costas para ver. Era, sem dúvida nenhuma, alguma coisa que não era humana, ou não mais. Parecia um fantasma de escuridão. Eu podia sentir algo dentro de mim ressoando com ele. Como se ele fosse algo que deveria estar perto de mim.

Tinha tudo sido uma armadilha. Capturar meus pais, me trazer de volta a Sátie… e eu tinha caído. Ele provavelmente planejava me capturar e me dar uma amostra do poder dele. Ele não pretenderia me matar, se não já teria feito isso, mas se ele destruísse Sátie, ele precisaria de alguma coisa para me coagir a me aliar a ele.

— Essa é a nossa primeira vez nos encontrando! Apesar de eu já acompanhar sua história tem um tempo. Prazer, Dhar! — Ele disse estendendo a mão para mim como se quisesse me cumprimentar. Eu recuei instintivamente quase um metro no ar. Ele riu da minha reação mais uma vez — Sabe, eu não estou contra você, — ele disse com a voz tentadora baixando a mão que tinha estendido para me cumprimentar. Eu não me atreveria a tentar fugir. Ele me tinha completamente presa. — Tudo o que eu quero é que o universo volte a funcionar de acordo com a ordem natural. Se você se aliar a mim, você e Henry poderão ficar juntos para sempre!

— Ao preço de exterminar todas essas vidas inocentes? Por que está fazendo isso? — eu perguntei aflita.

Ele estava muito iludido se achava que eu estava disposta a trocar todas as vidas que ele planejava matar pela minha felicidade com Henry.

— Apenas sacrifícios necessários… — ele disse sorridente, acho… eu não podia ver um rosto naquela aparência difusa dele. — Você sabe que eu poderia simplesmente te capturar como minha refém. Mas um refém precisa ser útil… Mesmo que eu tivesse você em minhas mãos, não teria forma de eu atrair Henry. Eu poderia te matar, mas isso só significaria que você ficaria alguns anos fora da minha supervisão, e isso não seria sábio. Quem sabe se você reencarna com suas memórias como Marco e decide se isolar até ficar forte o suficiente para me enfrentar?

— Como você descobriu sobre essas informações? — Eu perguntei irritada. Mesmo que Marco tivesse realmente prendido Henry em Keret, isso era algo que apenas nós três deveríamos saber.

— Eu apenas… percebi! — Ele disse sorridente. — Eu estou vivo a mais tempo que qualquer outro ser vivo já esteve nesse universo. Eu conheço as pessoas e seus sentimentos melhor do que qualquer artista onisciente. Eu posso dizer o que uma pessoa pensa, sente e quer apenas olhando. Henry odeia Marco. Os dois nunca mais ficariam lado a lado a não ser que Henry estivesse sendo obrigado de alguma forma. Isso não é óbvio?

“Vivo”… algo como Dhar que exalava o cheiro da morte ainda poderia ser considerado um ser vivo?

— Se você me quer como aliada contra Marco, você deveria no mínimo poupar este planeta e não destruir mais nenhum!

Dhar gargalhou mais uma vez como se eu fosse realmente hilária.

— Você acha que eu preciso de você? — Ele disse de ótimo humor, — Por acaso eu estava passando e nos encontramos, por isso decidi estender o convite. Você vir comigo ou não é inteiramente contigo. Eu não estou negociando termos. Além do mais, você já brincou sua parte no meu plano. Sua vida só continua intacta por que eu não ganho nada caso você reinicie seu ciclo de vida. Mas você pode se matar também, como Nádia fez… não me importa sinceramente. Todas as peças que eu preciso já estão quase em seus respectivos lugares.

— Você diz isso, mas está me segurando aqui! — Eu gritei de volta para ele — Você não quer que eu dizime seu exército.

Dhar se aproximou perigosamente de mim e eu podia sentir o sarcasmo dançando entre o bom humor dele. Milhares de pessoas estavam morrendo. A magia que ele tinha conjurado sobre o planeta estava correndo, e quando chegasse ao limite de tempo todos morreriam com seus corpos esgotados.

— Você acha que eles estão aqui por que eu preciso deles para consumir essas pessoas? Eles são apenas o show. Mas vá em frente! Alivie sua raiva. Elimine tantos quanto puder!

Assim que aquelas palavras foram ditas eu senti meu corpo livre das restrições.

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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