DCC – Capítulo 222

Acolhimento

Marry Briane:


As meninas correram emocionadas para cima de Alésia, comigo na dianteira, mas infelizmente, ou felizmente, não sei mais, tivemos que parar nossa intenção de cobri-la entre nossos braços quando chegamos perto.

Não estava em um nível insuportável, mas ela estava consideravelmente gelada. Não que Alésia algum dia tivesse dado uma sensação de frescor e acolhimento para quem estivesse perto dela, mas ela também nunca tinha dado a impressão de que iria congelar alguém só por estar no mesmo cômodo.

Eu lembrei do tempo que nos conhecemos, que as vezes, depois de um dia de aulas, ela se recolhia para o quarto tremendo um pouco, mesmo sempre usando casaco e luvas, mas agora… ela sequer tremia, mas de certa forma isso ainda dava uma sensação de “frieza” muito pior. Era como se ela tivesse se tornado indiferente a tudo… até a si mesma.

— Você está bem? — eu disse me aproximando mais devagar e sentando ao lado dela.

Então pude ver de perto o estado em que ela estava. Ela parecia ter envelhecido várias décadas desde a última vez que nos vimos. Não era figurativamente. A aparência dela estava muito mais envelhecida. Antes ela ainda tinha uma aparência que lembrava uma jovem no fim da adolescência. Agora, se ela fosse uma Jomon, ela pareceria ter pelo menos dois séculos de idade.

Não que isso tivesse feito algum mal para a aparência dela. Agora ela parecia muito mais refinada e austera, mas a expressão dela era um tanto intimidadora. E modéstia a parte, eu não era nenhum peso morto no curso de artes oniscientes, então eu fiquei chocada por não poder sentir nenhuma emoção sequer emanando dela.

— Ainda não, mas vou ficar… — ela respondeu monotonamente.

— Você está ferida? Você parece exausta… Não quer dormir um pouco? — Michelly perguntou segurando a mão de Alésia por alguns segundos antes de estremecer e soltar.

— Desculpe… eu acabei exagerando um pouco durante…. o incidente, talvez eu esteja afetando um pouco demais os meus arredores. — Alésia disse.

— Oh, minha querida, não se preocupe com essas coisas… estamos aqui por você, pro que precisar. — eu comentei angustiada por ela.

Depois de tudo o que ela tinha feito por mim e meu planeta, não tinha como eu virar minhas costas para ela, não importava o que falassem por aí, não importava quem estivesse com a verdade. A única coisa que eu sabia, é que Alésia era minha amiga. Então eu seria amiga dela até o fim dos meus dias. Alésia olhou para mim e sorriu educadamente, antes de respirar fundo com os olhos fechados.

— Os tempos vão mudar bastante nos próximos dias… Nesses meses que estive viajando, eu tentei me preparar o melhor que pude. Mas eu não tinha como me preparar para o que aconteceu. — Alésia começou a desabafar com a voz arrastada, ainda de olhos fechados. — Eu não sei nem mais contra o que eu estou lutando. Se é contra o imperador que tirou meu marido de mim, ou sé contra Dhar que quer destruir o império e todas as pessoas que estiverem nele…

— Você é uma pessoa só. Não tem que carregar esse fardo sozinha! — Márcia tentou argumentar — Pelo que andam divulgando na macronet, essa magia desconhecida que Dhar domina é algo completamente novo. Não tem como ninguém se preparar. Todo mundo aqui na academia está tenso achando que o seu planeta pode ser o próximo. Principalmente os Brards… Ele conseguiu instaurar a ordem do terror no coração das pessoas. Mas não precisamos passar por esse momento isoladas. Você pode contar comigo para te dar apoio.

Alésia abriu os olhos cansados e sorriu para Márcia. Dessa vez era um sorriso um pouco mais acalorado. Ou melhor… um pouco menos gélido. Então ela voltou a fechar os olhos e se recostou mais ainda no sofá.

— Eu me sinto tão cansada… cada vez mais cansada… Não importa o quanto eu durma, eu não consigo descansar… Eu estou cansada de ter que encarar todos esses problemas um após o outro. Parece que nunca vai ter uma solução… infelizmente, achar ruim não vai mudar o fato de que eu ainda tenho que lidar com tudo isso… Mesmo assim, não importa como, não importa quantas vezes eu tenha que tentar de novo… eu vou continuar tentando… até conseguir…

A voz de Alésia foi ficando cada vez mais arrastada, até que ela finalmente dormiu ali mesmo no sofá entre a gente. Parece que ela precisava de um pouco de paz e apoio para conseguir relaxar o suficiente para dormir.

Enquanto ela respirava calmamente, ela tinha voltado a ter aquela expressão como se fosse uma jovem adolescente que tinha acabado de ter um problema com os coleguinhas da escola e tinha voltado para sentir o colo da mãe.

Eu imagino como Alésia tenha passado esses momentos no tempo dela. Cada pessoa tem suas formas de lidar com as situações. Eu sorri meio contrafeita pensando em como eu costumava pensar que os adolescentes eram muito exagerados e descontrolados. Mas se parar para pensar… eles ainda estavam aprendendo a lidar com suas emoções, então é óbvio que tudo seria mais doloroso ou mais prazeroso. Acho que por não saber sofrer, eles acabavam sofrendo bem mais do que deviam…

E ali olhando para a Alésia, pensando em todas as mágoas e cicatrizes que eu sabia que ela tinha, e ainda mais as que eu não sabia, eu imaginei como foi que ela aprendeu a lidar com o próprio sofrimento. Eu imaginei tudo o que tinha acontecido com ela para chegar ao ponto em que a frieza que ela tinha na pele tivesse se impregnado na própria alma.

Michelly correu para o quarto e pegou todos os cobertores que podia para Alésia. Pensamos em movê-la para uma das camas, mas ficamos com medo de acordá-la, e já que ela parecia estar tão confortável entre nós, decidimos deixa-la lá no sofá enquanto velávamos o seu sono.

Mais ou menos meia hora depois que ela tinha adormecido, alguém tocou a campainha.

— Por que resolve aparecer visita justo hoje? — Isabel comentou levemente irritada.

— Não tem problema, eu vou lá ver quem é pedir para ir embora. — Eu me ofereci, mas fiquei surpresa quando vi quem estava do outro lado da porta — Stanislav! — Eu exclamei surpresa.

Mikal Stanislav, o notório filho da Hus Stanislav estava mais uma vez na minha frente. Mas ao contrário de toda a glória e pompa de riquinho mimado que ele tinha quando o vi a primeira vez, ele estava bastante detonado.

Ele também parecia ter envelhecido bastante de uma hora para outra. Parecia pelo menos um século mais velho. E sem forçar aquela cara de guaxinim nojento e irritante que ele tinha quando lidava com as outras pessoas, ele parecia muito mais bonito e simpático.

— Olá… você é? — Ele perguntou distraidamente passando a mão pelos cabelos. — Ah sim… Briane, não é isso? Desculpe a intromissão.

Ele disse já entrando no apartamento sem esperar que eu dissesse mais nada e caminhou até o centro da sala e ficou olhando para Alésia, parecendo bastante incomodado. As outras meninas rapidamente se colocaram entre o Stanislav e Alésia antes de perceberem quem era. Acho que mais do que lembrar quem ele era, elas o reconheceram pelo vídeo que estava rodando pela Macronet. Ele era o Jomon que esteve no planeta natal de Alésia junto com ela, e quem entrou em contato conosco pedindo socorro durante a noite, então ele devia ser um aliado. Ele suspirou bastante resignado parecendo tirar um enorme peso das costas quando a viu dormindo.

— Pelo menos agora ela pode descansar um pouco… — ele disse aliviado, então ele olhou para cada uma de nós e disse profundamente agradecido — Muito obrigado pela ajuda com a menina. Sem vocês, ela provavelmente teria sucumbido ao próprio sofrimento e sequer teríamos conseguido deixar aquele planeta. Nós devemos nossas vidas a vocês.

— Ah, não diga isso… nós somos amigas dela, é claro que estaríamos a disposição para ajudá-la. — Michelly disse um pouco agitada.

— Uma pena que não somos fortes o suficiente para poder acompanhá-la… — Eu lamentei.

Stanislav se virou para mim com uma orelha levantada parecendo incerto sobre o que eu disse, mas no fim suspirou.

— Eu acho que no fim das contas, ninguém é forte o suficiente para conseguir acompanhá-la… — Ele lamentou. — Enfim… eu preciso ir, eu… — ele se virou para mim depois de lançar um último olhar avaliativo sobre Alésia, e me entregou um drive externo — … eu vou deixar isso com você. Eu preciso voltar para casa e não vou poder esperar por ela acordar. Eu deixei uma mensagem para ela nesse drive, então se puder me fazer a gentileza de entregá-lo para mim.

Então ele estendeu a mão vazia para pegar a minha e a segurou delicadamente entre ambas as mãos fechando meus dedos entre o drive sorrindo gentilmente sem perder um momento de contato visual.

Contato físico entre oniscientes, que não tivessem uma relação próxima, era um dos maiores tabus da comunidade de artistas mágicos, e só era feito quando se tinha a intenção de compartilhar segredos… todos os segredos. Por que o contato físico permitia que ambas as partes vissem os pensamentos e emoções um do outro. Mas enquanto eu olhava para ele, isso sequer se passou pela minha mente.

— Eu…claro! Não se preocupe… — Eu balbuciei depois que ele soltou a minha mão e caminhou até a saída do apartamento.

— Obrigado mais uma vez… — ele disse, e partiu sem se virar para trás uma segunda vez.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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