DCC – Capítulo 217

Encarando as consequências

 

Mikal Stanislav:


— Eu preciso mesmo responder a essa pergunta? — Eu perguntei levantando uma sobrancelha ainda um pouco em guarda, — Você mais do que ninguém deve entender o que é ser acusado injustamente de mentir. E o quanto adianta tentar se defender sem provas… Além do mais, pra um artista onisciente… isso é uma ofensa seríssima.

Alésia continuou me olhando como se o que eu tivesse dito não fosse relevante.

— Desconsiderando isso…. você tem consciência de si mesma? — Eu perguntei levemente irritado — Você aniquilou completamente quase meia dúzia daqueles titãs assustadores, como você não faria algo do tipo comigo se estivesse suspeitando de mim?

Depois disso, ela ficou indignada.

— Eu não…

— Você não? — Eu a interrompi. — Você olhe nos meus olhos e me diga que eu não teria nada a temer se eu continuasse do seu lado e esperasse que você acreditasse em minha inocência! Principalmente depois dessa merda acontecer aqui justo quando nós pousamos!

Ela não conseguiu continuar. Alésia abriu a boca para falar várias vezes, mas desistiu. Então ela simplesmente baixou o olhar e encarou os próprios pés.

— Mikal, você é uma das pessoas mais queridas que eu tenho. Eu realmente confio em você… eu… eu poderia ter salvo tanta gente… mas não poderia suportar ver Dhar tentar fazer algo contra você. Eu não poderia suportar levantar minha mão contra você. Foi só que a forma como as coisas aconteceram naquela hora… eu fiquei tão assustada com a possibilidade de você realmente… e você simplesmente sumiu! Eu não sabia o que pensar depois…

— Você pode até dizer que não suportaria levantar a mão contra mim, mas eu não me atreveria a arriscar. Não é como se você já não tivesse ousado trancar emoções que você não suportasse encarar. Você não pode dizer que eu ainda estaria vivo ou inteiro se eu tivesse apostado para ver.

— Mesmo assim você não foi embora… — ela disse ainda olhando para os pés — Eu não sabia se Dhar estava vendendo você como homem dele ou apenas jogando comigo… eu só… não consegui olhar e ver você sofrer nas mãos dele.

— Você é mesmo muito ingênua ainda… — Eu suspirei massageando minha testa — O que teria sido de você agora se eu não tivesse ido? Dhar não perceberia que você estava suspeitando de mim? Ele não iria usar essa oportunidade pra destruir você de dentro pra fora? Pelo que eu pude perceber, ele não domina onisciência então ele não percebeu isso, se não a estratégia dele teria sido diferente.

— E então, você se arrependeria eternamente depois de descobrir a verdade e Dhar ainda teria matado todas essas pessoas da mesma forma, e mesmo que seu corpo esteja forte o suficiente para aguentar essa descarga de energia, isso não é por tempo ilimitado. Você iria acabar ferida de novo.

Quando eu acabei de falar, Alésia não tinha mais nenhum interesse em se defender. Ela também já tinha aceitado os fatos. Ela também se conhecia. Apesar dela não querer aceitar os fatos, era inegável que ela era assustadora e extremamente perigosa se estivesse instável.

E ela estava completamente instável naquele momento!

Quem seria louco de encarar ela de frente? Eu não era Siever!

— Eu sinto muito… Você pode me perdoar? — Ela perguntou sinceramente.

— Eu… — o que eu poderia dizer naquele momento? Apesar de ela ter amadurecido bastante nos últimos tempos, eu ainda não conseguia deixar de vê-la como uma garotinha que tinha acabado de ser repreendida depois de fazer malcriação. — Eu realmente tenho medo de você Alésia. Em uma ocasião em que você esteja abalada, eu tenho medo que você não pare para pensar com calma antes de começar a agir e acabe atacando a pessoa errada. Depois que isso acontecesse, seria muito tarde para se arrepender.

Eu estava muito magoado com aquela situação. Ok, dava para entender o lado dela… todos os acontecimentos foram muito… coincidentes. Eu tinha que dar o braço a torcer pro fato de que eu também ficaria com o pé atrás. Mas pelo menos eu sei que eu não aniquilaria ninguém num momento de raiva. Mesmo assim, eu poderia sentir o remorso dela mesmo que eu estivesse há mais de 100 km de distância e isso estava me deixando um pouco perturbado.

Eu olhei para as minhas mãos e pude notar a mudança drástica que tinha acontecido comigo. Mesmo estando protegido pela magia da garota, eu ainda fui afetado pelo poder de Dhar também. Acho que eu deveria ter envelhecido menos um século mais velho agora… Um século a menos de vida no futuro…

Mas a informação que eu consegui coletar era muito importante. Dhar não dominava onisciência e mesmo assim era capaz de evitar que a mente dele fosse lida. E o poder da onipresença dele… estava muito além do que eu era capaz de mensurar. Eu não precisava ser modesto em pensar que eu era uma das pessoas mais poderosas nesse campo da galáxia… mas Dhar…

Acho que sequer dava para contar com ele como sendo uma pessoa.

Marco Gionardi:


— Um exército… — eu comentei em voz baixa acompanhando o novo vídeo postado, dessa vez com a ilustre participação especial de Dhar.

Ele literalmente tinha vendido Alésia para o mundo humano como uma aliada minha. Quer ela quisesse, aceitasse ou negasse, esse seria um dos fatos mais veiculados nos próximos dias:

A esposa de Henry Siever era uma Brard. Aliada do imperador. E o pior… ele tinha feito parecer que a culpa pela morte daquelas pessoas tinha sido dela… que ela poderia ter feito a escolha lógica de salvar a vida dos Brards, mas a vida de um Jomon só era mais importante… Era uma jogada de mídia muito baixa… e inteligente.

Só tem uma coisa que estava me incomodando mais ainda naquele momento. Sátie estava completamente fora da rota de destruição de Dhar. Ele tinha descoberto que era o planeta natal de Alésia e tinha ido até lá deliberadamente para ataca-la? Não… se fosse isso, ele não teria deixado ela livre. Só poderia ter sido uma coincidência. O universo estava começando a convergir para o nosso encontro. Mas para que tal coincidência ocorresse, Dhar ainda iria precisar de um objetivo para ir lá… um planeta completamente fora da rota.

Eu precisava investigar isso.

Alésia Latrell:


— Eu… Eu não vou mais argumentar sobre isso… — Eu respirei fundo. Mikal também já tinha percebido que tinha sido afetado pelo poder de Dhar. Eu tinha que retirá-lo de Sátie antes que ele fosse afetado além do que pudesse ser revertido.

Eu estava muito, muito cansada. Quando eu achava que meu corpo estava começando a se adaptar ao impacto da Criação, vinha outra tragédia e me fazia extrapolar o limite anterior. Minhas emoções estavam me deixando muito instável. E eu tinha colocado Mikal em perigo… e eu era o perigo.

Elas estavam sendo um obstáculo.

Eu respirei fundo mais uma vez…

— Você tem razão Mikal, eu não pensaria duas vezes antes de tancar as emoções que eu achasse que estivessem no meu caminho de agir. Eu não quero fugir da responsabilidade de suspeitar de você e te ameaçar, mas neste momento, é mais seguro se eu estiver no mundo da razão e não da emoção.

Diferentemente de quando eu estava na Lua Laplantine, em que eu não podia controlar esse poder e não sabia o que estava fazendo, ao ponto de me transformar em apenas uma máquina de combate com desejo de sobreviver acima de tudo, eu poderia direcionar agora e controlar… toda a minha dor, tristeza, raiva, sofrimento, ansiedade… qualquer coisa que eu estivesse sentindo naquele momento, eu apaguei da minha mente. Eu pensaria em lidar com todas aquelas coisas em outro momento.

Naquela hora eu precisava apenas pensar em tirar Mikal e o último sobrevivente de Sátie dali…

 

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!