DCC – Capítulo 225

As memórias de Mikal – parte 1

 

Mikal Stanislav:


 Quando comecei a estudar magia, ainda muito jovem, como um bom aristocrata de uma das grandes famílias, em algum momento um dos amigos da família tomou interesse por mim e me apresentou a um tutor muito poderoso que passou a me ensinar pessoalmente

Eu provavelmente não tinha um século de idade, e apesar de isso ser facilmente dez vezes mais que a idade de Alésia, eu ainda era uma criança pequena de corpo e alma.

O que é sempre uma das desvantagens de ser um legítimo Jomon… vivemos muito, mas demoramos igualmente para amadurecer.

E enquanto eu ainda parecia e me comportava como um garotinho mimado, esse tutor tomou conta de mim.

Eu não dava valor suficiente para o que ele me ensinava, mas sempre parecia ser algo completamente insignificante para se dominar magia.

Mas eu me divertia. Ah, e como… apesar de já ser um senhor bem idoso nas suas últimas décadas de vida, ele sabia bem aproveitar o tempo dele. Parecia que nunca era suficiente para ver e aprender tudo.

Mas eu só tinha me dado conta de que o tempo dele estava acabando quando eventualmente em um dia comum ele entrou em colapso pela primeira vez.

Ele sabia que o tempo dele estava chegando e não parecia se importar com isso… não que ele quisesse morrer, muito pelo contrário..

Como alguém que soube aproveitar a vida, ele tinha plena consciência que a morte também era algo inevitável. Era a próxima grande aventura que ele esperava encarar.

Enquanto eu o acompanhava em seus últimos anos, descobri por que ele estava me treinando. Justamente no dia em que ele me levou para conhecer o imperador Gabriel.

— Eu imaginei que fosse vê-lo eventualmente, mas não pensei que fosse ser tão cedo. — o imperador disse para o ancião meu lado.

Agora, que espécie de conceituar aquele em que o imperador em pessoa precisava prestar respeitos a uma pessoa comum? Isso sem contar que a própria expressão dele era de quem estava encarando uma pessoa extraordinária.

Eu olhei para o meu tutor sem entender aquela situação. Ele sempre tinha meio parecido uma pessoa relaxada demais, divertida demais para ser levado a sério.

Ah, eu era só um garotinho. Eu sequer tinha ideia do peso do meu sobrenome, imagine ter ciência do peso que era ser o tutor de um dos descendentes dos Stanislav?

Normalmente eu só pensava nele como um velho excêntrico que tinha sido indicado por um dos amigos do meu pai para me divertir. Dá vontade de rir desses pensamentos tolos sempre que eu lembrava deles.

Mas tudo bem, eu ainda estava aprendendo, mas, ante o terror percorrendo pela minha espinha quando o imperador Gabriel virou a atenção para mim, dessa parte eu nunca achei graça…

— Este pequeno por acaso é alguma indicação de sucessor? — o imperador perguntou enquanto me olhava de cima a baixo.

Eu senti todo o meu ser sendo avaliado, como se não tivessem segredos que pudessem ser guardados daquele homem… como se não houvesse nada que ele não pudesse fazer.

Sem que eu percebesse, já tinha recuado para trás do meu tutor tentando me esconder, como se isso fosse de alguma ajuda. Os adultos riram de mim naquele momento.

Eu me agarrei nas roupas dele enquanto encarava o chão. Foi quando percebi o quanto aquele homem me passava uma sensação de segurança. Ele passou a mão em minha cabeça amavelmente, como quem dizia que não havia nada a temer.

— Sim e não… — o ancião respondeu a pergunta do imperador. — Este jovem rapaz na verdade é meu protegido. Quando eu retornar novamente será ele que irá me apresentar.

— Ah…  entendo — o imperador comentou depois de um suspiro. — Devo apresentá-lo então para ordem dos guardiões do segredo?

— Não, ele ficará de fora. Apenas Elias dentro é suficiente. Eu não tenho nenhum plano especial para o garoto, ele ainda é muito novo e não pude ensiná-lo propriamente. Dê algum suporte a ele para o que ele quiser fazer e isso basta. Quando eu voltar, se ele tiver feito escolhas ruins, eu mesmo me encarrego de discipliná-lo corretamente.

O tutor disse ao imperador enquanto olhava com afeição para o projeto de gente que eu era naquele tempo.

— Bom, o garoto é um Stanislav, ele provavelmente vai se dar bem — o imperador comentou com alguma confiança.

— Assim espero… — meu tutor comentou de volta com um grande sorriso no rosto.

Naquele dia os dois ainda conversaram por um bom tempo, mas eu marquei apenas aquela parte em minha memória. Quando fomos embora voltamos aos nossos dias normais. A próxima coisa que eu me lembro foi quando ele me chamou para uma conversa séria alguns anos depois:

— Mikal, qual é a sua grande ambição nessa vida? — ele me perguntou com uma expressão mais séria que eu já tinha visto fazer.

Eu fiquei um pouco arranhado com a pergunta repentina, mas ainda pensei seriamente em uma resposta:

— Acho que… viajar? — respondi com um pouco de incerteza.

Meu doutor me olhou intensamente como se estivesse vasculhando cada pedaço das minhas palavras à procura de alguma coisa que eu não sabia o que era. Era aquela sensação desconfortável que eu tinha sentido quando conheci o imperador pessoalmente.

Mas, diferente do imperador, me dava uma sensação de inundação e sufocamento, daquela vez parecia que eu estava flutuando relaxadamente em águas calmas. Quando ele pareceu satisfeito, ele sorriu para mim e bagunçou meu cabelo.

— Garoto, você entende que eu estou de partida? — ele perguntou.

Eu não gostava daquele assunto. É claro que eu entendi que ele estava “partindo”. Então eu fracamente acenei com a cabeça confirmado. Afinal era inevitável, ele já estava muito velho e o corpo já estava falhando havia muito tempo. Em algum momento não haveria mais conserto.

— Se um dia eu voltasse, você estaria disposto a continuar ao meu lado? — ele perguntou parecendo um pouco misterioso.

— Mas é claro que sim — respondi sem hesitação nenhuma.

Ah, a inocência de uma criança… eu sequer sabia o que estava aceitando, só sabia que queria continuar perto dele. Ele era muito mais divertido, atencioso e carinhoso do que qualquer membro direto da minha família.

— então escute atentamente…

Depois daquilo nós conversamos por horas, mas no dia seguinte, por mais que tentasse, eu não conseguia lembrar de nada do que ele disse além do começo daquela conversa. No mesmo dia ele foi embora. Elias apareceu para buscá-lo enquanto ele ainda tinha forças.

Pouco tempo depois eu recebi a notícia da morte dele.

Faz parte…

Eu sabia disso, eu passei anos esperando… eu passei anos me preparando. E mesmo assim eu chorei, como a criança imatura e despreparada que eu era.

Quando Elias voltou com a notícia, eu sabia que ele tinha ido embora para que eu não o visse morrer.

Ele tinha sido meu tutor, minha família e meu amigo durante anos da minha vida, da minha infância. O que restava para mim era voltar a ser orientado pelos professores e pela educação tradicional dos Stanislav.

Então sem saber ao certo o que motivava, eu seguir em frente até que um dia ele me ligou.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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