DCC – Capítulo 241

Duras decisões

Henry Siever:


Tinha-se que levar em consideração que até onde eu sabia, Marco era apenas um humano normal não modificado, então ele não suportava a mesma carga de trabalho que eu. Nas horas seguintes ao meu rápido pronunciamento assumindo como imperador interino, eu impacientemente compareci a todas as minhas reuniões e as reuniões que Marco deveria ter ido.

Os nobres, comissários, representantes e palacianos responsáveis pela evacuação dos planetas afetados pela guerra estavam tendo as mais diversas reações possíveis sobre como lidar com as mudanças.

Não que houvesse muitas, mas a forma de lidar comigo era completamente diferente de como eles tinham que lidar com Marco. Marco era cansado, aparentemente desinteressado, e sempre que possível fazia questão de evitar qualquer complicação possível para não ter que se dar ao trabalho de se estressar com problemas desnecessários.

Eu era da mesma forma, mas eu não me importava nem um pouco com a diplomacia interna ou as consequências das minhas decisões. Eu só sabia que estávamos em guerra. Soberanias aliadas que não obedeciam aos comandos e se sujeitavam ao império estariam necessariamente obstruindo nosso trabalho. Ou seja: estavam contra nós.

Eu deixei isso bem claro no meio de uma das atualizações sobre os relatórios de evacuação no fim da noite.

— Se eles não estiverem prontos quando a tropa de evacuação estiver passando pela orbita, adiantem a agenda e passem diretamente para o planeta seguinte do itinerário. — eu ordenei assim que terminaram de me informar sobre a situação do quadrante 68.

— Majestade? — o relator perguntou parecendo não entender exatamente o que eu queria.

— Qual a sua dúvida?

Os outros nobres ficaram chocados sem saber como reagir, se eu estava fazendo mais algum comentário ofensivo aleatório e gratuito, ou se eu realmente estava falando sério.

— Senhor, se a tropa de evacuação não atender os planetas enquanto estiverem passando por suas órbitas, ela não terá tempo de passar em outra ocasião.

— Então você está dizendo que devemos nos esforçar por estes planetas indecisos que estão atrasando o nosso itinerário de forma deliberada e sacrificar os planetas que já tinham se prontificado desde o princípio mas estão no fim da fila por conta das coordenadas, quando não tivermos mais tempo para evacuá-los?

O relator ficou chocado com a minha colocação. Eu podia dizer que ele não tinha pensado nisso. Mesmo assim alguns outros nobres suspiraram resignados e balançaram a cabeça em negação. Eles sabiam que sacrifícios iriam acontecer e a nossa logística iria determinar quem seria sacrificado.

— Eu não vou decidir que planeta é mais importante, eu vou apenas dar uma única determinação: A rota será seguida de acordo com a forma que apresentar maior eficiência para nossos soldados. Os planetas foram informados do itinerário, e as naves estarão seguindo o cronograma. Quem não estiver pronto na data marcada, será abandonado.

— Majestade, essa decisão…

— Se você tem algo contra minha decisão, apresente uma alternativa melhor, — eu disse com um leve tom de ameaça, eu podia ver todos os pensamentos deles — Se você está com medo da reação pública, isso é problema do setor de relações públicas. Eu não estou apresentando uma decisão arbitrária sem medir as consequências. Atrasos não podem mais ser tolerados. Eu estou perfeitamente ciente que alguns nobres estão deliberadamente infiltrados no império atrasando a evacuação. É uma pena para os cidadãos inocentes dessas soberanias, mas eu não posso aceitar que os cidadãos inocentes dos demais planetas na fila de atendimento sejam implicados por conta dessas ocorrências.

Era um plano simples. Quanto mais planetas atrasassem o itinerário, mais planetas no fim da fila ficariam sem atendimento. Uma vez que esses planetas não pudessem ser evacuados, eles se tornariam nutrição para o poder de Dhar, enquanto os nobres infiltrados estariam a salvo nas fronteiras do império servindo aos dois lados.

Eu sabia que Marco se tornaria um pouco relutante em tomar essa decisão. Ele era benevolente demais com as massas para um cara sádico, mas não havia nada que ele pudesse fazer agora. Eu quem estava no comando enquanto ele estava dormindo. As informações que Alésia trouxe, eu também tive acesso a elas. Era uma pena pelos planetas que ficariam para trás, mas muitos outros planetas estavam à espera de socorro.

Cinco dias se passaram dessa forma, e Marco ainda não tinha dado sinais de que iria acordar durante todo esse tempo. Apesar disso, a expressão dele tinha melhorado consideravelmente. Ele já estava mais com cara de moribundo. O que era uma grande melhora já que antes ele parecia muito mais com um cadáver completo.

Meu medo era Alésia. Ela tinha sido levada diretamente para a minha ala do palácio e tinha ficado lá todo esse tempo. Eu estava aterrorizado por que não sabia o que ela estava pensando.

Normalmente, quando eu estava perto, eu podia sentir as emoções que ela tinha, seja qual fosse, mesmo que eu não pudesse ver o que ela estivesse pensando.

Mas eu não sentia nada. Nenhuma emoção em nenhum momento. Ela não parecia ansiosa em me ver, nem sentir luto por Sátie, nem preocupação pelos pais, nem raiva por Isaac, nem medo pela guerra…

Absolutamente nada.

Assim como Nádia antes de adoecer…

Alésia era muito mais forte que Nádia. Fosse o corpo, a personalidade ou a própria alma, tudo nela era mais forte e decidido. Ela no mínimo tinha uma gana por viver que ninguém mais tinha nesse universo.

Mas as pessoas tinham um grande defeito em suas formas de viver. As pessoas precisavam sentir alguma coisa. Qualquer coisa. Era até mesmo comum que pacientes com depressão chegavam a quadros mais graves ao ponto de não sentir mais emoção nenhuma buscarem alguma forma de mutilação para saborear aquela dor e assim se sentirem vivos.

O extremo oposto dos sintomas também era bastante normal. Quando os pacientes sentiam tanta dor emocional, que qualquer outra forma de dor física passava a ser aceitável para desviar os pensamentos daquelas emoções descontroladas.

Antes sentir dor no corpo que na alma. A alma não era algo tangente que eles pudessem colocar a mão para apaziguar o sofrimento. Mas Alésia tinha esse poder.

Justamente o fato de ela ter dominado o poder da obliquação, dava a ela o controle total sobre as próprias emoções. Ela podia sentir o que quisesse, quando quisesse e quanto quisesse. Não haveria preocupação com descontrole ou emoções fortes demais.

Mas ela não queria isso. Ela era muito no “tudo ou nada”. Eu estava tão preocupado com o que ela estivesse pensando que estava ficando louco. E eu não podia olhar para ela por um único momento que fosse.

No final do quinto dia, enquanto eu trabalhava todas as ideias possíveis do que eu poderia fazer por ela desviando das regras impostas por Marco, o cretino finalmente resolveu acordar.

Isaac me chamou às pressas e eu adiei todas as reuniões das próximas horas para ir vê-lo. Marco estava deitado na cama olhando para o teto com uma expressão vazia e sem vida. Como se a mente dele nem mesmo estivesse ali.

— Você vai continuar fazendo drama, ou vai fazer o seu trabalho? — Eu perguntei com a voz apática.

Marco continuou encarando o teto por vários segundos ainda sem dar nenhuma indicação de que tinha me ouvido. Isaac estava ansioso ao lado do pai adotivo temendo que algo de errado tivesse acontecido dentro dos miolos podres dele.

— Chame Alésia, e se encontrem comigo na Ala das Peônias no lado norte do palácio em duas horas, _ ele disse com a voz rouca.

— O senhor ainda quer vê-la? — Isaac perguntou com uma mistura de choque e indignação. — Mesmo depois do que ela fez?

Marco ainda não tinha despertado completamente. Provavelmente por isso ele ainda tinha pedido um tempo de duas horas para conseguir reorganizar os pensamentos, então quando Isaac falou, ele pareceu confuso.

— Não entendi… o que ela fez? — Marco perguntou.

— Ela… — Isaac pareceu incerto, e olhou para mim sem saber o que dizer — Ela o atacou e o senhor ficou inconsciente por 5 dias? Não lembra? — Então um ideia passou pela mente de Isaac e ele ficou em pé de uma vez — Não é possível que ela tenha usado obliquação contra o senhor, é?

— Ela o que? — Marco e eu perguntamos ao mesmo tempo.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!