DCC – Capítulo 239

Reprogramação

 

Henry Siever:


Depois disso, estávamos todos na frente aposentos pessoais de Marco. Apenas duas pessoas tinham autorização de entrar lá pessoalmente além dele, então eu nos transportei para o lugar mais próximo.

— Espere aqui, — eu disse para Alésia enquanto Isaac e eu entramos.

Levei Marco até a cama dele, e o coloquei na cama. Ele estava mesmo acabado, revirando fracamente como se estivesse tendo pesadelos. Eu resisti fortemente ao impulso de invadir a mente dele e dissecar memória por memória o que diabos ele escondia ali dentro.

Isaac se sentou ao lado dele da cama e ficou o olhando cheio de preocupação. Ele estava para explodir com uma imensidão de emoções diferentes circulando pela mente dele. Ele tinha tantas saudades de Alésia quando ela partiu sem dar notícias, que Isaac tinha se sentido abandonado e magoado. Agora que ela tinha voltado, ele tinha se tornado arredio com ela.

Tudo o que ele sabia e conhecia não era suficiente para ele conseguir avaliar corretamente toda a situação, então ele culpava Alésia. Eu suspirei e puxei o garoto pra perto para um abraço rápido.

— Não se preocupe. Eu vou cuidar dele até ele acordar. — Não que eu tenha outra escolha. Aparentemente ele tinha previsto alguma situação assim e já tinha me deixado uma coleção de ordens predefinidas de o que eu poderia e não poderia fazer a muito tempo. — Considerando o desgaste físico que ele já tinha acumulado antes, mas o desgaste de lidar pessoalmente com a Criação, ele vai ficar de um a três dias desacordado.

— Por que ela fez isso? — Ele perguntou fracamente.

Eu suspirei mais uma vez. Como diabos eu podia responder isso sem destruir a imagem que ele ainda tinha de Alésia e nem abalar a relação que ele tinha com Marco?

Por que, simplesmente o fato de Marco ainda levar o cargo como imperador a sério de verdade era o único motivo que tinha sobrado pelo qual eu ainda o respeitava vagamente então eu não conseguia entender que tipo de demência ele estava praticando agora para chamar Alésia para uma luta.

Ah, por que com certeza tinha sido ele. Não que eu não acreditasse que Alésia não tivesse a gana de desafiá-lo… era óbvio que ela também desejava quebrar um ou dois braços dele — a satisfação disso foi inesquecível, mas eu sabia que ele não era burro para aceitar… a não ser que tivesse um motivo.

E Marco com certeza tinha um. Eu tinha pensado em três formas de como interpretar esse momento:

Ou ele não levava mais a sério o próprio trabalho.

Ou ele tinha perdido a paciência em brincar de imperador e tinha realmente me capturado para me forçar a tomar o lugar dele, já que eu nunca iria aceitar voluntariamente, e agora estava dando pretextos para ser trocado, ou…

Ele precisava desesperadamente da Alésia para alguma coisa a ponto de colocar o próprio andamento da guerra em risco para assegurar a colaboração dela em troca de alguma coisa.

Todas as três possibilidades só me davam mais vontade de estrangular ele enquanto dormia.

Ele não era burro para fazer uma besteira dessas nesse momento maravilhoso do império, então as duas primeiras opções eram as mais improváveis, apesar de não serem impossíveis.

Eu pensei bastante em como responder Isaac. Eu não sabia realmente como lidar com ele. Apesar de Isaac ter crescido e já ter ficado bem alto como um jovem Jomon, na verdade ele não era mais que um mestiço. Ele tinha todas as vantagens e desvantagens das raças da mãe dele e eu.

Não se sabia por que, apesar de ter havido estudos feitos para tentar entender como as coisas aconteciam, mas as almas dos Brards chegavam ao ponto de maturidade emocional muito antes que as dos Jomons.

Não importava o quanto um Jomon aprendesse e progredisse, ele sempre teria uma alma compatível com o momento físico. Eu mesmo nunca consegui me livrar da impulsividade e rebeldia que eu tinha quando meu corpo parou de envelhecer no fim da adolescência.

E Isaac tinha crescido muito rápido, mais rápido do que a mente dele era capaz de amadurecer. Ele tinha se tornado uma criança solitária e magoada no corpo de um rapaz quase adulto.

Eu não estive ao lado dele enquanto ele crescia. Não tinha como eu escapar do julgamento de ter sido um péssimo pai, nem mesmo podia negar a carga de ter que dever Marco pela ajuda que eu recebi dele durante esse período, não importa que motivos ele tenha tido.

Mesmo assim, eu achava inadmissível que ele defendesse Marco não importa o que.  Ele me acusava de ter sido tendencioso por Alésia, mas ele mesmo não negava os defeitos de Marco apenas pelo status de imperador que o pai adotivo exercia?

Eu pensei bastante sobre como responder a ele. Se eu não podia dizer nada, eu só podia fazer com que Isaac pensasse:

— Você pensa que Marco me prendeu por que eu sou mentalmente incapaz de ser responsável por mim mesmo. Mas você acha mesmo que ele colocaria alguém com a mente realmente instável para cuidar do império como braço direito dele?

 

Eu deixei Isaac com Marco e saí do quarto. Ele precisava pensar sozinho e descobrir sozinho no que acreditar. Alésia ainda esperava do lado de fora tentando suprimir toda a ansiedade que estava sentindo. Eu saí e olhei bem para ela. Ela estava perfeitamente bem. Se Marco tinha tentado fazer algo contra ela, ele não tinha conseguido.

Eu suspirei aliviado.

Depois que eu quebrei os dois braços de Marco, ele tinha feito algo parecido com uma “reprogramação” comigo. Ele tinha deixado várias ordens predefinidas sobre como eu deveria proceder ou não de acordo com a situação do caso de acontecer alguma coisa com ele para que eu não pudesse tentar fazer nada de engraçadinho enquanto ele não estivesse olhando.

Eu sempre tinha achado desnecessário, já que o imperador é proibido de sair do palácio pessoalmente não importa a ocasião. E com o nível de poder dele e do pessoal ao redor dele, o que diabos poderia acontecer aqui dentro?

Mas eu não considerei que ele mesmo iria fazer besteira. Porém investigar o que tinha acontecido dentro dos recursos que eu tivesse ao meu alcance definitivamente estava dentro das minhas permissões. E Alésia estava ao meu alcance. Como alguém que estava diretamente envolvida, eu podia falar com ela.

Ela olhou para mim de volta como se eu fosse algo incrível e desconhecido. Como uma novidade. Eu podia ver o quanto ela tinha desejado ficar comigo nem que fosse apenas um pouco durante todo esse tempo. O quanto isso estava mastigando ela por dentro. O quanto isso a fazia sofrer.

— O que aconteceu? — eu perguntei estranhando a suavidade da minha voz. Fazia muito empo que eu não falava com ninguém com um tom tão vulnerável.

Alésia continuou me apenas me olhando por um tempo em transe, como se qualquer outra ação fosse quebrar aquele momento e tivéssemos que nos separar. De verdade, não tínhamos muito tempo, e ela ainda tinha que segurar o impulso de me abraçar, enquanto eu… a coroa me segurava. Depois de um tempo, ela piscou algumas vezes despertando antes de baixar a cabeça e falar:

— Me desculpe… Não tinha outra forma… — ela se desculpou, mas parecia decidida.

— O que ele precisa de você? Ele não teria feito nada disso se não precisasse de alguma coisa. — Eu perguntei sentindo o coração afundar.

— Eu não sei. Ele ainda não disse. Só pediu para me testar antes para saber se eu poderia fazer… — ela continuou explicando sem levantar a cabeça.

Quando eu ouvi isso, o corredor só não pegou fogo inteiramente por que Alésia estava na minha frente e a Criação balanceou a energia que eu estava liberando. Eu conhecia Marco o suficiente para saber que ele tinha motivos, mas eu também sabia que Alésia não iria se render a ele a não ser que ele pudesse oferecer algo que ela não pudesse recusar. E a única coisa que Marco podia dar a ela que ela não tinha como recusar…

— O que ele prometeu para você aceitar isso? — Eu perguntei entredentes, — e o que acontece se você não puder dar a ele o que ele quer?

Se ela tivesse negociado a própria segurança em troca da minha liberdade, eu nunca poderia me perdoar.

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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