DCC – Capítulo 244

Crisálida Imperial

 

A plataforma continuou descendo por um bom tempo. Não fosse pelos pequenos pontos de luz marcados na parede que passavam por nós em espaços de tempo regulares, eu iria pensar que estávamos apenas parados no escuro.

Quando finalmente chegamos no fundo, eu não pude deixar de imaginar o quão fundo estávamos da superfície.

A parte mais bizarra é que eu não conseguia descobrir nenhuma informação sobre aquele lugar. Não havia nenhum registro sobre o que existia ali em baixo.

— O que estamos fazendo aqui? — Eu perguntei desconfiada.

Marco enviou um comando, e luzes se acenderam iluminando o lugar. Era um galpão enorme.

Os hangares subterrâneos onde vários militares andavam com suas esquadrilhas de naves espaciais e de órbita gigantescas ainda pareciam bem pequenos em comparação. A impressão de imensidão era ainda maior por conta do vazio. Não havia nada ali.

Marco levantou os pés do chão e flutuou no ar indo em direção ao centro do galpão. Eu o segui um pouco atrás.

Havia uma sensação opressiva no ar, como se algo muito perigoso ou poderoso estivesse nos espreitando. Era tão intenso que eu senti todos os pelos do meu corpo ficarem de pé. Quando finalmente chegamos ao centro do galpão, eu percebi que o lugar não estava vazio.

Uma esfera do tamanho de uma bola de praia que crianças usavam estava sozinha ocupando todo esse espaço. Marco pousou ao lado da esfera e ficou olhando para ela. Era estranho. Aquele lugar era grande demais apenas para conter uma única simples esfera.

Então aquela esfera não podia ser algo simples.

— O que é isso? — Eu perguntei quando Marco continuou parado sem falar nada.

Marco suspirou.

— A raça humana sempre foi uma raça cheia de conflitos. Por mais que as pessoas tenham aprendido a lidar com eles e prever muitas coisas depois de observar milhões de anos de história, ainda assim, os conflitos sempre acham novas formas de existir. Quando o império foi formado, há alguns milhares de anos, as pessoas tinham caído nas armadilhas das guerras mais uma vez.

— Então a Aliança dos Maiores se reuniu em Keret e decidiu pela criação do Império… Eu vi isso nas aulas de história. — Eu complementei. Eu não estava entendendo o ponto das reminiscências de Marco.

— Tem certeza? — Ele sorriu pelo canto da boca e perguntou levantando uma das sobrancelhas.

Bom, essa era a versão oficial da história, mas desde o começo eu sabia que a história real nunca condizia à verdade. Sempre haviam omissões e alterações descaradas.

— Sem uma liderança forte, não havia como os planetas mais fortes se aliarem. Além do mais nenhum deles aceitaria se sujeitar aos outros e se tornarem vassalos. A Aliança dos Maiores não foi um tratado amigável, foi um tratado forçado por Erin Castro e Aaron Lamont.

Eu inspirei fundo ao ouvir os nomes que Marco citou. Os guardiões das Relíquias antes de Henry e de Nádia. Eu sabia que eles tinham tido uma vida bem longa, mas não tinha imaginado que tivesse sido tão longa quanto a história do império.

— Erin e Aaron tomaram a frente e foram até os maiores planetas, subjugaram seus líderes e os obrigaram a comparecer na formação da Aliança. A proposta era bem simples: Um império vazio, — Marco continuou explicando. — Um imperador que teria poder absoluto e ao mesmo tempo, não teria poder nenhum. Cada soberania deveria se sujeitar a esse imperador, e esse imperador deveria usar todo esse poder por essas soberanias sem nunca exercer nenhum favoritismo.

— Depois de muita deliberação, foi decidido que o cargo deveria ser ocupado por um Onisciente poderoso. De preferência o mais poderoso, preparado dentro de uma moral impecável. O único problema era como fiscalizar isso.

— Como decidiram fiscalizar? — Eu perguntei, sem reparar, eu já estava absorta naquela história.

— Um homem, um dos artistas mágicos mais poderosos da época cujo nome foi esquecido pela história, decidiu tomar a frente e propor uma solução. Ele falou com Erin e Aaron e depois de muita conversa, decidiram retirar o todo o poder mágico daquele homem e colocá-lo dentro de uma crisálida especial. Essa crisálida deveria ser constantemente alimentada nas gerações seguintes e seria a fonte de poder e controle de cada um dos imperadores.

— Você quer dizer… isso? — eu perguntei chocada. Eu tinha adivinhado que a esfera deveria ser uma espécie de crisálida, mas eu nunca iria supor que ela tinha sido criada depois de sugar o poder de uma pessoa.

— Sim, — Marco respondeu. — Esta é a Crisálida Imperial. Ela é diferente daquelas comuns que se vê por aí. Ela tem o poder de absorver magia e crescer. Cada imperador depois de servir também decidiu ceder toda sua magia para ela, e ao mesmo tempo fizeram uso dela para dar conta de suas responsabilidades. Aqueles que não estiveram à altura do cargo, foram condenados por ela. O poder que ela concede só se torna compatível se o portador abdicar às leis que ela está programada.

Essa parte não era lá um segredo. Era conhecimento comum do império qual era o código de moralidade que deveria ser seguido pelo imperador. Todos admiravam e se espelhavam publicamente no império tentando seguir um modelo semelhante em seus planetas… mesmo assim, eu ainda considerava todos hipócritas.

Ninguém seguiria as leis se uma oportunidade fosse concedida. Aparentemente isso contava inclusive para os próprios imperadores… eles não burlavam as leis por falta de interesse, mas porque estavam rendidos pelo poder dessa crisálida.

— Você tem muita pouca fé na humanidade… — Marco comentou seguindo a minha linha de pensamento.

— Eu estou errada? — Eu comentei com desgosto.

— Não… não está. — Marco suspirou.

— Qual é o seu objetivo me trazendo aqui? — Eu perguntei.

A aula de história estava interessante e tal, mas eu sabia que ele não me traria aqui apenas para turistar. Ele tinha concedido um tempo livre a Henry dentro do acordo que tínhamos feito, o que significava que agora eu também estava a mercê das ordens dele se eu quisesse ter meu marido ao meu lado.

— Dhar se tornou um deus legítimo, e está buscando cada vez mais poder. Ele está testando os poderes dele há muito tempo, enquanto Henry não pode, e você ainda sequer começou a entrar nesse caminho. 

— Por que Henry não pode? — Eu perguntei.

— Por que ele tem um ponto fraco muito inconveniente… — Marco comentou franzindo o cenho.

— Que ponto fraco? — Eu já imaginava qual seria a resposta.

— Qual seria se não fosse você? — Marco comentou com o tom sarcástico? — Ele é poderoso demais, e te ama demais… Você sabe que Dhar nunca lidou com você, não por que ele considera manter sua vida, mas por que quanto mais tempo você e Henry ficarem juntos, mais ele se tornará dependente de você. Ele sabe que a hora de fazer uma jogada contra você ainda não chegou. Se, na possibilidade de Henry realmente dominar todos os poderes de um deus legítimo, ele se tornará praticamente imparável. E nesse momento, se alguma coisa acontecer com você…

Marco não precisava terminar para eu entender o que ele queria dizer. Eu sabia. Eu faria o mesmo, só que eu não tinha tanto poder quanto Marco diz que Henry tem, o impacto das minhas ações seriam bem menores. Se Henry me perdesse no auge de sua força…

— Ele destruiria tudo em um acesso de raiva. — eu terminei a conclusão de Marco.

— Henry é bom para você por que ele te ama. Ele ainda me tolera, por que ele ainda tem algumas ressalvas sobre mim. Até mesmo os sentimentos que ele tem por Isaac não são por causa da relação de sangue entre eles, mas por que Isaac é filho de Nádia. — Marco começou a analisar o comportamento de Henry — Se Henry se tornar mais poderoso do que já é, não precisaríamos sequer esperar que Dhar chegasse até o império. Ele destruiria tudo com as próprias mãos, por que ele não tem sentimento nenhum pelas outras pessoas.

Eu não tinha como argumentar contra isso… eu sabia que era a verdade. Enquanto eu ainda estivesse longe de Henry, ele ainda teria algum autocontrole, mas quanto mais perto estivéssemos um do outro, mas dependente ele se tornaria de mim, assim como eu me tornaria dele.

— Você não tem medo que o mesmo seja válido para mim? — Eu perguntei.

Marco deixou escapar um riso debochado.

— Eh he! Você é diferente de Henry… Henry ama, odeia ou é indiferente. Ele não tem sentimentos irrelevantes. Mas você… com essa mente Brard cheia de caraminholas, você já tem sentimentos de mais. Ao ponto de que nem você mesma os suporta e por isso tenta suprimi-los. Mas você seria incapaz de tirar a vida de pessoas inocentes num ato de raiva. Pelo menos até agora, você não suporta ver o sofrimento dos inocentes.

— Eu conversei pessoalmente uma vez com Dhar antes da guerra… — Marco continuou, — Foi quando percebi que ele era a encarnação de um deus superior. O que ele me disse naquele tempo, ainda não esqueci…

— O que ele disse?

Marco se virou para mim, retirou uma das mãos do bolso e antes que eu pudesse evitar, ele tocou a minha testa no espaço entre meus olhos. Era o mesmo poder que eu tinha usado para reviver as memórias com Mikal. Em um piscar de olhos, estava sozinha em um lugar completamente diferente. Era um planeta selvagem onde o céu azul estava coberto por uma chuva de fogo e em cima o que parecia ser uma lua recém destruída.

Marco estava há poucos metros à minha frente, mas não era o Marco do presente, era uma projeção da memória dele, com uma expressão tensa olhando para uma figura translúcida e etérea que exalava uma aura de morte… Dhar!

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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