DCC – Capítulo 227

As memórias de Mikal – parte 3

 

Mikal Stanislav:


Ter de repente me tornado responsável pela vida de outra pessoa, de uma hora para a outra, me deixou completamente sem chão. Mas ver uma criança crescer… conviver com ela todo dia, não tinha como não me envolver. Felizmente Marco era um garoto fácil de lidar e eu acabei me apaixonando pelo lado fofo dele e toda a inocência que ele tinha apesar de todo o conhecimento.

Elias providenciou um encontro com o imperador que aceitou ver o garoto no exato momento em que ficou sabendo que colocamos os pés em Keret. Marco não lembrava de muita coisa realmente da vida dele como Olavo, ele explicou que sabia o que precisava saber e, eventualmente à medida que fosse ficando mais velho, ele iria lembrar de mais coisas.

Era estranho. Parte do tempo ele era literalmente uma criança descobrindo sobre o mundo pela primeira vez, na outra parte, ele era como uma miniatura de um adulto careta.

Marco não lembrava Olavo em nada. Os dois não tinham os mesmos gostos, nem a mesma personalidade. Olavo era descontraído e alegre e dinâmico, enquanto Marco era um garoto que apesar de bem comportado, parecia estar sempre tenso e em guarda. Eu nunca consegui enxergar os dois como “a mesma entidade”. Mas eles tinham mesmo uma coisa em comum: muita, muuuuita curiosidade.

Orientado diretamente pelo imperador Gabriel, eu levei o menino para um planeta pacífico fora dos perímetros do império. Todos os custos estavam sendo cobertos pelas contas antigas de Olavo, inclusive a propriedade onde ficamos tinha pertencido ao meu antigo tutor.

Marco chegou cedo na idade de aprender magia e foi basicamente um autodidata. Ele se dedicou a isso ferventemente, dia e noite até que tivesse masterizado toda a base antes mesmo de completar 120 anos por simples e puro tédio. Ele queria terminar o mais rápido possível e assim ter mais tempo para outras coisas.

Eu estava impressionado com o talento e com o desprendimento.

Ele dizia que não tinha realmente interesse em magia, isso era uma coisa que ele já tinha aprendido de novo e de novo em outras vidas e estava aprendendo mais uma vez apenas porque era útil como ler e se comunicar. Apesar dos sentimentos e sensações não passarem adiante normalmente nas encarnações, ele já estava saturado com a ideia de ter que passar mais outra vida inteira dedicada a magia. Dentro dos parâmetros dele, não era nada impressionante.

Marco queria ser médico. Ele tinha muito interesse pela medicina e dizia que depois de alguns pequenos avanços da área em algumas partes, já estava na hora de dar passagem para um grande progresso.

É claro que eu fui incrédulo… quantos milênios tinham se passado sem que a medicina progredisse significativamente?

Mas quem era eu pra duvidar?

Lá estava o pequeno monstrinho me provando sempre que eu estava errado em sequer pensar em ter dúvidas.

Assim, ficamos juntos por várias décadas e quando Marco já estava para completar 150 anos ele impacientemente se matriculou na academia. Ele teria ido bem mais cedo não fosse a tentativa de não chamar tanta atenção… demais… quero dizer, uma aberração de apenas 150 anos na academia? Quantos desses já tinham existido na história? Imagine mais jovem…

Ele simplesmente era um gênio que não podia ser medido dentro dos padrões normais. Eu me conformava ao lembrar que afinal ele era uma legítima encarnação com memórias vividas das vidas passadas.

Era como se ele tivesse um bug na mente em que todo o conhecimento que ele tinha acumulado ao longo das vidas estava a disposição como se ele tivesse aprendido pessoalmente.

A parte interessante é que ele não foi o único a me impressionar na mesma época. No ano em que Marco entrou na academia, outro rapaz notável também na casa dos meros 150 anos de idade tinha se matriculado.

Parecia o destino se dobrando para abençoar o encontro lendário entre Marco e Henry Siever. E de repente eu me senti orgulhoso por ter criado um garoto tão bom, capaz de formar laços tão bons já que eu não sei o que se deu entre aqueles dois, apesar de Marco ter crescido comigo e de termos construído a nossa parcela de amizade e confiança, a forma como ele e Henry se deram tão bem ainda hoje me impressiona.

Marco não era do tipo que se dava bem com qualquer um. Muito pelo contrário, sem papas na língua, quando ele realmente não gostava de alguém ou de alguma coisa ele fazia questão de demonstrar. Ele nunca aceitava engolir nenhuma farpa… não era todo mundo que ia aceitar escutar umas boas verdades na cara.

Marco e Henry se tornaram amigos e confidentes. Marco estudava no centro de engenharia médica enquanto Henry passava os dias no centro de magias.

E é claro que Marco não demorou muito para perceber o descontentamento que Henry sofria ao ter que se obrigar a estudar magia.

No começo Henry não deixava bem claro, com um  talento equiparável ao do melhor amigo para a onisciência, ele escondia bem os sentimentos, então Marco simplesmente achava que o amigo tinha apenas alguma curiosidade pela área da medicina ou por qualquer outra coisa que não fosse magia. Foi apenas quando o interesse do Imperador em tomar Henry como discípulo direto e torná-lo o futuro herdeiro do trono do império que Marco percebeu o desespero bem escondido no fundo dos olhos de Henry.

Eu e Marco já não convivíamos mais diariamente. Ele cuidava da própria vida no campus, enquanto eu tinha voltado para Keret e trabalhava para o Imperador, mas quando ele entrou em contato comigo pedindo para avisar Gabriel Gionardi que ele estava vindo para Keret para uma audiência, é claro que eu sabia que alguma coisa não estava certa.

Eu me afeiçoei ao garoto mais do que devia… era de se esperar depois de ver aquelas bochechas fofas de bonequinho se tornarem um rapaz impressionante. Então quando eu senti a preocupação dele e o desespero em salvar o melhor amigo, eu também me senti preocupado.

Mesmo assim, eu ainda não sabia por que tanta relevância era dada a ele, como se fosse algo além do próprio Imperador, como se nem mesmo o humano mais poderoso e importante da galáxia ousasse ir contra a vontade de Marco. Então o Imperador aceitou receber Marco, um mero garoto, que tinha exigindo uma audiência com o dito homem mais poderoso, importante e ocupado do império, no momento em que pôs os pés no planeta.

Mesmo assim, o meu maior choque foi ter ouvido o conteúdo da conversa entre os dois.

Marco simplesmente bateu de frente com o imperador… O Imperador! Exigindo que Gabriel retirasse seus olhos de Henry Siever.

Pior ainda, foi quando eu vi o Imperador pessoalmente tentando argumentar com aquele garoto! Os dois discutiram por horas, Marco não queria dar o braço a torcer e nem Gabriel podia dar o braço a torcer.

O acordo veio quando Marco se ofereceu para o cargo do herdeiro. Henry parecia preferir morrer a seguir carreira na magia, principalmente um cargo tão restritivo como o de Imperador, e Marco não queria ver esse cenário se realizar, não importa que preço ele precisasse pagar. Não importava que ele mesmo precisasse de sacrificar por isso.

Eu nunca duvidei da capacidade de Marco, principalmente por causa disso, eu não conseguia imaginar ele como sendo alguém que se misturasse com outras pessoas tão facilmente. Me dava arrepios imaginá-lo sendo um diplomata, mas só de pensar que havia alguém que era capaz de domar as emoções daquele monstrinho… naquele momento eu comecei a pensar que Henry Siever deveria ser alguém igualmente incrível.

E apesar da minha curiosidade me roer por dentro, eu sabia que nunca poderia perguntar que tipo de identidade Marco tinha realmente, ou qualquer uma de suas encarnações passadas, para que tivesse tanto poder a ponto de manipular as decisões do Imperador, a não ser que ele mesmo quisesse me contar.

E simples assim, apenas porque Marco quis, o Imperador desistiu de tornar Henry Siever seu herdeiro. É claro que não foi algo tãããão simples assim, por conta de todo um processo de transição em total segredo de Estado… todos os dados públicos de Henry foram alterados e apagados até que ele simplesmente se tornou um mero aluno sem passado do centro de engenharia médica tomando a antiga vaga de Marco. Quando Siever descobriu sobre isso, tudo já estava feito. Foi a primeira vez que eles brigaram, pois Siever não queria aceitar que o melhor amigo se sacrificasse por ele… Marco também detestava a ideia de trabalhar com magia e ser o Imperador era literalmente uma forma de servidão.

Claro que a Casa dos Siever não ficou nada contente, mas o que eles poderiam fazer sendo que o filho tinha o aval do Imperador em pessoa e de seu novo herdeiro para fazer o que quisesse?

Vários anos depois, quando a posição de Marco tinha se tornado estável como herdeiro do Império, Gabriel finalmente o levou para uma reunião com um grupo de amigos que sempre vinham para o salão no segundo piso.

Haviam vários rostos conhecidos e famosos, alguns nem tanto, mas com certeza aquele era um grupo de pessoas muito poderosas. Eu não sabia e nem poderia pensar em que é que eles tanto conversavam naquelas reuniões, eu só sabia que agora Marco fazia parte daquele meio

Depois de tantos segredos expostos e escondidos, a única coisa que eu tinha certeza era: Marco era uma encarnação de uma entidade antiga e importante e que as pessoas que sabiam disso eram apenas eu, o Imperador e Elias…

Mais anos se passaram como fumaça e eu percebi que alguma coisa tinha acontecido com aquele grupo estranho de “amigos” do imperador. Uma das figuras, um jovem que parecia não ter nenhum traço memorável caiu doente. Eu só podia imaginar a gravidade da situação pelas expressões fúnebres dos outros e a urgência com que Marco convidou Henry, já um médico renomado, para lidar com ele.

Infelizmente, mesmo com toda a capacidade de Siever, o rapaz não resistiu… Eu não sei o que aconteceu depois disso, mas a última vez que eu tinha visto Marco com uma expressão daquelas, foi quando ele tinha decidido abandonar a família que o maltratava.

Ou melhor, nem isso… o desespero nos olhos dele eram ainda mais profundos que os de Henry quando pensou que seria obrigado a servir o império.

Nunca mais ele e Henry foram tão próximos.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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