DCC – Capítulo 242

Saudades

 

Marco Gionardi:


— Ela o que?

Henry e eu falamos ao mesmo tempo. Mas por motivos completamente diferentes. Eu ainda estava completamente grogue e não consegui entender de onde Isaac conseguiu tirar aquela colocação absurda. Henry por outro lado, tinha que exercer todo o autocontrole para não rir. Fosse de mim ou de Isaac, dizer que alguém tinha usado obliquação contra o imperador era… ingênuo.

Eu olhei para Henry. Ele tinha passado os últimos dias fazendo o meu trabalho. Ele odiava trabalho burocrático muito mais do que eu… e eu podia imaginar que tipo de tolerância e paciência ele tinha exercido com o cuidado com os civis. Eu suspirei, estiquei os braços tentando me alongar um pouco.

— Por que Alésia iria usar obliquação em mim? — Eu perguntei enquanto isso, — Você tem tanta fé nela, ou tão pouca fé em mim?

— Se ela não te atacou, como pode o senhor ter ficado inconsciente por tantos dias? — ele perguntou inquieto, — Além do mais, havia aqueles sinais claros de luta…

É… Eu realmente tinha apagado por um bom tempo. Não havia nada que eu pudesse fazer por conta das preocupações de Isaac sobre isso. Para Henry… contanto que eu não morresse antes que ele pudesse fugir de Keret e se livrar do fardo, ele não se importava, e Alésia. Sei lá o que aquela monstrinha estava pensando naquele momento, mas no mínimo não seria nada educado.

Mas uma coisa era certa:

— Alésia não me atacou. Eu que a chamei para uma disputa para avaliar o progresso dela, só que infelizmente eu não tive condições físicas de suportar as repercussões. Eu tenho estado muito cansado nos últimos tempos com todos esses problemas.

— O senhor… o senhor está defendendo ela? — Isaac constatou incrédulo.

Mas eu neguei com a cabeça e falei com obviedade:

— Não estou defendendo. Essa é apenas a verdade. Eu precisava testá-la e aquela era a única forma.

Muita gente aprendia magia para contribuir para a sociedade dentro de uma função predeterminada. Mas Alésia não tinha um lugar em nosso mundo. Ela tinha aprendido para ser uma combatente… Só me restava lutar com ela para ver até onde ela tinha progredido.

Henry me encarava do lado com intensidade. Eu não precisava ler a mente de ninguém para saber o que estava estampado escancaradamente no rosto dele. É claro que ele sabia que eu não faria alguma coisa assim não fosse por algum motivo complicado. Ele não queria que a esposinha se metesse nos problemas imperiais… como se ela tivesse alguma forma de estar menos envolvida…

Eu suspirei e ignorei a intensidade de Henry esfregando meus olhos embaçados. 

— Vá avisar a garota. Ala das Peônias no lado norte do palácio em duas horas. — Eu avisei. Sem perder tempo, Henry apenas pressionou os lábios com força e virou as costas pronto para sair e cumprir as ordens. Enquanto eu olhava as costas dele se distanciando, eu suspirei mais uma vez. Eu estava ficando fraco… — Quando você estiver dentro da sua ala do palácio, você pode fazer o que quiser por duas horas… Desde que isso não atrapalhe o seu trabalho, nem me prejudique ou contrarie de alguma forma.

Henry parou por um segundo depois de ouvir o que eu disse. Eu pude ver o corpo dele estremecer depois de absorver a minha ordem. Mas ele sequer se virou para confirmar que entendeu. Ele apenas continuou a andar, dessa vez com passos mais apressados. Eu tinha certeza de que ele não tinha saído correndo apenas por que eu e Isaac estávamos olhando para ele.

Assim que a porta do quarto bateu, eu me virei para Isaac. Ele tinha crescido tanto nos últimos poucos anos. Ele já parecia um adolescente no fim da puberdade… Se ele fosse um Jomon completo, ele ainda deveria ser um garotinho, mas ele não era… Ele tinha que lidar com a vida em um corpo que não condizia com a idade mental dele.

Isaac era tão inteligente e talentoso que isso acabava passando batido, até mesmo para ele…

— Sente aqui do meu lado, meu garoto, — Eu sorri para ele e bati algumas palmadas do meu lado na cama, — Temos que conversar algumas coisas, e tem alguém que eu quero te apresentar.

 

Henry Siever:


Eu odiava que meus passos não podiam ir mais rápido. Se bem que eu praticamente não estava tocando no chão… Era proibido voar dentro das dependências do palácio.

Pela primeira vez eu também odiei que a minha ala no palácio fosse tão distante da de Marco. Mesmo assim, eu fiz o percurso em menos de dois minutos, ignorando todos que estavam no meu caminho e ficavam para trás com um olhar espantado.

Eu cheguei na entrada do meu apartamento sentindo meu corpo tremer de ansiedade. Calma… eu precisava de calma. Fechei os olhos e respirei fundo. Eu sabia que ela estava lá dentro, e sabia que ela também tinha percebido a minha presença.

Com mais força e menos jeito do que se espera para se abrir uma porta, eu entrei no apartamento. Lá estava ela, sentada na varanda, banhada pelo sol, beliscando distraidamente uma maçã. Cada célula do meu corpo estava consciente da presença dela.

Tão pequena… Ela tinha crescido, mas ainda parecia tão pequena. As feições dela também tinham envelhecido um pouco e se tornado mais refinadas e adultas.

Meu coração estava partido lembrando a dor que ela tinha sentido naquele dia. Nós dois não envelheciamos mais, então a quantidade de poder que foi usada para atacá-la não foi pouca coisa. E ela ainda por cima absorveu o que podia do que foi usado para atacar Mikal…

— Marco manda avisar… — eu sentia minha garganta seca, mas eu precisava entregar esse recado primeiro, — que quer se encontrar conosco na Ala das Peônias no lado norte do palácio em duas horas.

Alésia não me olhou. Eu sabia que ela tentaria me evitar no que fosse possível. Nos ver em uma situação que não podíamos interagir era uma tortura muito grande.

Passo a passo, eu movi o meu corpo trêmulo em direção a ela. Era tão refrescante, que eu podia simplesmente desmaiar ali mesmo de prazer apenas por estar perto dela. E quanto mais eu me aproximava mais rígida ela se tornava, ao ponto que ela parou de se mover completamente com a maçã na boca sem conseguir terminar de morder.

Eu sabia que por mais que ela tivesse inibido as próprias emoções, ela estava tão consciente de mim quanto eu estava dela.

Até mesmo o aroma que vinha do corpo dela acariciava meus sentidos de forma perturbadora. Eu inalei audivelmente o cheiro do cabelo dela aproveitando aquele momento como nunca antes.

No mesmo instante, a agitação dela escapou em forma de estática e todos os pelos dos nossos corpos se levantaram, e os cabelos dela começaram a voar, mas ainda assim eram a única coisa que se moviam nela.

Eu dei a volta na cadeira, e me ajoelhei na frente dela. Até mesmo a respiração, ela tinha prendido, segurando aquela fruta na frente da boca sem se atrever a baixar o braço ou morder.

Ela também não se atrevia a olhar diretamente para mim e olhava para o prato na mesa. Com cuidado para não fazer contato físico antes que ela relaxasse, eu me aproximei e mordi um pedaço da maçã que estava na mão dela, finalmente conseguindo com que ela olhasse para mim.

Com todas as emoções trancadas, ela não se atreveria a ter expectativas. Então ela esperou calmamente que eu falasse. Eu me aproximei mais e deixei o meu rosto a centímetros do dela.

— Eu estou aqui… volte para mim… — Eu sussurrei ao lado do ouvido dela.

Ela inspirou com força, e a maçã caiu no chão rolando para fora da minha vista.

Antes mesmo que eu pudesse perceber a inundação de emoções que invadiu a mente dela, e que eu pude voltar a sentir também através do nosso laço da alma, ela se jogou nos meus braços me abraçando como se ela quisesse fundir o próprio corpo ao meu.

Toda aquela energia acumulada por nossas Relíquias começou a revolver entre nós dois.

— Eu senti tanto a sua falta, eu estava tão preocupada, eu estava com tanto medo…

Alésia começou a chorar e desabafar com a voz abafada entre meus braços. 

— Olhe pra mim… — eu pedi, colocando o rosto dela entre minhas mãos. Lágrimas escorriam dos olhos prateados e cansados dela.

Sentir o olhar dela era mais eletrizante que toda aquela estática que viajava ao nosso redor. Sem sequer ter muita consciência das minhas ações, eu segui apenas minha vontade e meus instintos naquele momento.

Baixei os lábios e beijei os cantos dos olhos dela tomando para mim cada uma das lágrimas caídas. Naquele momento ela também estremeceu e fechou os olhos ainda segurando com força meu corpo contra o dela, sentindo meus lábios quentes contra a pele gelada dela, descendo dos olhos para a bochecha, e beijando apenas o canto dos lábios que eu tanto desejava, e desci percorrendo o contorno do pescoço dela enterrando minha cabeça no ombro dela.

— Eu também senti tanto a sua falta… — Minha voz saiu mais fraca do que eu esperava.

Mas ela também tinha tanta consciência das minhas emoções quanto eu tinha das dela. Ela me respondeu com um beijo atrás da minha orelha fazendo meu corpo inteiro estremecer.

Eu simplesmente a peguei nos braços e levantei do chão indo direto para a cama.

Que se dane.

Qualquer assunto imperial ficaria pra depois.

 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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