DCC – Capítulo 215

Jogo de palavras

— Todos os seres vivos tem oportunidade de redenção, mas para que haja redenção, é preciso ter consciência de que as pessoas são seres hipócritas e cruéis. As almas insignificantes desses mortais servirão ao menos para um propósito quando elas forem libertadas de suas prisões carnais!

Assim que meu corpo foi libertado, Dhar começou a fazer um discurso. Por um momento eu fiquei confusa, mas foi apenas tempo suficiente para perceber que ele não estava falando mais diretamente comigo e sim para uma transmissão ao vivo que ele estava fazendo. Ele continuou:

— Vejam o meu poder! É isso que poder de verdade significa! É a isso que vocês devem temer e se sujeitar. Os falsos líderes estão obscurecendo as informações que vocês recebem e por causa disso, suas almas se tornam impuras. É meu dever vir aqui e purifica-los!

— Você chama os mortais de hipócritas, mas você é o mais hipócrita de todos! — Eu urrei de volta para Dhar, me sentindo indignada — Você fala de purificar almas, mas você só está fazendo uma perseguição contra os Brards! Você está dizimando vidas inocentes!

Dhar se virou para mim, e eu podia sentir que ele estava muito feliz naquele momento, como se ele tivesse conseguido o que queria.

— Eu não estou favorecendo os Jomons. Coincidentemente, no caminho de chegada até o centro do império, há apenas planetas Brard. Será que o imperador já não sabia da minha vinda, e deliberadamente colocou todas as soberanias Brard na minha rota?

Dhar disse como se fosse óbvio. Qualquer um com o mínimo de inteligência poderia procurar a verdade na macronet e ver que esse era um argumento bem forçado. Mas no momento atual em que estávamos, quem acreditaria em alguma coisa? Ele estava aos poucos colocando dúvidas e medo na mente das pessoas. Tudo parecia falso.

— Você fala que eu estou massacrando os Brards, mas a verdade é que este planeta é podre. Se fosse um planeta Jomon, teria que encarar o meu julgamento se também fosse um planeta podre.

— Baboseira… — eu ridicularizei nervosa. Eu podia sentir cada vez mais a vida se esvaindo do planeta. Em questão de minutos não sobraria mais ninguém vivo — Você está querendo apenas convencer as pessoas que são burras demais para entender as coisas por si mesmas a ficarem do seu lado.

Dhar sorriu, estalou a língua e disse enquanto balançava a cabeça fingindo decepção:

— Pelo visto você tem aprendido bastante com o Imperador. E eu pensava que você fosse leal a seu querido marido… Henry Siever, que atualmente é prisioneiro do império…

Eu até parei de respirar depois de ouvir o que ele disse. O cretino estava usando tudo o que eu estava falando para manipular mais ainda a filmagem que ele estava fazendo fazendo um jogo de palavras absurdo. Ele deliberadamente tinha divulgado meu status como esposa de Henry apenas para dar mais credibilidade.

— Você é um canalha. Tudo o que você está falando é baboseira! Você está devorando as almas dessas pessoas para si mesmo! São vidas inocentes aqui! — Eu insisti. Meu coração doía terrivelmente.

— É mesmo? Façamos um acordo. Ainda há alguns milhares de sobreviventes. Pelos meus cálculos, eles morrerão no próximo minuto. Já que você diz que Brards tem tanto valor quanto Jomons, eu faço uma troca com você: a alma de todos esses sobreviventes, por esta aqui!

Enquanto Dhar falava, ele rasgou o espaço e uma grande força de atração pareceu se condensar sugando alguma coisa. Várias rachaduras de formaram uma em cima da outra até que finalmente elas atingiram o alvo.

Mikal.

Dhar parecia estar forçando Mikal para fora da dimensão paralela em que ele estava enquanto Mikal se debatia a permanecer por lá. Mas Mikal era de longe capaz de resistir a Dhar, e em poucos segundos ele estava parado flutuando em minha frente.

Eu senti meu peito afundar.

Mikal me olhou com o rosto vazio e nenhuma emoção escapava da mente dele. Parecia que ele não estava com medo, nem com o menor receio sobre o resultado dessa barganha.

— Não é muito ridículo da sua parte propor uma coisa dessas? — Eu olhei para Dhar com desprezo sem ser capaz sustentar o olhar dele por mais tempo. Então eles estavam mesmo juntos nessa. Ele tinha feito tudo isso para me colocar ali na frente de Dhar. Se ele era um dos homens de Dhar, então por que Mikal deveria temer alguma coisa? Ele não estava ali sendo realmente um refém. E eles ainda estavam tentando me atingir daquela forma covarde para manipular a filmagem que estavam fazendo.

— Escolha. Se você escolher este Jomon, eu o darei a você, e vocês dois podem sair vivos desse planeta. Mas se você escolher o restante dos sobreviventes, eu irei purificar a alma dele no lugar. — Dhar disse.

Eu senti meu sangue ferver. Como se eu realmente estivesse esquentando de tanta raiva. Eu estava com tanto ódio e pesar naquele momento que lágrimas brotaram do canto dos meus olhos.

— O tempo está passando… e cada vez mais pessoas inocentes estão morrendo!! — Dhar me apressou. Quando ele viu que eu não estava respondendo, ele sorriu, e continuou com um tom de voz provocativo — Vamos fazer o seguinte: eu vou decidir por você!

Depois, ele estendeu aqueles braços fantasmagóricos dele na direção de Mikal, como se estivesse indo abraçar um velho amigo, mas naquele momento, eu senti que ele não estava blefando. Ele estava mesmo sugando a alma de Mikal.

Mikal permaneceu imóvel, como se nada daquilo estivesse acontecendo com ele. Ele não parecia estar sequer sentindo, mas eu sabia que a dor de ter a alma dilacerada era algo insuportável.

Não…

Eu não conseguia. Eu não suportaria ver algo assim na minha frente… não com alguém que eu amava. Não importava que Mikal tivesse me traído. Eu mesma pensaria sobre isso depois, mas naquele momento, eu não estava mais pensando.

Meu corpo se moveu mais rápido do que eu tive consciência do que estava fazendo. Enquanto Dhar aproximava aquelas garras imundas contra Mikal, eu me joguei entre eles e o abracei, o protegendo com meu próprio corpo.

— Hoho! — Dhar gargalhou como se tivesse descoberto uma mina de ouro. Mas ele não recuou.

Naquele momento em que as mãos dele fizeram contato comigo, todo meu ser parecia ter sido batido em uma centrífuga. Pela primeira vez, e eu nem sabia como explicar isso, mas eu estava sentindo a passagem do tempo. Eu estava sentindo como se eu estivesse envelhecendo. Naquele momento minha mente entrou em branco.

Se Dhar estava ou não tentando consumir minha alma, eu não sabia dizer, mas meu sentia cada célula do meu ser ressoar com o poder dele, como se eu estivesse sujeita à vontade dele.

— Não! Afaste-se dela! — Mikal gritou, como se estivesse em algum lugar distante.

Quando eu ouvi a voz dele, eu reagi. Não… talvez fosse mais correto dizer que a matriz da Criação, do meu poder tinha reagido e se rebelado contra o poder de Dhar.

Eu não era um ser inferior a ele, então ele não poderia me subjugar. Todo o poder que eu tinha absorvido enquanto destruía os titãs foi liberado de uma vez.

Eu tive o mínimo de consciência de isolar Mikal para que ele não acabasse completamente carbonizado pela energia que saia de mim. Dhar, sem conseguir manter proximidade também se afastou.

Meus sentidos afloraram mais ainda. Era uma droga ter o poder da onisciência naquelas condições. Eu podia sentir toda a dor e o sofrimento das pessoas que ainda estavam vivas como se fosse comigo.

Dhar sorriu a contragosto, mas não parecia muito decepcionado com o resultado. Não importava para ele se ele conseguisse ou não me destruir. Ele já tinha conseguido o que queria.

— Você fez sua escolha. Um Jomon vale mais que a vida de milhões de Brards… Não pode dizer que eu não tentei ser benevolente.

A presença de Dhar desapareceu naquele momento. Assim como a presença de todas as outras almas sobreviventes.

Elas não se dissiparam e entraram no ciclo da vida. Elas foram devoradas para nunca mais existirem.

Naquele dia, Sátie deixou de existir.

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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