DCC – Capítulo 240

Eu não dou a mínima!

 

Henry Siever:


Eu entrei no auditório lotado. A corte estava em peso esperando para saber o que tinha acontecido. Apesar de eu ter mandado selar as informações, era impossível que a situação pudesse ser mantida em segredo por muito tempo.

O melhor caminho seria eu passar alguma declaração antes que as coisas piorassem, e boatos ficassem cada vez mais descontrolados, era necessário que eu fizesse um pronunciamento e esclarecesse as coisas para apaziguar os ânimos.

Eu tinha vindo diretamente dos aposentos do imperador. Ordenei a um dos mordomos que levasse Alésia até um apartamento — meu apartamento, e marquei uma assembleia com os palacianos.

Alésia não quis me contar que tipo de negócios ela tinha feito com Marco, e não havia nada que eu pudesse fazer. Se ela não quisesse dividir uma informação, talvez nem mesmo invadindo a mente dela à força eu seria capaz de remover os segredos que ela guardava, não que eu fosse remotamente fazer algo assim. O talento inato dela em obliquação já era assombroso antes mesmo dela ter começado a praticar magia, então nesse momento ela já era uma mestra obliterante perfeita.

Eu também não podia acompanha-la. Eu já tinha usado a desculpa de “investigar” da situação como desculpa para conseguir falar com ela pessoalmente, quando não havia mais nada para perguntar, a coroa me obrigou a retomar o trabalho.

Assim que me viram entrar, todas as pessoas que lotavam o auditório se calaram e ficaram de pé ao mesmo tempo. Ninguém fazia barulho nenhum, nem mesmo suas respirações eram audíveis.

Eu caminhei a passos largos até a frente da bancada principal, onde havia o trono do imperador e me sentei diretamente nele. Se ainda tinha alguém respirando, todos pararam naquele momento.

Os que estavam mais próximos de mim já exibiam enormes gotas de suor escorrendo por seus rostos e pescoços e encharcando suas roupas caras. Eu passei uma vista rápida sobre todos os rostos que me encaravam em horror. Todos eles estavam com as mais diversas especulações correndo selvagemente pelas ideias.

— Marco está indisposto e por isso irá tirar alguns dias de recesso. Enquanto isso, eu iriei assumir a posição dele como imperador interino e continuar manejando os assuntos imperiais referentes à guerra. Qualquer outro tópico que não seja referente a isso, resolvam entre vocês mesmos.

Quando perceberam que eu não iria falar mais nada, um dos nobres perguntou:

— É verdade que o imperador Marco foi atacado?

— Não.

Todos esticaram os pescoços tentando ter uma visão melhor de mim esperando que eu fosse continuar comentando, mas não havia mais nada a comentar.

— Mestre Henry, por favor, esclareça a situação, — ele insistiu.

— Sobre o que você quer esclarecimentos? — eu perguntei. O nobre se encolheu no próprio assento sentindo o perigo na minha voz. — Eu disse que Marco está apenas indisposto. Está contestando a minha palavra?

— Eu… eu…

— Mestre Henry, por favor, contenha sua raiva. — outro nobre tomou a frente, um pouco mais seguro de si — Testemunhas afirmam ter presenciado uma pessoa rendendo o imperador aos chutes enquanto ele ainda estava inconsciente.

— Você tem certeza? — eu perguntei voltando a minha atenção ao homem.

Ele era um homem no seu auge, começando a mostrar os cabelos grisalhos. O display do meu Link pessoal já estava mostrando todas as informações disponíveis sobre ele, mas eu não me incomodei o suficiente para ler tudo.

Ele já estava no palácio há duas décadas. Ele não tinha passado pelos tempos durante a última guerra. Os nobres que já conheciam meu modus operandi daquela época baixaram as cabeças e se inclinaram involuntariamente para longe dos nobres que falaram.

— Qual o seu nome? — eu perguntei a ele.

— Eu… — ele olhou para mim um pouco hesitante, desconfiado e sem conseguir interpretar que tipo de reação eu estava tendo — me chamo Juan Virgílio.

— Muito bem Raul, quais foram as evidências que você colheu? — eu perguntei seriamente.

Ele sorriu contrafeito por eu ter errado o nome dele mesmo assim não se atreveu a me corrigir, fora isso, ele realmente estava achando que eu estava dando corda a ele. Bom, eu estava. Queria ver ele se enforcar.

— Mestre Henry, o próprio príncipe alegou, na frente de várias outras testemunhas do ocorrido que a mulher conhecida como Ruiva de Sangue estava rendendo o imperador aos chutes e parou apenas quando outras pessoas chegaram ao local.

— Oh, a Ruiva de Sangue dos boatos na macronet? — eu perguntei fingindo interesse.

— Sim senhor, essa mesma. — Juan Virgílio disse estufando o peito como se tivesse orgulho das próprias fontes.

— A mesma que dizem ser a minha esposa?

Os membros mais antigos da corte afundaram mais ainda em seus assentos.

— Como pode ser? Isso é apenas um boato. — ele disse pensando que eu estava irritado com o fato de dizerem que eu era casado com “alguém como ela”.

— Eu não entendi Raul… você está me dizendo que acredita nos boatos sobre a Ruiva de Sangue, mas não acredita nos que dizem que ela é minha mulher. Eu realmente não consigo ver como você montou uma conclusão objetiva e pautada em fatos. Como você pode dizer o que é verdadeiro ou falso sem ir olhar as provas?

— Eu…

Ele me olhou sem entender onde eu queria chegar. Como esse cara tinha conseguido entrar na corte? Eu continuei falando como se estivesse muito interessado na conversa com ele:

— Agora me explique, Raul: você está dizendo que uma mulher sabidamente perigosa entrou no palácio e derrotou o então artista mágico mais poderoso do império humano em um ataque premeditado? É isso que está querendo nos informar?

Raul se empolgou e continuou:

— Exatamente, Mestre Henry. Essa mulher possui poderes desconhecidos capazes de destruir aqueles monstros gigantes. Ninguém pode saber que tipo de corrupção ou arte maligna ela manipula. Há até boatos que ela seja obliterante. É melhor que ela seja presa e todos os cúmplices dela sejam investigados.

— Interessante. Será que qualquer um aqui bem informado pode nos fazer o favor de dizer quem foi que autorizou a entrada da Ruiva de Sangue no palácio?  —Obviamente ninguém teve coragem de tomar a palavra. Eu apontei o dedo aleatoriamente — Você aí da testa grande!

— Meu senhor, foi o senhor mesmo que a escoltou pessoalmente do hangar até a sala do imperador. — o testudo falou com a cabeça baixa botando muita força para não cair de tanto que tremia diante de mim. Pelo menos ele conseguiu falar tudo de uma vez com a voz firme.

Raul finalmente percebeu que tinha feito merda.

— Entendi… Muito obrigado. E ai, Raul, como você diria que eu deveria ser punido? — eu voltei a olhar para Juan.

— O q-que? Pu-pu-pu-punido?

— Sim, Raul… “pu-pu-pu-punido”! Afinal, a Ruiva de Sangue é realmente a minha esposa, a quem eu escoltei pessoalmente para uma audiência privada requisitada pelo próprio imperador.

Juan Virgílio caiu no chão de joelhos de tanto que tremia e baixou a cabeça, completamente aterrorizado. O lerdo finalmente tinha percebido que tinha me ofendido.

— Eu não me atreveria.

— Como não, Raul? — eu continuei insistindo. — Eu claramente disse aqui que o imperador Marco não foi atacado e você contestou a minha palavra, dizendo inclusive que existem testemunhas. Obviamente você está dizendo que eu, além de cúmplice, estou mentindo.

Toda a cor saiu do rosto de todos os presentes. Não importa qual tipo de situação, havia uma espécie de lei mágica que prendia os imperadores à verdade absoluta. Mesmo que eu fosse ocupar esse maldito cargo por meros dias, eu não podia nunca ter me sujeitado às mentiras, ou a magia do palácio iria cair sobre mim como punição. Isso não era muito enfatizado nas demais soberanias, mas era bem conhecido pelos palacianos.

— Mestre Henry, eu não quis… — Raul começou a se explicar.

— Você ouviu qual foi a primeira informação que eu pronunciei ao entrar nesta sala? — Eu o interrompi, me levantei e falei com firmeza deixando que todos saboreassem o poder da minha aura — Eu estou ocupando neste exato momento o cargo de imperador interino. Seja por um ano ou um dia, eu estarei sendo o seu imperador, então se dirija a mim como tal!

— Perdoe-me, Imperador Henry. Eu não tive a intenção de ofendê-lo, é só que…

— “É só que”? “É só que”??? Você ainda está contestando a minha palavra? Se você prefere acreditar nas informações manipuladas pelo inimigo, o que está fazendo nesta sala? — Eu vociferei.

Raul finalmente perdeu a calma. Ele estava começando a se desesperar.

— Mesmo que ela seja realmente sua esposa, ela é um indivíduo perigoso cuja magia não tem procedência. Não dá pra saber que tipo de moral ela baseou o próprio caráter. O senhor defendê-la desta forma está apenas sendo tendencioso por conta de sua relação pessoal.

Eu o encarei com deboche.

— Guardas, convidem o Raul aqui para uma conversa amigável nas celas. Eu quero descobrir de onde ele tirou a coragem para desafiar a minha capacidade de julgamento e vir nesta sala tentar semear discórdia.

— O que? Não! Não é justo! — ele começou a olhar ao redor procurando por ajuda, mas ninguém mais tinha coragem de falar por ele, nem mesmo o Jorginho que tinha falado primeiro.

— Eu não estou falando sobre ser justo. Justiça não tem nada a ver com guerras. Eu estou falando sobre continuar trabalhando para salvar suas bundas. — Neste meio tempo os guardas já tinha alcançado o Juan Virgílio e estavam o arrastando para fora do auditório. Quando os gritos dele finalmente pararam de ser ouvidos ao longe, eu me virei para o restante da minha plateia — Vocês podem continuar fazendo comentários desnecessários, e se voluntariarem a seguir Raul.

Ninguém disse nada. Ninguém mais tinha coragem.

— Estamos em guerra. Vocês enchem a boca para acusar a minha esposa de falta de integridade e de ser perigosa. E não adianta fingirem que isso não passa pela mente de vocês… se eu não pudesse ver o que cada um está pensando, não seria eu aqui na sua frente. Pois deixem-me dizer: sim, ela é sim muito perigosa. Mas eu sou mais.

Ninguém tinha como contestar. Quem tinha acompanhado minha trajetória durante a última guerra, sabia como eu lidava com as coisas. Como médico, eu acreditava fortemente no princípio de que não haveria pacientes para salvar, se não houvesse ninguém para feri-los. Enquanto eu observava o terror nos olhos deles, eu continuei:

— Agradeçam a minha esposa por estar disposta a arriscar a própria vida, segurança e felicidade pela vida inútil de vocês, se não, eu mesmo não me importaria o suficiente para tentar. E vocês sabem que eu não estou exagerando. Por mim, eu nem estaria aqui. Agradeçam a ela por sermos aliados do império e não seus inimigos. Se vocês querem tanto aceitar vídeos forjados pelo inimigo para dividir e fragilizar o nosso lado, então vejam! Este pelo menos é legítimo.

Quando terminei de falar, uma projeção sem som do final da luta entre Alésia e Marco foi reproduzida. O cretino pelo menos tinha tido o tato em deixar aquele pedaço de imagens para trás, o restante tinha sido apagado. Alésia estava sentada no chão olhando para Marco também sentado na frente dela enquanto os dois conversavam.

Não dava para ver o que os dois diziam, mas pelo menos era possível ver tudo o que acontecia até Marco apagar e cair para o lado. Era possível ver a reação de Alésia. Bom, ela realmente tinha cutucado ele com os pés enquanto o chamava, mas em defesa dela, eu também não sujaria minhas mãos com ele.

— Mais alguma dúvida? — eu perguntei como se fosse uma conversa amistosa. Ninguém disse nada — Ah, por falar nisso, convidem o Jorginho ali para fazer companhia para o Raul.

Eu apontei para o primeiro nobre que tinha falado contra Alésia. Ele começou a balbuciar aterrorizado:

— Mas, mas… meu nome não é Jorginho!

— “Mas, mas…” eu não dou a mínima! — Eu caçoei dele enquanto ele era arrastado. Me levantei, saindo da sala e disse sem olhar pra trás — Reunião encerrada!

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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