DCC – Capítulo 216

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Mikal Stanislav:


— Alésia! ALÉSIA!!! — Eu comecei a gritar. Mas parecia que eu não conseguia alcançar ela, mesmo que ela estivesse bem na minha frente.

Alésia tinha me prendido em uma espécie de bolha que eu não conseguia ultrapassar. E eu sabia que se eu saísse de dentro dela, eu estaria literalmente frito. Ela cobria o rosto com as mãos enquanto chorava de coração partido.

A mente dela estava à beira do colapso. Por que as coisas tinham prosseguido dessa forma? Eu não morreria da mesma forma se continuasse preso naquela bolha?

Eu não tinha escolha a não ser puxar ela de volta a razão. Mas ela não iria querer me ouvir. O que eu poderia fazer?

— Sophia! — Eu chamei. Eu ainda tinha acesso permitido para o console Sophia. Eu poderia usá-la.

— Instruções? — Sophia respondeu mecanicamente depois de ouvir eu chama-lo.

— Estabeleça contato com os outros usuários que tem acesso permitido a você, e faça uma projeção 3D deles utilizando o meu projetor de realidade aumentada. — Depois de pensar um pouco, eu também acrescentei — Entre em contato com este usuário aqui também — eu transferi o I.D. para ele — e passe um relatório completo da situação aqui. Ele vai saber o que fazer, eu espero…

Sophia era muito eficiente. Até onde ele sabia, eu tinha total confiança de Alésia, então ele não questionaria minhas ordens. Em menos de um minuto, todos os contatos de Alésia começaram a ser projetados ao nosso redor com a ajuda do meu projetor de realidade aumentada.

A primeira a atender foi Amelie. Ela estava com cara amarrotada, como se tivesse acordado a não muito tempo. Provavelmente no fuso horário em Keret onde ela estava era o meio da noite.

— Alésia! O que está acontecendo? — Ela perguntou angustiada. Amelie tinha um laço da alma com Alésia, dessa forma, ela provavelmente já estava acordada depois de sentir a aflição que a coisinha estava sentindo. Amelie estava muito preocupada.

— Amelie… — Alésia chamou com a voz quebrada entre soluços. — todos se foram… todos…

— Olhe para mim! Eu não estou fisicamente ao seu lado, mas eu estou aqui pensando em você! — Amelie tentou tranquiliza-la.

Logo depois as garotas da academia estabeleceram contato através do console Sophia e foram projetadas na nossa frente.

— Alésia, querida, eu não sei o que está acontecendo, mas você precisa se acalmar. — Briane disse.

— Todos morreram Briane… Eu… eu… — Alésia chorou mais ainda. Parecia que toda a força e pompa que ela estava ostentando na frente de Dhar eram apenas para show. De repente ela tinha voltado a ser apenas uma jovem Brard que estava com o coração partido.

As amigas de Alésia conversaram com ela por um tempo. A onda de energia que escapava do corpo dela se tornava apenas mais e mais forte. Eu, mesmo estando preso em um espaço isolado sentia a pressão esmagadora daquele poder. Eu não conseguia imaginar como ela conseguia suportar.

Mas depois daqueles poucos minutos, mais uma pessoa estabeleceu contato. Eu olhei para ele com os olhos arregalados e ele me devolveu um olhar frio e inexpressivo. Eu confesso que pedi para Sophia estabelecer contato com o I.D. que eu forneci na esperança de receber alguma ajuda ou orientação, mas eu não esperava ver ele ali. Era Siever.

— Alésia… — ele chamou calmamente.

Alésia congelou quando ouviu a voz do marido. Ela respirou fundo ainda soluçando e levantou o rosto das mãos, olhando diretamente para ele.

Siever parecia em um estado ainda mais caótico que Amelie. Ele parecia ter acabado de sair do próprio frenesi apenas para falar com Alésia. É claro… ele também podia sentir tudo o que ela sentia, então ninguém estaria mais claro que Siever sobre o estado mental de Alésia.

Alésia não disse nada, apenas ficou entre soluços olhando para a projeção de Henry sem se atrever a piscar, como se uma fração de segundo qualquer que ela passasse sem vê-lo fosse ser suficiente para partir o coração dela.

— Você parece horrível… — Ele disse.

De alguma forma, as palavras aparentemente insensíveis dele fizeram com que ela se acalmasse. Apesar da falta de tato, até eu fiquei sem jeito apenas por ouvir a calidez e a preocupação que ele estava expressando por ela, como se ele estivesse sofrendo terrivelmente por vê-la naquele estado.

— Henry…. todos morreram… Sátie morreu… — Alésia balbuciou ente soluços. Henry estendeu a mão como se quisesse tocá-la, mas parecia ter lembrado que estavam apenas se vendo por projeções — Eu não pude sequer proteger meus pais…

— Seus pais estão a salvo. Eu consegui movê-los de Sátie antes dessa tragédia. Quando for oportuno, você pode ir vê-los, então não se martirize demais. Nem eu poderia evitar o que aconteceu aí nessas condições.

As palavras de Henry finalmente pareceram ter trazido resultados. Alésia piscou várias vezes enquanto olhava para Henry sem conseguir se atrever a acreditar nas palavras dele.

— Você… foi você que levou meus pais? — Ela perguntou tentando confirmar e pela primeira vez desviou o olhar de Henry e me encarou brevemente antes de baixar a cabeça envergonhada.

— Sinto muito ter te preocupado. Eu não tive como te avisar…

Siever disse com a voz cheia de ternura e sofrimento. Alésia fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes tentando se acalmar depois de finalmente ter se dado conta que estava “extravasando demais”.

A energia que explodia para fora do corpo dela logo retornou até finalmente cessar, mas mesmo assim ela não tinha desfeito a barreira ao meu redor. Eu ainda estava preso. Comecei a ficar nervoso de novo.

Quando ela já tinha recobrado controle sobre o próprio poder, ela passou um bom tempo apenas olhando para a projeção de Siever.

— Você está bem? — Ela perguntou finalmente.

Siever sorriu pelo canto da boca.

— Já estive pior. — Ele disse parecendo estar de bom humor.

— Eu estou melhor agora… obrigada a todos… — Ela agradeceu olhando para as amigas e para o marido, —Mas agora não é seguro eu continuar conversando.

— Tome o seu tempo e tenha cuidado. — Uma das gêmeas falou. Eu não me preocupei em discernir qual delas.

Antes que as outras pudessem falar mais alguma coisa, a conexão foi encerrada e apenas a projeção de Henry continuou.

— Vou poder falar com você de novo? — Ela perguntou parecendo relutar em dizer adeus.

Siever balançou a cabeça.

— A não ser que outra situação do tipo ocorra, eu não acho que ele vá permitir que eu venha falar com você novo… — ele lamentou.

Alésia suspirou chateada, mas não disse mais nada sobre o assunto.

— Eu sinto sua falta…

— Eu sei, — Siever sorriu para ela, — eu também sinto sua falta, mais do que qualquer coisa nesse universo… mas agora você deve sair desse planeta. Não acho que você vá gostar do resultado se permanecer mais tempo.

Eu não entendi o que ele quis dizer até que ele fez menção de tocar no rosto dela e eu prestei atenção realmente. Ela… tinha envelhecido!

Alésia, uma Brard comum que tinha tido o corpo congelado no tempo na idade de uma adolescente parecia agora uma jovem mulher. Ela parecia ter crescido pelo menos uns 5 centímetros, e o rosto que ainda dava uma impressão infantil agora parecia mais refinado e austero. O rosto parecia ter se alongado mais deixando o nariz menos empinado e os olhos que eram mais redondos agora pareciam mais marcados dando a ela uma aparência bem elegante.

Alésia não teve coragem de encerrar a conexão com Henry, então ela simplesmente deixou estar e veio na minha direção. Ela me olhou intensamente e disse:

— Mikal… eu quero te pedir perdão, mas eu preciso que me diga… por que você fugiu?

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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